VIDE: SABEDORIA DOS PROFETAS
A SABEDORIA DO ALENTO NO VERBO DE JONAS
O nome do profeta Jonas está no título deste capítulo porque a história do resgate de Jonas do ventre da baleia e da poupança por Deus dos cidadãos de Nínive ajuda a ilustrar o tema principal do capítulo, que é a natureza especial do estado humano e a importância de preservar sua vida a todo custo.
Como mencionado na Introdução, o Islã, em consonância com o espírito de todas as principais tradições religiosas, vê o estado humano como especial, sendo como é microcósmico, o que quer dizer que ele reflete as realidades cósmicas e divinas, parte anjo, parte animal. Os Sufis descreveram o homem como o "Istmo" [barzakh] entre Deus e o Cosmo, aquele elo essencial entre o Criador e Sua criação, aquele meio importantíssimo pelo qual Deus Se percebe como manifestado no Cosmo, e pelo qual o Cosmo reconhece sua fonte em Deus, mas que, em isolamento, sem sua referência cósmica ou espiritual, não é nada além de um absurdo.
Assim, o estado humano, cujo epítome é o Homem Perfeito, é ao mesmo tempo extremamente precioso e deve ser valorizado acima de todos os outros estados de existência, e também patético e sem sentido, na medida em que, fora do contexto da polaridade Deus-Cosmo, não é nem uma coisa nem outra; na verdade, não é nada.
O objetivo de toda a vida humana é a realização da perfeição e da completude implícitas e potenciais no estado humano, de modo que cada nascimento humano apresenta ainda uma outra preciosa oportunidade para o cumprimento do potencial original de alguém para ser, por um lado, o representante fiel da servidão cósmica e, por outro, o transmissor perfeito do domínio espiritual. Assim, neste capítulo, Ibn al-Arabi está preocupado em mostrar quão importante é, tanto para Deus quanto para o homem, preservar cada vida humana, na medida do possível, e destruí-la apenas quando as ações humanas cancelam efetivamente o privilégio inerente a esse estado.
Como o autor diz, um dos objetivos dessa oportunidade humana deve ser tornar-se, na medida do possível, o instrumento perfeito para a autoconsciência de Deus na imagem refletida que é o Cosmo. A melhor maneira de se fazer isso, na verdade o melhor de todos os atos humanos, é a lembrança [dhikr] de Deus, não apenas mencionando Seu Nome com a língua sozinha, mas imbuindo cada membro e condição com essa lembrança, uma vez que Deus está com e Se lembra de tudo que se lembra d'Ele. Inversamente, aquele ser humano que Se esquece completamente de Deus esqueceu-se de si mesmo, ou seja, de sua humanidade, por ser também divina, de modo que ele perde esse estado e se torna "o mais baixo dos mais baixos" [XCV:5], dissipado e disperso na multiplicidade infinita do Cosmo, uma vez que é apenas por aquela faísca divina dentro dele que ele pode preservar sua unidade e integridade como homem.
Em conclusão, Ibn Arabi discute o assunto da própria morte e os estados da vida após a morte. Ele sustenta que a morte, longe de ser um fim—uma vez que como pode aquilo que é, na verdade, nada além d'Ele chegar a um fim—é, antes, a dispersão dos vários elementos e aspectos que compõem essa síntese humana e sua re-assimilação, cada um para o seu próprio tipo. Assim, a identidade e a consciência pessoais se tornam plenamente, mais uma vez, o que elas sempre foram na realidade, nomeadamente, Sua Identidade, enquanto as várias partes constituintes do corpo físico revertem aos seus estados cósmicos originais, sendo elas mesmas nada mais do que aspectos de Sua Forma. Assim, não pode haver perda ou esquecimento em nenhum sentido real, visto que tudo não é nada além d'Aquele que nunca morre.
Dando continuidade ao assunto da morte, Ibn al-Arabi aponta que, uma vez que a Ira divina está subordinada à Misericórdia divina, a punição do Inferno no Além não pode ser eterna ou sem atenuação, visto que todos estão em última análise e inexoravelmente na Via Reta, obedientes à Vontade divina e retornando inevitavelmente à sua fonte n'Ele. A salvação, portanto, reside em última análise na realidade inalienável da Unidade do Ser. De acordo com vários dos mestres Sufis, até mesmo o próprio Satanás tinha apenas as melhores motivações para desobedecer ao comando de Deus de se prostrar diante de Adão, na medida em que, percebendo apenas o efêmero no homem, ele não pôde se forçar a associar o que ele via como contingente com Deus. Assim, é, em verdade, apenas nossa percepção e experiência ilusórias da alteridade que são nossa dor, morte e danação.