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id da página: 8705 IBN ARABI – ENGASTES DE SABEDORIA – NO VERBO DE NOÉ Ibn Arabi

Ibn Arabi Fusus Noé


VIDE: SABEDORIA DOS PROFETAS; DA SABEDORIA DA TRANSCENDÊNCIA NO VERBO DE NOÉ

A SABEDORIA DA EXALTAÇÃO NO VERBO DE NOÉ

Este é, talvez, o mais difícil e controverso dos capítulos de Os Engastes das Sabedorias, por causa das incomuns e extraordinárias interpretações do Corão que nele figuram. Certamente, do ponto de vista da teologia exotérica, a abordagem de Ibn Arabi ao material corânico neste capítulo é, na melhor das hipóteses, imprudente, e, na pior, flagrantemente herética. O capítulo também é incomum entre os capítulos desta obra, pois ele não apenas confina seu assunto à situação do Profeta Noé, nomeado no título, mas extrai quase todo o seu material de citação da Sura de Noé no Corão. Assim, este capítulo é, na verdade, um comentário sobre as questões levantadas nessa Sura.

A situação descrita na Sura diz respeito às tentativas de Noé de persuadir seu povo da sua tolice e maldade em adorar seus ídolos e da necessidade urgente de se arrepender e de reconhecer a unidade transcendente do verdadeiro Deus. Ao longo da Sura, Noé clama a Deus para que o vindique e para que puna seus contemporâneos desatentos e teimosos. Ibn al-Arabi usa essa situação não tanto para confirmar a correção de Noé, mas sim para explorar e expor toda uma série de conceitos polares, cuja relação ele discute do ponto de vista da Unidade do Ser.

Ele começa discutindo a tensão entre a noção de transcendência e a de imanência ou comparabilidade, e fica claro, ao se ler mais adiante no capítulo, que ele considera Noé como representante da primeira e o povo de Noé como comprometido com a segunda visão. A explicação no início do capítulo de que ambas as posições estão mutuamente relacionadas e não podem, propriamente, ser consideradas isoladamente uma da outra também deixa claro que ele considera ambos os lados da disputa no Corão não como certos ou errados, mas como ambos representando necessariamente as duas modalidades fundamentais da autoexperiência divina como estando, ao mesmo tempo, envolvida e assimilada na criação cósmica, e totalmente removida e além dela. Na verdade, todos os outros pares de conceitos que ele discute no capítulo são derivados deste par.

Ele prossegue considerando os conceitos exterior-interior, forma-espírito, e elabora mais uma vez sobre o dito do Profeta, «Quem se conhece a si mesmo, conhece seu Senhor», com a clara implicação de que o ser Adâmico, como istmo, como criado à imagem da Realidade, é a síntese microcósmica de forma e espírito, sendo o espírito da forma e a forma do espírito. Na mesma linha, Ibn Arabi se entrega à sua tendência de manipular raízes árabes para ilustrar um ponto. Assim, ele pega a palavra corão, que deriva da raiz qara'a, e a trata como se ela derivasse da raiz qarana, que significa correlacionar, ligar. Ele então contrasta essa nova interpretação da palavra com furqan, de modo que se tem o par de conceitos, correlação-distinção, em outras palavras, aquilo que, por um lado, correlaciona Deus com a manifestação cósmica e, por outro, afirma Sua separação absoluta dela.

Nesse contexto, Ibn Arabi não considera o povo de Noé como necessariamente mal orientado, mas sim como expoentes, embora inconscientes, da realidade da automanifestação divina [tajalli] na multiplicidade sempre mutável das formas cósmicas, implicando que, se Noé tivesse temperado seu transcendentalismo extremo com uma pequena concessão à imanência divina, seu povo poderia ter sido mais receptivo às suas exortações.

É no final do capítulo que as interpretações de Ibn Arabi dos versículos corânicos são, aparentemente, mais contundentes, uma vez que ele parece de fato estar sugerindo significados diametralmente opostos aos geralmente aceitos. Em suma, ele interpreta os «malfeitores», «infiéis» e «pecadores» dos últimos versículos da Sura de Noé como santos e gnósticos se afogando e se queimando não nos tormentos do Inferno, mas sim nas chamas e águas da gnose, perplexos na perplexidade divina de sua consciência do paradoxo de Deus.

Embora à primeira vista incompreensíveis e extraordinárias, tais interpretações pareceriam ser uma tentativa deliberada por parte de Ibn Arabi de demonstrar, da forma mais vívida possível, todas as implicações do conceito da Unidade do Ser, no contexto do qual todas as possíveis oposições e conflitos são resolvidos na inigualável inteireza e unidade da Realidade.