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id da página: 10369 DEUS APÓFASE

Inefabilidade

DEUSAPÓFASE — INEFABILIDADE

Índia

Lilian Silburn: ACESSO AO SEM ACESSO

A Essência única é não somente incomparável, mas inconhecível e portanto indizível.

Dionísio, Ruysbroeck, Al-Hallaj se fazem eco deste testemunho, cada um em uma tonalidade que o caracteriza:

Se a Deidade supera todo raciocínio e todo conhecimento, absolutamente superior à inteligência e à essência, abarcando todas as coisas e as reunindo, as compreendendo e as antecipando, mas ela mesma inacessível a todas apreensões, se exclui sensação e imagem e opinião e raciocínio e contato e ciência, como poderemos discutir seriamente nomes que convêm às realidades divinas tendo então mostrado que a Deidade supra-essencial escapa a toda expressão e transcende todo nome?
«Esta luz simples da essência é infinita, imensa e sem modo», diz Ruysbroeck, e ainda: «Nesta simplicidade toda pura da essência divina não existe nem conhecimento, nem desejo, nem atividade; pois está aí um abismo sem modo onde jamais alcança qualquer compreensão ativa».
Al-Hallaj com sua intransigência costumeira, dizia de Deus: «Nada se mistura com Ele e ninguém não se mistura a Ele... Nenhum pensamento O aprecia, nenhuma ideia O figura nenhum olhar O alcança...» E ele recomendava: «Meu filho guarda teu coração de pensar nEle, e tua língua de citá-lO; emprega-os ao invés a O agradecer sem cessar. Pois, pensar em Sua Essência, imaginar Seus atributos, proclamar Sua Existência, são ao mesmo tempo erro imenso e orgulho desmesurado».


Jili falando a Essência, explica porque ela escapa à razão.

Não se A concebe logo por qualquer ideia racional, também não se A compreende por qualquer alusão convencional; pois não se compreende uma coisa senão por conta de uma relação que lhe designa uma posição, ou por uma negação, logo por seu contrário; ora, não há, em toda existência, nenhuma relação que «situa» a Essência, nem nenhuma designação que se aplica a Ela, logo nada que possa negá-la e naque Lhe seja contrário. Ela é, para a linguagem, com se Ela não existisse, e sob esta relação Ela se recusa ao entendimento humano.


Ao contrário, a evidência reside unicamente no conhecimento imediato e indiferenciado, em que consiste precisamente «a percepção da Essência por Ela mesma».

A Essência é portanto inconhecível mas paradoxalmente, constata Jili, «é impossível ignorá-la»:

Aprendi tudo, global e distintamente

De Tua Essência, ó Tu, em Quem se unem as Qualidades?
Ou é que Tua Face é tão sublime para que Sua natureza possa ser apreendida?
Logo apreendo que Sua Essência não pode ser apreendida.
Longe de Ti que alguém Te sonde, e longe de Ti

Que alguém Te ignore, — ó perplexidade.


Como a razão prosseguirá seu caminho face à evidência? O conhecimento distintivo conduz a uma certeza de ordem intelectual, não à evidência.

Cabe aos xivaítas de Caxemira serem claros a este respeito. Com aquela simplicidade enunciam que a Consciência, evidente por si, em si, é para ela mesma sua própria prova.

Nenhum meio ou critério de conhecimento não pode revelá-la: longe de demonstrar sua existência, estes meios dependem da consciência e, sem ela, nada são. Pôr em dúvida a Consciência, é assumir tacitamente sua validade. Kshemaraja, glosando assim as sutras de Shiva, cita o exemplo seguinte, tirado de um antigo tratado, para mostrar que a consciência se afirma no esforço mesmo que faz para se negar:

A energia consciente de Shiva é semelhante a um homem que se esforça por saltar com seus pés por cima da sombra de sua cabeça, ao passo que (a sombra) de sua cabeça já não se encontra mais aí onde seus pés estavam postos».