No capítulo anterior viu-se que a Misericórdia de Deus impregna todos os seres em todos os planos do Ser. Isto equivale a afirmar que o Ser do Absoluto impregna todos os seres que se podem descrever como «existentes», e que a Forma do Absoluto flui por todo o mundo do Ser. Esta tese, em seu aspecto geral, é a mesma tratada no capítulo IV sob a palavra-chave de tashbîh. No presente capítulo, reconsiderar-se-á a questão a partir de um ponto de vista particular.
Para Ibn Arabi, o símbolo mais adequado da Vida é proporcionado pela «água». A água é o fundamento de todos os elementos naturais, flui e se infiltra até nos mais recônditos recantos do mundo. «O segredo da Vida se difundiu em água». E tudo, na existência, possui um elemento aquático em sua constituição, visto que a água é o elemento mais básico de todos. Tudo vive pela «água» que contém. E o elemento aquático contido, em diversos graus, em todas as coisas corresponde à Ipseidade do Absoluto que, como Actus, flui em tudo.
É significativo que Ibn Arabi mencione a água neste sentido no princípio do capítulo que trata da «sabedoria do invisível» simbolizada por Job. Affifi assinala acertadamente a este respeito que Job constitui, para Ibn Arabi, o símbolo de um homem que se esforça por conseguir «certeza» (yaqin) acerca do mundo do invisível. A dor intolerável que Job experimenta não é, portanto, uma dor física, mas sim o sofrimento espiritual de um homem que luta para alcançar a «certeza» sem obtê-la. E quando Job implora a Deus que o liberte dessa dor, Deus ordena-lhe que se lave na água que flui a seus pés. Aqui, a água simboliza a Vida que flui em todos os seres existentes, e «lavar-se na água» significa submergir-se na «água da existência», chegando assim a conhecer a realidade desta.
Assim, pois, a Água da Vida flui eternamente em tudo. Cada coisa é, em si, um existente único, ainda que imerso no ilimitado oceano da Vida juntamente com todos os demais existentes. No primeiro aspecto, tudo é único e singular, porém, no segundo, todas as coisas perdem sua identidade, imersas na «água» que tudo impregna.