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Joscelyn Godwin

SIMBOLISMOMúsica — Joscelyn Godwin


Wikipedia: Inglês

Um dos grandes estudiosos da tradição esotérica ocidental, em particular da tradição musical, com inúmeros trabalhos publicados conforme bibliografia em seu site oficial JOSCELYN GODWIN

Extrato do Prefácio de GODWIN, Joscelyn. Cosmic music: musical keys to the interpretation of reality. Rochester (Vt.): Inner traditions, 1989

O que é o cosmos? Talvez a palavra evoque diante do olho da mente uma visão de espaços escuros e aterradores, de dimensões e tempos que ultrapassam a compreensão, aparições de beleza não terrena: galáxias brancas e frias, planetas calorosamente coloridos, sóis sem número. É um lugar de supremo mistério, onde a relativa segurança da terra é deixada para trás, o clima é hostil a toda forma de vida como a conhecemos, e até mesmo a matéria deixa de comportar-se de modo previsível. Em suas fronteiras espreitam os estranhos devaneios da ficção científica, aparentemente a realizarem-se gradualmente como um mau sonho que se torna realidade.

Esse quadro do cosmos, que tantas pessoas partilham hoje, reflete as aspirações e temores da humanidade moderna no fim de um ciclo do mundo; e, como em toda outra época, esta formou sua visão de mundo em grande parte à sua própria imagem: não à imagem de seu corpo físico, mas a uma imagem que reflete o que fez da mente humana. Onde outrora portais se abriam para os céus, agora escancaram-se buracos negros, prontos a engolir tudo no esquecimento. Tal é a visão que muitos têm da morte: um portal para a extinção da consciência. Onde outrora os anjos planetários guiavam seus carros astrais, agora forças cegas impelem estrelas e planetas inexoravelmente ao seu destino fatal. E o canto criador ou a palavra de Deus reduz-se miseravelmente a um “big bang”.

Para os gregos, a palavra kosmos originalmente não sugeria nenhum desses fatos ou fantasias, mas antes algo ordenado, decorativo e bem arranjado. Como muitas raízes antigas, abre uma janela para uma visão muito diferente do cosmos: uma que o revelava como ornamento divino. Os céus apareciam às civilizações antigas como artisticamente dispostos, regulares e previsíveis, agradáveis ao olhar e à mente. Em latim, a palavra correspondente mundus também carrega conotações de limpeza e elegância, sugerindo um estado de coisas muito diferente do de nosso planeta sujo e desordenado. Não apenas o universo é exatamente como foi projetado para ser, mas fenômeno tão belo e engenhoso só pode ser obra de um supremo artista. Se o cosmos parece hostil à humanidade, isto se deve apenas a circunstâncias especiais conhecidas pela ciência da astrologia. Que ele devesse ser hostil à vida—tal como a conheciam—é absurdo. Pois onde poderia a vida ser mais viva, a inteligência mais aguda, do que na atmosfera rarefeita e não restritiva dos céus? Onde se poderia ouvir música mais bela do que a das esferas e de seus anjos guias, as Sereias?

O que nossos tempos difíceis e ameaçadores necessitam, mais do que qualquer outra coisa, é de uma revolução na cosmologia: uma revisão completa da maneira como as pessoas instruídas foram treinadas a considerar seu ambiente cósmico. Apenas depois disso poderão ocorrer na terra aquelas outras mudanças pelas quais toda pessoa responsável anseia. Os autores deste livro estão bem cientes disso. Cada um, à sua maneira, realizou essa revolução cosmológica, e convidam-nos a fazer o mesmo. Mas a revolução que propõem é ainda mais radical do que a de Copernico, Kepler e Galileu, que apenas trocaram uma imagem por outra—o sistema heliocêntrico pelo geocêntrico. O que agora se exige é que o ouvido volte a ter precedência sobre o olho usurpador: que o tom, não os diagramas ou as palavras, seja novamente reconhecido como o reflexo mais verdadeiro da realidade, e a audição honrada como o sentido pelo qual melhor podemos aprender sua natureza.

Todo amante da música sabe intuitivamente que a música encarna certa verdade, mas poucos chegam a obedecer a essa intuição e buscar a verdade por meio da música. A maioria aceita que a verdade pertença legitimamente à ciência, à religião ou à filosofia, enquanto as artes, por mais vitais que sejam a uma vida plenamente humana, ainda são apenas questões de opinião e gosto. Propomos, ao contrário, tomar literalmente a máxima de Beethoven de que “A música é uma revelação mais elevada do que toda sabedoria ou filosofia.” Assim, penetrar os mistérios da música é preparar-se para a iniciação naqueles mistérios insondáveis do homem e do cosmos. Suas descobertas estarão prenhes de implicações para todos os domínios da vida: isso ficará evidente a todo aquele que ler estes ensaios.


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