Wikipedia: Inglês
Um dos grandes estudiosos da tradição esotérica ocidental, em particular da tradição musical, com inúmeros trabalhos publicados conforme bibliografia em seu site oficial JOSCELYN GODWIN
O que é o cosmos? Talvez a palavra evoque diante do olho da mente uma visão de espaços escuros e aterradores, de dimensões e tempos que ultrapassam a compreensão, aparições de beleza não terrena: galáxias brancas e frias, planetas calorosamente coloridos, sóis sem número. É um lugar de supremo mistério, onde a relativa segurança da terra é deixada para trás, o clima é hostil a toda forma de vida como a conhecemos, e até mesmo a matéria deixa de comportar-se de modo previsível. Em suas fronteiras espreitam os estranhos devaneios da ficção científica, aparentemente a realizarem-se gradualmente como um mau sonho que se torna realidade.
Esse quadro do cosmos, que tantas pessoas partilham hoje, reflete as aspirações e temores da humanidade moderna no fim de um ciclo do mundo; e, como em toda outra época, esta formou sua visão de mundo em grande parte à sua própria imagem: não à imagem de seu corpo físico, mas a uma imagem que reflete o que fez da mente humana. Onde outrora portais se abriam para os céus, agora escancaram-se buracos negros, prontos a engolir tudo no esquecimento. Tal é a visão que muitos têm da morte: um portal para a extinção da consciência. Onde outrora os anjos planetários guiavam seus carros astrais, agora forças cegas impelem estrelas e planetas inexoravelmente ao seu destino fatal. E o canto criador ou a palavra de Deus reduz-se miseravelmente a um “big bang”.
Para os gregos, a palavra kosmos originalmente não sugeria nenhum desses fatos ou fantasias, mas antes algo ordenado, decorativo e bem arranjado. Como muitas raízes antigas, abre uma janela para uma visão muito diferente do cosmos: uma que o revelava como ornamento divino. Os céus apareciam às civilizações antigas como artisticamente dispostos, regulares e previsíveis, agradáveis ao olhar e à mente. Em latim, a palavra correspondente mundus também carrega conotações de limpeza e elegância, sugerindo um estado de coisas muito diferente do de nosso planeta sujo e desordenado. Não apenas o universo é exatamente como foi projetado para ser, mas fenômeno tão belo e engenhoso só pode ser obra de um supremo artista. Se o cosmos parece hostil à humanidade, isto se deve apenas a circunstâncias especiais conhecidas pela ciência da astrologia. Que ele devesse ser hostil à vida—tal como a conheciam—é absurdo. Pois onde poderia a vida ser mais viva, a inteligência mais aguda, do que na atmosfera rarefeita e não restritiva dos céus? Onde se poderia ouvir música mais bela do que a das esferas e de seus anjos guias, as Sereias?
O que nossos tempos difíceis e ameaçadores necessitam, mais do que qualquer outra coisa, é de uma revolução na cosmologia: uma revisão completa da maneira como as pessoas instruídas foram treinadas a considerar seu ambiente cósmico. Apenas depois disso poderão ocorrer na terra aquelas outras mudanças pelas quais toda pessoa responsável anseia. Os autores deste livro estão bem cientes disso. Cada um, à sua maneira, realizou essa revolução cosmológica, e convidam-nos a fazer o mesmo. Mas a revolução que propõem é ainda mais radical do que a de Copernico, Kepler e Galileu, que apenas trocaram uma imagem por outra—o sistema heliocêntrico pelo geocêntrico. O que agora se exige é que o ouvido volte a ter precedência sobre o olho usurpador: que o tom, não os diagramas ou as palavras, seja novamente reconhecido como o reflexo mais verdadeiro da realidade, e a audição honrada como o sentido pelo qual melhor podemos aprender sua natureza.
Todo amante da música sabe intuitivamente que a música encarna certa verdade, mas poucos chegam a obedecer a essa intuição e buscar a verdade por meio da música. A maioria aceita que a verdade pertença legitimamente à ciência, à religião ou à filosofia, enquanto as artes, por mais vitais que sejam a uma vida plenamente humana, ainda são apenas questões de opinião e gosto. Propomos, ao contrário, tomar literalmente a máxima de Beethoven de que “A música é uma revelação mais elevada do que toda sabedoria ou filosofia.” Assim, penetrar os mistérios da música é preparar-se para a iniciação naqueles mistérios insondáveis do homem e do cosmos. Suas descobertas estarão prenhes de implicações para todos os domínios da vida: isso ficará evidente a todo aquele que ler estes ensaios.
DESTAQUES: