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id da página: 10635 MISTÉRIO SANTÍSSIMA TRINDADE

Mysterium Trinitatis



FREI HARADA: ESTUDOS SOBRE MESTRE ECKHART

A esse modo de ser que precisamente não é mais modo, mas simplesmente ser, ou ser como plenitude ab-soluta, a Tradição do Cristianismo chamou de Deus, quaod se ou vida interior ou vida íntima de Deus, formulada como Mistério da Santíssima Trindade. E os termos da compreensão dessa vida que é o próprio Deus ou o próprio seu, são o uno ou um e o três como pessoa (Pai-Filho-Espírito e na dinâmica da sua geração e processão ou filiação). O a priori dessa pré-compreensão do sentido do ser de Deus, ab-soluto, livre e solto em (in) e a partir de si (a se), portanto, do Desprendimento (Abgeschiedenheit) assume a pré-compreensão do sentido do ente no seu todo como o da existência artesanal-artística medieval, e faz com que a própria compreensão da Criação e das criaturas, não mais seja nem a da causação, nem a da criação artístico-artesanal, mas sim a da participação na dinâmica da geração da vida interna de Deus, denominada na teologia medieval Mistério da Santíssima Trindade. A causação e a Criação são no fundo a dinâmica da filiação divina. Todos os entes referidos à dinâmica da causação e da Criação participam na dinâmica da filiação divina da intimidade da vida interna de Deus na ternura e no vigor da sua Abgeschiedenheit. Se evitarmos rigorosamente de entender pessoa, geração ou filiação e tudo que diz respeito à vida íntima de Deus, portanto à Abgeschiedenheit a partir e dentro de compreensão que não venha a não ser dela mesma, e se tentarmos entender todos outras compreensões do ser, a partir da Abgeschiedenheit, então o fantasma do panteísmo se esvai. E aparece a sonoridade de fundo, a partir e dentro do qual devemos ouvir a toada universal da presença operativa, i. é, do wirken, do Werk e da Wirklichkeit da bondade difusiva do Pai-Filho-Espírito em todos os entes, desde os mais sublimes até aos mais insignificantes, como imenso, profundo e originário abismo do encontro no Amor que nos amou e gerou primeiro. Essa atuação, denominada criação e considerada a partir e dentro do sentido do ser da existência artesanal-artística tem o correlativo agente dessa ação que se denomina Deus Criador. Essa consideração, cuja perspectiva não leva em conta a subsunção e transformação desse ser da existência artesanal-artística pelo sentido do ser da Filiação, denomina uma tal ação de atuação ad extra de Deus, e aqui Deus é considerado quoad nos. Como o sentido do ser operante em uma tal Criação e correspondentemente em seu agente, a saber no Criador e no seu efeito Criatura é o sentido do ser do ente simplesmente dado como “coisa”, todo o cuidado a ser tomado é para que a aproximação e o contato Deus-Criatura não nos leve a um panteísmo. No momento em que se leva em conta que com a subsunção e transformação desse sentido do ser da existência artesanal-artística através do sentido do ser da Filiação, tudo muda, de tal forma que aqui a possibilidade de um panteísmo só surgiria se não se guardar com precisão o sentido do ser operante nessa nova concepção de Deus — Abgeschiedenheit e na dinâmica da Filiação que de lá eflui. Na leitura dos sermões de Eckhart é necessário guardar a precisão da ambiguidade, onipresente nos seus textos, proveniente dessa subsunção “ontológica” realizada pelo ser ou sentido do ser da Abgeschiedenheit, do ser ou sentido do ser da Criação e causação.