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Real

REALIDADE — REAL

O real é tanto o operante como o operado, no sentido daquilo que leva ou é levado à vigência. Pensando-se de maneira bem ampla, "realidade" (Wirklichkeit) significa, então, estar todo em sua vigência, significa a vigência em si mesma acabada do que se pro-duz e se leva ao vigor de si mesmo. "Operar", "wirken", pertence à raiz indo-europeia uerg de onde provém a palavra "obra", "Werk", e o grego ergon. Mas nunca será demais repetir: o traço fundamental de "operar", "wirken", e de "obra", "Werk", não reside no efficere e no effectus mas em algo vir a des-encobrir-se e manter-se desencoberto. Mesmo quando os gregos, a saber, Aristóteles, falam daquilo que os latinos chamaram de causa efficiens, eles nunca pensam em causa e efeito. Para eles, o que se per-faz num ergon é o que se leva à plenitude da vigência; ergon é a vigência, no sentido próprio e supremo da palavra. Somente, por isso, Aristóteles chama a vigência do que está em pleno vigor de sua propriedade, de energeia ou também de entelecheia, ou seja, o que se mantém na plenitude (de sua vigência). Em sua força significativa, um abismo separa estes dois termos, cunhados por Aristóteles para dizer a vigência em sentido próprio e pleno do vigente, do significado posterior e moderno de "energia" e "enteléquia", entendidas, como condição e capacidade inatas para agir.

Nossa palavra "realidade" [Wirklichkeit] só traduz adequadamente a palavra fundamental de Aristóteles para a vigência [Anwesen] do vigente (energeia) se pensarmos "real" e "realizar" de modo grego, no sentido de trazer para (her) o desencoberto [Unverborgene], de levar para (vor) a vigência [Anwesen bringen]. "Wesen", "viger" é a mesma palavra que "währen" "durar", "permanecer", "ficar". Pensamos a vigência, como a duração daquilo que, tendo chegado a desencobrir-se, assim perdura e permanece. Desde o tempo posterior a Aristóteles, este significado de energeia, ficar e permanecer em obra, foi entulhado por outros significados. Os romanos traduzem, isto é, pensam ergon a partir da operatio, entendida, como actio, e dizem para energeia actus, uma palavra inteiramente outra e com um campo semântico totalmente diverso. O vigente numa vigência aparece, então, como o resultado de uma operatio. O resultado [Ergebnis] é o que sucede a uma actio, é o sucesso [Er-folg]. O real é, agora, o sucedido, tanto no sentido do que aconteceu, como, no sentido do que tem êxito. Todo sucesso é produzido por algo que o antecede, a causa. É, então, que o real aparece à luz da causalidade da causa efficiens. Até Deus é representado na teologia, não na fé, como causa prima, causa primeira. [...]

No sentido de fato e fatual, o "real" [Wirkliche] se opõe ao que não consegue consolidar-se numa posição de certeza e não passa de mera aparência ou se reduz a algo apenas mental. Mas, mesmo nestas mudanças de significado, o real sempre conserva o traço mais originário de vigente [Grundzug des Anwesenden], daquilo que se apresenta por si mesmo, embora se ofereça agora com menos ou com outra intensidade.

É que, agora, o real se propõe em efeitos e resultados. O efeito faz com que o vigente [Anwesende] tenha alcançado uma estabilidade e assim venha ao encontro e de encontro. O real se mostra, então, como ob-jeto (Gegen-stand). [Martin Heidegger: Ciência e pensamento do sentido — O Real. Tr. Marcia Schuback]


Considera-se frequentemente como real (de res) tudo quanto se opõe a possível. Considera-se como real o ser atual (e não apenas em potência) o ser que constitui uma realidade objetiva, o que não é puro pensamento (captado ou realizado pelo ato de pensar), sem correspondência extra-mentis.

Neste caso, o real opõe-se extrinsecamente ao nada. É um diferente absoluto deste. Não se pode propriamente dizer que o real mantém uma relação de oposição extrínseca ao nada, por faltar a este realidade, o que tornaria tal relação sem consistência de res. Mas como podemos conceber o nada por oposição ao ser, o nada seria a total e absoluta recusa de ser ao ente, o que dá, portanto, realidade à relação entre o real e o nada, o primeiro como esquema noético, abstrato portanto, mas consistente, e nada, como esquema abstrato noético da recusa de toda prefixação sistencial e, ademais, recusa de toda e qualquer sistência.

Se considerarmos assim, tem realidade tudo quanto é alguma coisa, tudo quanto não lhe podemos predicar a recusa total e absoluta de ser alguma coisa.

Portanto tudo quanto é entitas, isto é, tem a propriedade do que possui o ser, em qualquer sentido e em qualquer grau que seja, é real. é aliquid res.

Colocado neste ponto, real opor-se-ia apenas a impossível, pois o nada é impossível e o que realmente podemos predicar ou apontar impossibilidade é nada (realmente, aqui, refere-se à proposição fundada na realidade da recusa, não no impossível, que não é entitas com perseidade, mas apenas o que conceituamos da impossibilidade, cuja realidade noética lhe é dada pela proporção à realidade recusada).

Se considerarmos que real é apenas o que tem atualidade, excluímos desse conceito o possível. Mas o possível não contradiz o ser. E o possível não pode ser considerado mero nada. Se não é nada, é alguma coisa (aliquid); se é alguma coisa tem entitas, tem ser em um certo grau, ao menos, e se o tem, tem realitas. (Pode o que concebemos possível não o ser; neste caso a não realidade do possível, tomado em si noeticamente, é uma realidade noética, embora falsa. Neste caso a elaboração noética é real, não o é a referência tomada como fato. Ou em outras palavras: há uma realidade noética e uma irrealidade ôntica.

Em "Teoria do Conhecimento", tivemos ocasião de examinar a posição dos escolásticos e as polêmicas travadas entre eles sobre o real e a realidade.

Se considerarmos que é real tudo quando se põe afirmativamente, em si ou em outro, teríamos uma realidade em si e uma realidade em outro. Um ser de razão seria uma realidade em outro, uma existência em outro, de realidade mais restrita que um ser que tivesse perseidade, como um ser físico, que seria real-físico, enquanto o primeiro seria real-ideal (ou ficcional, ou conceitual, etc).

O tema da realidade interessa sobremaneira à filosofia moderna, e foi estudado com o máximo cuidado por Nicolai Hartmann, veja nosso resumo em "real e realidade". [Mário Ferreira dos SantosOntologia e Cosmologia]




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