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id da página: 11413 Nothomb Caim e Abel

Nothomb Caim e Abel



O sagrado chama o sacrilégio mas também os sacrifícios. Se aquele que a Bíblia das origens atribui a Caim e Abel não é sangrento é que o afastamento entre os descendentes de Adão e Deus ainda está nos seus inícios. A “religião” não teve o tempo de inventar o deus ávido de sangue e de vingança no lugar do Deus da liberdade, que o espírito lógico estreito já não consegue integrar na Irrealidade crescente do seu universo mas, que próximo do Éden, permanece presente na sua lembrança. O texto (Gen 4) nos diz que YHWH se inclina para a oferenda de Abel mas se afasta da de Caim, e que este fica ultrajado. Nas nossas bíblias, se assim se compreende, somos tentados a acusar Deus, a exemplo de Eva. Por sua arbitrariedade, que despreza o rejeitado, embora se a chame de “graça”, Deus não é o primeiro responsável do ciúme que Caim nutre doravante para com o seu irmão, e que o levará a o matar? Mas no original a preferência manifestada para com Abel não tem nada de arbitrário. O texto diz claramente que Caim era um partidário resoluto da “condição humana” enquanto Abel se opunha a isso.

É o que resulta do único qualificativo concedido a Caim na apresentação dos dois irmãos, ele é “servo de adama” o que não quer dizer cultivador numa época onde o trabalho do solo não era ainda praticado. Mas ele queria, sim, transformar a Criação em pior para a adaptar ao seu estado mortal o melhor possível, em vez de tentar sair deste estado mortal contra-natureza e reencontrar a plena Realidade da Criação. Abel por outro lado é qualificado de “pastor” como se qualificarão eles mesmos mais tarde os filhos de Jacob por oposição aos súditos do Faraó. É pelo menos um homem que se quer livre, e oferece a YHWH produtos das suas ovelhas como se nutre delas, sem buscar explorar o seu ambiente, o que Caim faz que oferece a Deus “frutos da adama” que Deus declarou maldita em Gen 3,17 (4, 2 a 6).

Curiosamente nas nossas bíblias, é Caim que oferece a Deus “frutos do solo”, e Abel que tem a aparência de fazer um sacrifício sangrento dos primogênitos do seu rebanho, dos quais ele oferece pelo menos a “gordura”. Mas a palavra hebraica HLB (pronunciem “halav”) do texto quer primeiro dizer “leite” e os “primogênitos” do seu rebanho, cujo plural é de terminação feminina, designam verossimilmente as ovelhas das quais ele oferece o leite, e não a gordura nem a carne.

Evidentemente ao seguir esta tradução das nossas bíblias, não compreendemos nada do desagravo infligido por Deus a Caim e do seu encorajamento a Abel.

E se nos perguntamos quais poderiam bem ser concretamente estes “frutos da adama” que Caim na nossa tradução oferece a Deus, e dos quais este se desvia. Arriscaremos uma sugestão de resposta um pouco mais adiante, logo que o texto nos a fornecer. Pois não inventamos nada de nós mesmos.

Além disso se Ele desaprova a conduta de Caim, Deus não o rejeita e o manifesta ao engajar com ele um diálogo, tão dramático e tão vão, como o do jardim com os seus pais. Ele tenta o convencer que ele está errado. Mas Caim se obstina, desafia Deus, o acusa e finalmente lhe vira as costas e se vai “para o oriente de Éden” prosseguir à sua vontade, com a sua descendência, a sua obra de matador.

Não é certo que a comece pelo assassinato do seu irmão. Mas este assassinato constitui a sua primeira “resposta” a Deus que lhe pergunta “Por que estás irritado? Não depende senão de ti que eu te aprove. Escuta a tua natureza, e não a tua inclinação contra-natureza que espreita à tua porta como uma fera deitada. Arranquem-se ao pesadume!”

Nas nossas bíblias podemos crer que Deus coloca Caim diante de uma escolha moral e não existencial, pois elas traduzem “Se tu ages bem”, “Se tu não ages bem” (algumas até traduzem “Se tu ages mal”. O verbo hebraico é TWB (pronunciem “tov”) como o adjetivo que quer certamente dizer “bom” e “bem” mas que remete sobretudo no contexto ao qualificativo que Deus, no relato dos Seis dias, dá constantemente à sua Criação. “Agir bem” é portanto aqui agir segundo a sua natureza, tal como Deus a criou, e que levará Caim, se ele a escutar, a se desprender da pesadume. A tradução literal que a “Bíblia de Jerusalém” dá em nota desta sequência é: “Não é senão ages bem, elevação.” (4, 7) Traduzimos por “inclinação contra-natureza” o hebraico HT’H (pronunciem “hataha”) que em vez de “pecado” significa “desvio”. A “fera deitada” que espera na porta é uma alusão à “serpente rastejante” do jardim, alegoria do espírito lógico “achatado”, cuja astúcia consiste em persuadir cada um que ele lhe obedece, enquanto é cada um que lhe obedece. Daí a tradução que propomos para esta primeira fala de Deus a Caim: “E YHWH disse a Caim: por que estás com raiva e por que o teu rosto decai? É que não sabes que se ages segundo a tua natureza, transcender se impõe, e que se não ages segundo a tua natureza, o que te espera é um desvio de um raciocínio dócil que te deseja por mestre?” (4, 6 e 7)

O texto não nota réplica de Caim a esta fala, mas continua: “E Caim falou a Abel o seu irmão (o texto não precisa do que, talvez para sugerir que ele lhe falou para não dizer nada), e aconteceu que estando ambos nos campos Caim atacou Abel o seu irmão e o matou.” (4, 8)

Depois do assassinato de Abel, a segunda resposta de Caim a Deus que lhe pergunta desta vez “Onde está o teu irmão?” é a célebre réplica, que as nossas bíblias traduzem “Não sei, sou eu o guardião do meu irmão?” e que passa pelo cúmulo da insolência e da mentira. Mas nos parece que ela exprime antes o profundo desconcerto do assassino, descobrindo de repente que ele carrega nele a sua vítima e que nunca se livrará dela. Que ele é o “guardião”, o depositário do seu irmão — de todos os seus irmãos — e que ele não o sabia. Ao matar ele se matou a si mesmo.

Em hebraico — e o caso é muito raro — a forma sufixada do pronome pessoal da palavra ’H (pronunciem “ah”) que quer dizer “irmão” é a mesma no plural que no singular, de forma que se pode ler tanto “meus irmãos” como “o meu irmão”, “os teus irmãos” como “o teu irmão”, etc. Dito de outra forma o teu irmão = os teus irmãos, e como o teu irmão és tu, faz Deus compreender a Caim, temos aqui uma afirmação impressionante do Homem Uno. (4, 9)

E é então que Caim é tomado pelo remorso que Deus o tranquiliza de alguma forma ao lhe perguntar “O que fizeste?” não para o saber mas para que ele O escute. E diante do silêncio de Caim, Ele lhe ensina que para Ele, Deus, ao menos, o seu irmão que ele crê ter matado não o está. Ele ouve a sua voz sair da “adama”, ou seja, do não-lugar, da Irrealidade da morte onde Caim se encontra e a quis fazer desaparecer para sempre. E agora, Ele lhe diz, és amaldiçoado mais que esta “adama” que recolheu da tua mão o sangue do teu irmão, pois é a tua mão que o feriu e não ela. Ela não é responsável, e tu o és, é a tua obra. A tua obra de morte. Por mais que a cultives, a bajules, a cortejes, ela não te dará mais estas satisfações de potência que tu tiravas dela na tua inconsciência. Serás errante e vagabundo sobre a terra.