Skip to main content

Paracleto

ESPÍRITO SANTO — PARACLETO


VIDE: CONSOLADOR; JESUS CRISTO; PENTECOSTES

Joaquim Carreira das Neves: Excertos de "Escritos de São João"
O termo PARÁCLITO aparece apenas em João (na 1 Jo 2,1 refere-se ao próprio Jesus) e de mãos dadas com o ESPÍRITO SANTO.

A luz da filologia grega, Paráclito pode ter duas procedências. Pode derivar do verbo parakaleô, que significa "chamar para" o lado de alguém, isto é, alguém que esteja ao lado do inocente para provar a sua inocência. Neste sentido, é o "advogado" ou "defensor" do inocente. Mas pode derivar de paraklèsis, que significa "exortação" e "encorajamento". Neste sentido é o "consolador". O significado próprio depende do contexto e não apenas da etimologia.

O Paráclito aparece apenas nos discursos de Adeus e por seis vezes.

No primeiro texto, em 14,16-17, Jesus diz: "Eu apelarei ao Pai e ele vos dará outro Paráclito para que esteja sempre convosco, o Espírito da Verdade, que o mundo não pode receber, porque não o vê; vós é que o conheceis, porque permanece junto de vós, e está em vós." Neste texto, o Paráclito será dado pelo Pai, mas a pedido de Jesus. Se Jesus diz outro Paráclito significa que o primeiro Paráclito é o próprio Jesus. E trata-se de "outro" porque Jesus vai deixar os seus discípulos, mas não quer que fiquem tristes ou desprotegidos. Logo, o significado de Paráclito é o de consolação (Consolador). Este Paráclito estará "sempre com eles" e chama-se também o ESPÍRITO DA VERDADE. O genitivo "da verdade" é um genitivo objectivo, de modo que o Espírito é a mesma Verdade. Os discípulos devem saber que possuem a "verdade" que Jesus lhes pregou e que vai ser testemunhada pelo Espírito. E uma verdade que o mundo da não-fé não pode receber, mas que o mundo da fé dos discípulos bem conhece porque Jesus a revelou. Assim sendo, o Paráclito/Verdade "permanece neles e está neles". Este Paráclito/Verdade continua as funções do Jesus histórico de João após a sua morte.

No segundo texto, em 14, 25-26, Jesus diz: "Fui-vos revelando estas coisas enquanto tenho permanecido convosco; mas o Paráclito, o Espírito Santo que o Pai enviará em meu nome, esse é que vos ensinará tudo, e há-de recordar-vos tudo o que eu vos disse." Uma vez mais, o Paráclito vai substituir a pessoa de Jesus, mas agora como revelador. O fato de ser "revelador" afasta-se da etimologia acima referenciada. Também se chama Espírito Santo, e também é enviado pelo Pai em nome de Jesus. Como revelador, ensinará tudo, que o mesmo é dizer, "recordará tudo o que Jesus disse" aos discípulos. Os verbos "revelar", "ensinar" e "recordar", neste contexto, são sinônimos.

No terceiro texto, em 15,26, o conteúdo e a relação entre o Paráclito, Jesus e o Pai, já são um pouco diferentes dos dois textos anteriores: "Quando vier o Paráclito, o Espírito da Verdade, que procede do Pai, e que eu vos hei-de enviar da parte do Pai, ele dará testemunho a meu favor." Como em 14,15, o Paráclito é apelidado "Espírito da Verdade", mas a sua procedência emana diretamente do Pai, embora, logo a seguir se afirme que é Jesus quem o "envia da parte do Pai" para "dar testemunho a seu favor". O interesse da afirmação reside no "testemunho" do Paráclito a favor de Jesus. Desta forma, o Paráclito nem é o "advogado", o "consolador" ou o "revelador", mas o "companheiro" eterno de Jesus, que o conhece, de modo a poder testemunhar sobre a verdade do mesmo Jesus. E é importante a afirmação que se segue sobre o testemunho dos discípulos no v. 27: "Por isso (kai de origem e de finalidade), também haveis de dar testemunho, porque estais comigo desde o princípio." Jesus envia aos discípulos o Paráclito que procede do Pai para que eles deem testemunho. O testemunho do Paráclito é o mesmo que o dos discípulos e vice-versa, se bem que a origem de tal testemunho não é humana mas "divina".

O quarto texto, em 16,7 apresenta uma afirmação muito concreta e concisa: "é melhor para vós que eu vá, pois, se eu não for, o Paráclito não virá a vós; mas, se eu for, eu vo-lo enviarei." Nada se diz da procedência do Paráclito, mas tão somente do seu envio aos discípulos da parte de Jesus com a missão de "dar ao mundo provas irrefutáveis de uma culpa, de uma inocência e de um julgamento" (v.8). O papel do Paráclito é ser "advogado" de Jesus no tribunal do mundo contra os judeus que julgaram à morte o inocente (v.8b), que não acreditaram nele (v.9a), nem perceberam que o "príncipe deste mundo já fora condenado" (v. 11).

O quinto texto, em 16, 12-15, é o mais extenso e tem a ver com o Paráclito como "revelador" da verdade completa da pessoa de Jesus: "Tenho ainda muitas coisas a dizer-vos, mas não sois capazes de as compreender por agora. Quando ele vier, o Espírito da Verdade, há-de guiar-vos para a verdade completa." O texto não refere o nome do Paráclito, mas apenas o do Espírito da Verdade. Também não refere a sua procedência, nem em relação ao Pai nem a Jesus, mas o que se afirma nos w.l3b-15 é extremamente revelador: v. 13b: "Ele não falará por si próprio, mas há-de dar-vos a conhecer quanto ouvir e anunciar-vos o que há-de vir. v. 14 Ele há-de manifestar a minha glória, porque receberá do que é meu e vo-lo dará a conhecer, v. 15 Tudo o que o Pai tem é meu; por isso é que eu disse:'Receberá do que é meu e vo-lo dará a conhecer'." Afirmar que o Espírito da Verdade depende em tudo de Jesus ("Ele não falará de si próprio "..."Ele há-de manifestar a minha glória, porque receberá do que é meu") é normal em relação às afirmações anteriores, mas já não é tão normal a afirmação inaudita sobre o Pai: "tudo o que o Pai tem é meu", embora tal afirmação tenha em vista corroborar a revelação do Espírito Santo relacionada com a pessoa de Jesus: "por isso é que eu disse:'Receberá do que é meu e vo-lo dará a conhecer." A fonte de toda a revelação do Espírito da Verdade, neste texto, não dimana do Pai, mas do Eu de Jesus. Até o Pai está na dependência de Jesus. Não se trata, certamente, duma afirmação de lógica de dogmática "trinitária", mas de lógica de circularidade "triádica". Só com as categorias lexicais da filosofia grega da ousia (substância) e da physis (natureza) é que podemos falar de Deus Uno e Trino.

O papel de "revelador" do Espírito de Verdade neste texto também apresenta o subtema do "profeta": "Ele não falará por si próprio, mas há-de dar-vos a conhecer quanto ouvir e anunciar-vos o que há-de vir." Este último aspecto é importante porque a ação do Espírito da Verdade deixa de se centrar no mistério da pessoa de Jesus para passar ao mistério da própria história e Igreja (comunidade dos crentes) na sua dimensão profética: "anunciar-vos o que há-de vir."

Os exegetas sempre se têm interrogado sobre a origem deste Paráclito. Tendo em vista o contexto, é fácil percebermos porque é que João cria o designativo "divino" "Paráclito". Uma vez que Jesus anuncia aos discípulos que os vai deixar, e não quer que fiquem tristes, promete-lhes um "outro Paráclito" (14,16:"E eu apelarei ao Pai e ele vos dará outro Paráclito para que esteja sempre convosco."). Assim sendo, o Paráclito é o "alter-ego" do mesmo Jesus, ressuscitado e exaltado, ou, por outras palavras, a nova presença do Jesus ressuscitado. E também este o sentido da 1Jo 2,1, e, indiretamente, de Rm 8, 33-34 ("Quem irá acusar os eleitos de Deus? Deus é quem nos justifica! Quem irá condená-los? Jesus Cristo, aquele que morreu, mais, que ressuscitou, que está à direita de Deus e que intercede (verbo entugchanô) por nós; cf. Hb 7, 25 e 9, 24). Este tema vai depois recebendo novos desenvolvimentos "teológicos" consoante os diversos textos: Jesus, como Paráclito ressuscitado, é o emissário do Pai e pede ao Pai que envie um seu substituto (14, 26) que continue a sua ação no grupo dos crentes. Como Paráclito e Espírito Verdadeiro é, ao mesmo tempo, o Intercessor, o Auxiliador e o Revelador (14, 26: "esse é que vos ensinará tudo, e há-de recordar-vos tudo o que Eu vos disse...15, 26: dará testemunho a meu favor...16, 14: ...receberá do que é meu e vo-lo dará a conhecer").

Por trás desta doutrina está uma praxis cristã — sentido etiológico (justificativo) — das comunidades joanicas que sabiam que estavam a viver os tempos escatológicos do Espírito Santo prometido pelos profetas. Tratava-se de comunidades "pneumáticas", diferentes das comunidades "carismáticas" da 1Cor 12 e 14. Não se trata de experimentar sensivelmente os carismas, mas de viver do mundo novo do Espírito a nível de "essencialidade" e não de "sensibilidade" (cf. 3, 6-8; 4, 23-24; 6, 63). Os cristãos joanicos são mais "místicos" do que os cristãos da tradição sinóptica. E o mundo novo da salvação que acaba de aparecer e apresentar uma escatologia realizada. E é sempre o Pai que envia este Paráclito/Espírito Santo/Verdadeiro Espírito (Espírito da Verdade). A esta corrente teológica sobrepõe-se depois ou simultaneamente a outra corrente: é o próprio Jesus ressuscitado/exaltado que dá ou envia o Paráclito/Espírito (15, 26; 16, 7).