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Consolador

PARACLETO — O CONSOLADOR


Roberto Pla: Evangelho de Tomé - Logion 44

Na profunda e extensa passagem conhecida como “as despedidas”, anuncia Jesus aos que o amam, por conta de sua já próxima morte, que em sua ausência, estará convosco, para sempre, o Espírito da verdade, porque mora convosco e em vós está.

  • a saber, o Espírito da verdade, o qual o mundo não pode receber; porque não o vê nem o conhece; mas vós o conheceis, porque ele habita convosco, e estará em vós. (Jo 14:17)


Não disse que entraria a morar com eles, porque o espírito já estava neles e eles o conheciam, senão que o receberiam como Consolador, isto é, para que o olho visse ao Espírito da Verdade, o ouvido o ouvisse e seu coração encontrasse a sua glória preparada de antemão para ele. Um dado importante acerca disto mesmo dá o apóstolo quando adverte:

  • Ou não sabeis que o vosso corpo é santuário do Espírito Santo, que habita em vós, o qual possuís da parte de Deus, e que não sois de vós mesmos? Porque fostes comprados por preço; glorificai pois a Deus no vosso corpo. (1Co 6:19-20)


A chegada à alma dos primeiros signos dessa sabedoria escondida de Deus que o Espírito envia, em sua função de Consolador, vai precedida sempre, em todos os casos, dessa poderosa fé interior na qual é necessário crer — Eu sou o que é — para não morrer nos próprios pecados.

  • Por isso vos disse que morrereis em vossos pecados; porque, se não crerdes que eu sou, morrereis em vossos pecados. (Jo 8:24)


O adejo do Espírito na consciência advém de muitas maneiras: como o murmúrio de uma fonte inesgotável, como uma chuva mansa de sabedoria bem-aventurada, como o bramido surdo do mar bravo, ou como o zumbido do vento furioso entre as árvores; com isso a alma descobre, passo a passo, o noivo eterno, seu Ser verdadeiro, para ela destinado desde antes de que o tempo fosse. Em seguida a essas núpcias se inunda a alma com o “odor da vida que leva à vida” [Para uns, na verdade, cheiro de morte para morte; mas para outros cheiro de vida para vida. E para estas coisas quem é idôneo? (2Cor 2:16)] e ocorre nela o ato sagrado e inexplicável que a transfigura. O vestido do pecado, a medida errônea, da morte e da ignorância se desvanecem e o que resta dela na intimidade de si mesma, o novo vestido, é o ato do Ser, a verdade do Eu Sou, que resulta ser idêntica ao espírito, ao Filho do homem, ao Cristo eterno e até então habitante oculto.

A chegada inicial desta efusão do Espírito, os primeiros fulgores, é o que Lucas relata nos Atos como ocorrido em um dia de Pentecostes no transcurso de um episódio não isento de figuração simbólica. Esta chuva ardente de sabedoria e bem-aventurança é sem dúvida do “selo”, do Espírito que segundo o apóstolo nos deu Deus como arras em nossos corações, qual o Espírito de Promessa, quer dizer, como antecipação de sua Glória.

  • Em quem também vós estais, depois que ouvistes a palavra da verdade, o evangelho da vossa salvação; e, tendo nele também crido, fostes selados com o Espírito Santo da promessa. (Ef 1:13)


Acerca desta antecipação lucana de Pentecostes, preparada para quem pleno de firme convicção contempla com fé amorosa a manifestação de seu próprio Eu Sou, escreve João em seu evangelho, em termos menos espetaculares que Lucas, embora talvez de maior eficácia. Segundo relato joanico, quando Jesus ressuscitado apareceu a seus discípulos, soprou sobre eles e lhes disse: “Recebei o Espírito Santo”.

  • E havendo dito isso, assoprou sobre eles, e disse-lhes: Recebei o Espírito Santo. Àqueles a quem perdoardes os pecados, são-lhes perdoados; e àqueles a quem os retiverdes, são-lhes retidos. (Jo 20:22-23)


Não queria isto dizer que o Espírito morava neles desde a eternidade, senão que lhes abria os olhos e ouvidos para que o recebessem em sua alma e encontrasse a glória em seu coração. Este era o sopro de Deus, que desvanece o pecado e revela a medida exata, perfeita de cada um, enviado a Jesus pelo Pai tal como ele o enviava agora aos que acreditavam em seu Eu Sou. Com isso se cumpria a lei segundo a qual o que recebe o sopro deve manifestá-lo, de igual maneira que a lâmpada que não não se deixa no selim senão que se eleva ao candelabro tem por fundamento manifestar o oculto (vide Candeia Acesa).

A necessidade de pôr de manifesto o aroma do Espírito uma vez recebido, é a lei quanto à candeia evangélica. Quando a candeia difunde sua luz é para revelar a quem a contempla a medida própria, a qual corresponde exatamente ao justo e que o libera dos pecados.

É necessário entender que a lei do espírito é conjuntamente, um mesmo e único ato, medida exata do justo e Liberatio da lei do pecado. Não se trata de dois atos consecutivos senão de um só, da mesma maneira que o ato de beber água acalma a sede embora não fosse este o propósito. Quem recebe o sopro, não em seu primeiro momento como promessas da glória, senão no íntimo de si mesmo, se auto descobre no Espírito e fica livre do pecado. Essa liberdade é o perdão do pecado, a liberação do cativeiro. Pela lei da candeia no candelabro fica então constituído, por delegação do Filho, o novo liberto, em um enviado que pode soprar por sua vez para impulsionar o Espírito sobre todos os que creem, ainda que não vendo.

  • Disse-lhe Jesus: Porque me viste, creste? Bem-aventurados os que não viram e creram. (Jo 20:29)


A unidade deste ato do sopro ou unção do espírito e a remissão dos pecados o explica muito claramente o evangelho quando aos discípulos sobre os quais acabava de enviar seu sopro, lhes diz Jesus: A quem perdoares os pecados, estes ficam perdoados. Não diz os ficarão mas os ficam, porque não há uma ato posterior e consequente para a liberdade. O conhecimento da medida própria exata é, por si mesmo, a medida verdadeira e a justiça.

Quem pela fragilidade da fé não recebe o sopro do Espírito Santo sobre ele, segue sendo um pecador, com os pecados retidos até alcançar a fé (pistis) de que o Espírito nele habita; a esta falta de fé se chama no logion "blasfemar contra o Espírito Santo". Com efeito tal pecado, enquanto perdure, é não lograr a liberdade, o perdão, nem no mundo terreno nem no do espírito.