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id da página: 7664 Gnosticismo – Simone Petrement – Valentino

Petrement Valentino


PÉTREMENT, Simone. A Separate God: the Christian Origins of Gnosticism. San Francisco: Harper, 1984

O problema das origens do gnosticismo

A questão da origem do valentinismo e seus possíveis vínculos históricos com obras como o Apocrifo de Joao é um tema central para a compreensão do gnosticismo. Geralmente, acredita-se que Valentino tenha se inspirado em doutrinas análogas às descritas por Irineu nos capítulos 29-31 de seu livro Adversus Haereses. Irineu, por sua vez, menciona que Valentino “adaptou os princípios da chamada heresia gnóstica à forma de seu próprio ensinamento”.


A heresia gnóstica na obra de Irineu e outros heresiólogos

  • A "heresia gnóstica" de Irineu: A expressão "heresia gnóstica" pode se referir a todo o movimento gnóstico ou, mais especificamente, a uma doutrina em particular que Irineu considerava mais propriamente gnóstica, a qual descreve nos capítulos 29-31. As teorias expostas nesses capítulos possuem elos estreitos, sugerindo que formam uma mesma heresia.

    • A análise de R. A. Lipsius: Em sua obra Die Quellen der aeltesten Ketzergescbichte neu untersucht, Lipsius analisa o uso do termo "gnóstico" em Irineu. A análise conclui que Irineu o utiliza frequentemente de forma coletiva, aplicando-o a todas as heresias que combate. No entanto, o contexto revela que, na maioria das vezes, o termo se refere especificamente aos heréticos de I, 29-31, "exclusiva ou especialmente".
    • Ausência de nomes de seitas: Nos capítulos 29-31, Irineu não nomeia as seitas, exceto por uma possível referência aos "barbelognósticos" no capítulo 29. Todavia, a palavra "Barbelo" pode ser uma glosa, sugerindo que o termo "gnósticos" se aplicaria a todos os heréticos descritos nesses capítulos.
    • Heresiólogos posteriores: Heresiólogos como Epifânio e Filaster, que vieram depois de Irineu, chamam de "gnósticos" os heréticos do capítulo 29. No entanto, eles dão outros nomes (como ofitas e cainitas) aos heréticos de 30-31, por interpretarem as diferentes opiniões mencionadas por Irineu como seitas distintas.

Conexões com o Apócrifo de João

  • "Gnósticos no sentido estrito": Os "gnósticos" dos capítulos 29-31 são aqueles que os estudiosos modernos chamam de "gnósticos no sentido estrito". O estudioso Bousset considerava que esses gnósticos eram os mais antigos e a fonte do gnosticismo.

    • O Apócrifo de João: Atualmente, a doutrina desses gnósticos é mais conhecida por meio do Apócrifo de João, uma obra gnóstica copta. Uma de suas versões é a mesma fonte que Irineu utilizou no capítulo 29. Sua composição deve ser datada entre 120 e 140 para que possa ser uma fonte para o valentinianismo, conforme a sugestão de Irineu.
    • Controvérsias sobre a datação: A datação do Apócrifo de João é contestada. A obra, apesar de conter elementos cristãos, é muito distinta do cristianismo ortodoxo. O estudioso Kurt Rudolph prefere uma datação mais antiga (por volta de 100 d.C.), para que o texto seja fonte até mesmo de Saturnilo, pois isso reforçaria a teoria da origem não cristã do gnosticismo. Por outro lado, o texto parece uma "vulgarização" do valentinianismo, sugerindo uma data posterior.

Falta de evidências pré-Irineu

  • Incertezas sobre a origem dos gnósticos no sentido estrito: Antes de aceitar a ligação entre valentinismo e os "gnósticos no sentido estrito", é preciso esclarecer se existiam autores que mencionaram esses grupos antes de Irineu. Não há evidências de que heresiólogos anteriores, como Justino ou Hegesipo, os conhecessem.

    • Dependência de Irineu: Os heresiólogos que mencionam os "gnósticos" como uma seita específica, atribuindo-lhes a doutrina descrita por Irineu em 1, 29, são posteriores a ele e baseiam-se diretamente em sua obra, ou indiretamente por meio do Syntagma de Hipólito.
    • Hipólito e a sistematização das heresias: Hipólito, no Syntagma (obra perdida), parece ter sistematizado a visão de Irineu, associando os gnósticos no sentido estrito aos nicolaítas e estabelecendo uma ordem cronológica que, na verdade, contém várias anacronias, como a inserção de heresias anteriores a Basílides (ebionitas, nicolaítas, Cerinto) entre Basílides e Valentino.
    • A ausência de referências originais: Irineu provavelmente utilizou documentos originais dos gnósticos para escrever os capítulos 29-31, o que explica por que não menciona o título das obras, como o Apócrifo de João, nem o nome da seita. Essa falta de informação sobre a origem dos textos torna difícil a datação e sugere que a certeza de Irineu sobre a anterioridade dessas heresias em relação a Valentino era baseada na semelhança das doutrinas, e não em evidências históricas.

O uso do termo "gnóstico"

  • A pretensão de ser "gnóstico": Há indícios de que, mesmo antes da obra de Irineu, alguns cristãos se orgulhavam de ser "gnósticos". É o caso dos carpocratianos de Marcelina, dos prodicianos, dos naassenos e outros ofitas. O filósofo Celso também menciona em sua obra que alguns cristãos se autodenominavam "gnósticos".

    • Significado do termo: A pretensão de se autodenominar "gnóstico" não necessariamente se referia a uma seita específica. Para eles, assim como para os cristãos ortodoxos, ser gnóstico significava ser o verdadeiro cristão. O próprio Irineu usa a expressão "gnósticos falsamente assim chamados", e Clemente de Alexandria considera o gnóstico como o cristão ideal.
    • A distinção entre gnosis e fé: O termo "gnóstico" parece ter ganhado destaque após a distinção entre gnosis e fé, um conceito que Valentino pode ter introduzido. Essa distinção pode ter levado seus seguidores a se orgulharem do título de "gnóstico", visto como um termo de honra. Assim, a reivindicação do nome "gnóstico" seria uma consequência do valentinianismo, e não uma característica de grupos que o precederam.
    • Análise de Morton Smith: Em sua comunicação "Gnostikos como termo heresiólogico", Morton Smith observa que a palavra gnostikos era rara na literatura grega, e que os gnósticos do século II a teriam emprestado da tradição platônico-pitagórica. No entanto, o conteúdo e o uso do termo seriam fundamentalmente novos, pois para eles significava a posse de uma revelação, não apenas a capacidade de conhecimento. Além disso, os filósofos aplicavam a palavra a conceitos, enquanto os gnósticos a aplicavam a pessoas.

A opinião de Irineu sobre a anterioridade do gnosticismo

  • Passagens-chave de Irineu: A crença na anterioridade dos gnósticos no sentido estrito em relação a Valentino baseia-se em duas sentenças de Irineu, em I, 30, 15 e I, 31, 3. No entanto, essas passagens são obscuras e ambíguas.

    • Interpretação de Adversus Haereses: As sentenças de Irineu podem ser interpretadas de várias maneiras. A primeira, sobre a "fera" gerada pela escola de Valentino, não deixa claro se os heréticos de 29-30 são pais ou filhos dos valentinianos. A segunda, sobre os "pais, mães e ancestrais", é ainda mais vaga, já que a lista de hereges inclui até mesmo Tatian, que é posterior a Valentino. Aparentemente, a intenção de Irineu era apenas sugerir que o valentinismo é uma parte da tradição gnóstica como um todo.
    • A fragilidade do argumento: A análise do texto aponta que, embora Irineu acreditasse na anterioridade dos gnósticos de I, 29-31, sua única prova era a semelhança de doutrinas, sem explicar por que a dependência não teria ocorrido na direção oposta. O erro de Irineu, se de fato o cometeu, seria vantajoso para a sua causa, pois ao relacionar o valentinismo com uma heresia mais radical, ele poderia provar a inspiração herética de Valentino.

Heresiólogos que discordam de Irineu

  • A influência de Irineu: A opinião de Irineu, sistematizada por Hipólito, dominou a heresologia clássica e grande parte das pesquisas modernas. No entanto, nem todos os heresiólogos compartilharam de sua visão.

    • Teodoreto e Epifânio: O heresiólogo Teodoreto afirma que os barbeliotas, naassenos, stratióticos e fibionitas, seitas da mesma família que os gnósticos de Epifânio e os ofitas, descendem do que foi semeado por Valentino. Epifânio, apesar de basear-se em Hipólito, coloca ofitas, cainitas e setianos depois de Valentino, e chega a afirmar que os "gnósticos" que ele descreve como sendo anteriores a Valentino são, na verdade, originários de vários mestres, incluindo o próprio Valentino.
    • O testemunho de Tertuliano: O testemunho de Tertuliano é ainda mais importante por ser mais antigo. Em Adversus Valentinianos, ele parece considerar os "gnósticos" como uma seita particular, mas sugere que a complexidade das doutrinas valentinianas as transformou nas "florestas dos gnósticos". Esta afirmação poderia significar que o valentinismo deu origem ao gnosticismo descrito por Irineu em I, 29-31, o que contradiz a visão de Irineu, como bem notou Lipsius.
  • A conclusão do texto é que a ideia de que os gnósticos no sentido estrito eram anteriores a Valentino se baseia apenas na opinião pessoal de Irineu. Para determinar a real relação entre as doutrinas, é preciso analisá-las, o que o texto propõe para os capítulos seguintes: demonstrar que o valentinismo pode ser explicado de forma independente dos heréticos de I, 29-31, e que, por outro lado, o Apócrifo de João só pode ser entendido como um desenvolvimento dos temas encontrados nos primeiros valentinianos.