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Protagonistas Queda

Adão e Eva — PROTAGONISTAS NA QUEDA


Se se compara os comportamentos dos dois protagonistas da “queda” nos relatos paralelos do evento em Gen 2,23 e Gen 3,6 (a autodegradação do Adão masculino e a amputação pela Mulher da Árvore da Onisciência). Nota-se que o Adão masculino (o pré-Homem) reage sem se explicar, mudo, parece, pela única vontade de poder, enquanto que a Mulher se dá razões, más razões, das quais uma única parece justificada exteriormente para passar ao ato. Quando ela “vê” que a árvore é boa a comer ou preciosa para a inteligência, ela o julga assim arbitrariamente pois não se pode deduzir do aspecto de uma árvore da qual jamais se saboreou, que seja comestível ou estimulante para a inteligência. Só o qualificativo “atraente para os olhos” afirma uma sensação pura mas não se pode disto deduzir como ela o faz, que esta evidência desmente o aviso divino de não tocar na árvore. No entanto ela “raciocina” antes de se perder, enquanto o Adão masculino mergulha cabeça baixa e não busca escusas.

Aí onde o Adão masculino se mente ou se engana, é quando ele invoca uma falsa etimologia para nomear a pré-mulher que ele anexa. Ele a chama “isha” como se esta palavra fosse derivada de iysh que ele se atribui, enquanto ela como ele portam na origem o mesmo nome: o Adão. Em hebreu “isha” não vem da mesma raiz que iysh que conta uma consoante a mais que aquela de onde provém “isha” seja “esh”, citada anteriormente no texto. Anterior ao “isto”, este novo nome que evoca o fogo (Gen 2,22) conservado na condição humana, aí evoca a origem edênica da mulher.

Não somente a noção de mulher é anterior à “queda”, mas ela se caracteriza na fase de sursis que segue, pelo personagem que resiste à “serpente” enquanto “o homem” se cala e continua a se calar durante toda cena da árvore.

Enfim a mulher não é nomeadamente expulsa do jardim. O Adão, sim. Certamente é aparentemente o Adão masculino do par, sob o qual se profila o Adão, Um e múltiplo, original. No final do relato, o Adão original retoma fortemente como único responsável daquilo que se passou. Não mais que o Adão do par, a mulher não se declarou culpada do “isto”. Seu único erro é de não voltarem atrás enquanto sua presença no Éden lhe permitia ainda, de não ter escutado as ameaças dissuasivas de Deus, que os incitavam a isso. Mas a não menção do nome da mulher neste momento crucial não é menos significativa. Pouco antes no texto, a relação entre o Adão original e o Adão do par é explicitada na famosa frase “Tu és pó (afar) e tu voltarás a ser” (literalmente: Pó tu (és) e para o pó retornarás”, Gen 3,19). O Adão pó é o Adão original, assim qualificado em Gen 2,7 e o Adão par é aquele que o voltarás a ser, quer dizer capaz de voltar a ser o Adão original. O nome que o texto lhe dá em várias vezes é o mesmo, pois eles representam dois estados da mesma criatura. O Adão do par é uma degenerescência do Adão original e capaz de o voltar a ser. Como ele é Um e múltiplo em sua essência, isso concerne cada um de nós. Somos pessoalmente um e outro, pelo menos em potência.

A mulher é compreendida nesta possibilidade, mesmo se o Adão original se separou de sua componente feminina na “queda”. Como ele ela é “afar” e ela o voltará a ser como o Adão do par quando e;a lhe será de novo reunida. A dificuldade é de exprimir em nossa linguagem “sexista”. O texto aí se esforça no versículo que segue imediatamente Gen 3,19 onde o Adão do par chama sua mulher do nome de Vivente (Eva), precisando que ela será a mãe de todos os mortais (Gen 3,20). Dito de outro modo, a única integralmente Vivente como o Um na multitude do Adão original. Isto não a impedirá de morrer como o Adão do par, quando eles tiverem deixado o jardim, como todos os indivíduos da humanidade mortal que eles engendrarão, e com eles de voltar a ser “afar”, quer dizer o Adão original, no final.

Aguardando, aqui também a mulher é posta aparte, nem que seja pela dicotomia de nosso vocabulário que deve escolher entre o gênero masculino e o gênero feminino (é assim o caso quando fala-se de Deus). Aparte mas talvez no primeiro lugar finalmente, pois seu nome derivado da raiz que quer dizer “fogo” aparece no texto antes do discurso às três “zoot” que marca a “queda” e onde precisamente o Adão original o desvia de seu sentido para se subordinar a seu igual, fazendo-o derivar do nome degradado que ele se dá ('ysh). E que o qualificativo de “Vivente” concretiza “afar” sob a forma da Árvore da Vida do jardim, que permanece intacta apesar da “queda” que só destruiu a Árvore do Conhecimento, e “guarda” o caminho para permitir e não impedir nosso “retorno” no “lugar”.

Em resumo, religada por seu nome à Árvore da Vida, a “Vivente” (Eva), mãe de todos os mortais e em particular de todas as “filhas de Eva” que as perpetuam, entretém em nós a aspiração à felicidade e mesmo suas manifestações sejam elas precárias, no curso de nossas curtas vidas, por este que se chama o amor que elas nos dão. É por conseguinte em que elas são vestígios do Éden na condição humana.

Elas são a vida, certamente desembocando sobre a morte individual, mas que se renova indefinidamente em um ersatz de imortalidade, sem a qual não haveria jamais verdadeira felicidade. Elas o anunciam, saibam ou não. Elas a encarnam frequentemente de maneira fugitiva mas que nos interdita disto desesperar. No mais profundo de nosso ser íntimo, sabemos que viemos da felicidade (o Éden) e que nós aí retornamos (o Éden) graças à mulher.

Essas certezas nos habitam antes do mito que elas engendram e que as representa. É em que é útil a sua compreensão. Mesmo se nós não cremos em sua “realidade” histórica.