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Lugar


VIDE: onde; espaço; doutrina dos graus; lugar de Deus; lugar medieval; lugar de todos os lugares; lugar da vertical; quase-lugar

Agostinho de Hipona: Agostinho Lugar do Homem

Mestre Eckhart: Eckhart Sermão 9

Adin Steinsaltz (Adin Even Yisrael): Excertos de "A Rosa de Treze Pétalas". Maayanot, 1992.

A santidade de um lugar é objetiva, uma coisa por direito próprio. Mas, para estar consciente dessa santidade, a pessoa tem de conceder certa experiência. Porque poucas vezes essa santidade se evidencia externamente no mundo material. Os locais onde é reconhecida são usados frequentemente para os esforços mais profundos destinados a invocar a Fonte Suprema da Abundância. Também a revelação da santidade em algum lugar especial não tem sempre um efeito totalmente positivo; porque para estar corretamente receptiva à santidade, a pessoa precisa ter atingido um alto grau de purificação. Na ausência de consciência e purificação, o sentido da santidade pode ficar obscurecido ou até não ser captado em absoluto, e consequentemente, seu efeito pode ser o exato oposto da santificação. De fato, o poderoso atrativo enaltecedor é frequentemente contrabalançado por sentimentos precisamente de recusa e rebelião contra sua santidade. Porque onde quer que haja santidade, também estão essas forças parasitas irresistivelmente atraídas pela santidade, tentando viver dela e ao mesmo tempo destruí-la. Somente quando o aparelho inteiro da revelação é fixado e organizado até a perfeição, um lugar sagrado pode revelar-se a todos os homens, sem distinção, independentemente dos estados mentais subjetivos das pessoas, ou da presença de forças parasitas destrutivas.

Então, a santidade de um lugar implicaria que havia existido alguma revelação da Santidade Suprema num ponto do espaço físico escolhido para ser um veículo da abundância divina. Há outros tipos de lugares sagrados, com certeza — lugares que não atingiram a santidade no sentido mais completo da palavra, mas que ficaram, no entanto, sob a influência de algum evento ou personalidade santa. Os túmulos dos santos e dos sábios, por exemplo, ou os lugares onde efetuaram atos memoráveis, podem adquirir grande valor espiritual. Mas esses locais não são da mesma ordem, e não devem ser confundidos com essa verdadeira ligação entre Deus e o lugar que foi revelado na santidade radiante do Templo Sagrado.

Claude Froidebise: LA PUERTA

Sem deixar de nos referir ao Nome de Deus que dormita em nosso coração, oferecemos o comentário de Rabi Joshia com respeito a: "Em todo lugar onde eu recordarei meu Nome, irei até ti".

A ideia que ocorre é que se faz "em todo lugar", mas este versículo deve se interpretar da forma seguinte: "Em todo lugar onde eu vá até ti e te bendiga, recordarei meu Nome". E, onde irei até ti e te bendirei? No Templo. Ali recordarei meu Nome: no Templo.

Mas isso Louis Cattiaux precisa que "não há mais que um templo de Deus, é o coração do homem" e fala dos "crentes de Deus que adoram o Santo Nome em seus corações".

Este mesmo versículo do Êxodo foi relacionado com o texto que conta a chegada de Jacó ao Monte Moriá: "Alcançou o Lugar e nele se deteve para passar a noite, pois o Sol se havia posto".

Por que se atribui ao Santo, bendito seja, o nome de "Lugar"? Porque em todo lugar onde se encontram os Justos, permanece com eles. Com efeito está escrito: "Em todo lugar onde eu recordarei meu Nome, irei até ti" (Ex XX,24).

Não há Justo, pois, sem um lugar onde é recordado o nome do Senhor. Estes homens divinos sem os quais o mundo não poderia manter-se em pé, são justos por nascimento. Que nobreza!

Marcia Sá Cavalcante Schuback: Para ler os medievais

Podemos perceber que, para a religiosidade medieval, o espaço é concebido a partir do lugar. O lugar é, porém, experienciado a partir de um sentido de ser profundamente distinto do mero estar-aí. O sentido de ser é o de existência circunstanciada, de existência em seus modos de existir, sempre indicando em si direções e sentidos do ser-uno de deus. O sentido de ser é, assim, o de sinal, indicação ou "livro" do ser-uno de deus. O lugar é, em si, um lugar-apreensão. O lugar não se reduz, portanto, a um onde demarcado segundo um sistema arbitrário de referências, mas um localizar-se no meio-elemento da totalidade. Ao lugar pertence toda a circunstância e o modo de ser, sendo portanto, em seu fundamento de compreensão, um advérbio junto ao verbo de deus, ao seu ser inteiramente em todas as coisas. O lugar mostra-se, assim, como um pertencimento dinâmico, um lugar em constante movimentação. Só que numa movimentação "interior", ou seja, sempre dentro do meio-elemento de deus. Lugar é um quase-lugar, nunca rigidamente fixado, mesmo que concentrado num ponto, num mosteiro, num castelo, num burgo. Pois no lugar o que acontece é um dar novos lugares ao mesmo. O lugar é, assim, uma atividade de localizar-se na totalidade inteira e infinita de deus. Por isso, o fundamento da experiência medieval do lugar é, inconfundivelmente, o tempo. Trata-se de um acontecimento dinâmico in animo. E o quase lugar da alma é o tempo. O que nos cabe agora é aprofundar a experiência medieval do tempo. Para tanto, cabe uma leitura reflexiva do décimo primeiro livro das Confissões de Santo Agostinho, o livro sobre o tempo, que até hoje continua sendo a principal referência da reflexão ocidental acerca da essência do tempo.


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