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id da página: 1595 Schuon – Sophia Perennis Frithjof Schuon

Schuon Sophia Perennis


A Sophia Perennis consiste em conhecer a Verdade total e, consequentemente, em querer o Bem e amar a Beleza; e isto em conformidade com a referida Verdade, ou seja, com plena consciência das razões para fazê-lo. A Sophia doutrinal trata, por um lado, do Princípio Divino e, por outro, de sua Manifestação universal: portanto, de Deus, do mundo e da alma, distinguindo na Manifestação entre o macrocosmo e o microcosmo; isto implica que Deus compreende em Si mesmo — ao menos extrinsecamente — graus e modos, ou seja, que Ele tende a limitar-se em vista de sua Manifestação. Nisto reside todo o mistério da Divina Maya.

Conhecer a Verdade, querer o Bem, amar a Beleza. Foi-se caracterizado agora o elemento Verdade; quanto ao Bem, ele é a priori o Princípio supremo como quintessência e causa de todo bem possível; e é a posteriori, por um lado, aquilo que no Universo manifesta o Princípio e, por outro, aquilo que reconduz ao Princípio; em uma palavra, o Bem é primeiramente Deus mesmo, depois a “projeção” de Deus na existência, e finalmente a “reintegração” do existenciado em Deus. É de se especificar que, para o homem, os três bens mais elevados são: primeiramente a religião, secundariamente a piedade e, em terceiro lugar, a salvação, tomando estes termos em um sentido quase absoluto e fora de qualquer especificação restritiva. Quanto aos bens que não se enquadram nestas três categorias, eles participam delas, seja de modo direto, seja de modo indireto, pois todo bem tem o valor de um símbolo, portanto, de uma chave.

Quanto à Beleza, ela decorre da Infinidade, que coincide com a Bem-aventurança divina; vista nesta conexão, Deus é Beleza, Amor, Bondade e Paz, e Ele penetra o Universo inteiro com estas qualidades. A Beleza, no Universo, é aquilo que revela a infinidade divina: toda beleza criada comunica-nos algo de infinito, beatífico, libertador. O Amor, que responde à Beleza, é o desejo de união, ou é a união em si mesma; segundo Ibn Arabi, o caminho rumo a Deus é o Amor, porque Deus é Beleza.

A Bondade, por sua vez, é a irradiação generosa da Beleza: ela é para a Beleza o que o calor é para a luz. Sendo Beleza, Deus é por isto mesmo Bondade ou Misericórdia: poder-se-ia também dizer que, na Beleza, Deus nos empresta algo do Paraíso; o belo é o mensageiro não apenas da Infinidade e da Harmonia, mas também, como o arco-íris, da reconciliação e do perdão. De um ponto de vista completamente diferente, a Bondade e a Beleza são os aspectos respectivamente “interiores” e “exteriores” da Beatitude, ao passo que, do ponto de vista da distinção precedente, a Beleza é intrínseca na medida em que pertence à Essência, enquanto a Bondade é extrínseca na medida em que se exerce em relação aos acidentes, a saber, às criaturas.

Nesta dimensão, o Rigor, que decorre do Absoluto, não poderia estar ausente: intrinsecamente, ele é a pureza adamantina do divino e do sagrado; extrinsecamente, ele é a limitação do perdão, em razão da falta de receptividade de dadas criaturas. O mundo é tecido de duas grandes dimensões, o rigor matemático e a doçura musical; ambas se unem em uma homogeneidade superior que pertence à própria insondabilidade da Divindade.

Em tais verdades ou mistérios, as perspectivas exotérica e esotérica — religiões e sabedorias — participam de acordo com suas capacidades e suas vocações: o esoterismo, ao considerar estritamente a natureza das coisas, e o exoterismo, ao filtrá-la e adaptá-la às oportunidades humanas, enquanto transmite por trás deste véu os tesouros da uma e unânime Sophia. No mais profundo de certos homens reside sempre, intacto, o homem como tal; e consequentemente também o conhecimento plenario de Deus.

O que define o homem é aquilo de que ele unicamente é capaz: a saber, a inteligência total — dotada de objetividade e transcendência —, o livre-arbítrio e o caráter generoso; ou simplesmente a objetividade, portanto, a adequação da vontade e do sentimento, bem como da inteligência. A Sophia Perennis é, basicamente, a objetividade liberta de todas as amarras: é a capacidade de “perceber” aquilo que é, a ponto de poder “ser” aquilo que é; é a capacidade de conformar-se ao Ser necessário — não apenas possível.

O animal não pode deixar seu estado, ao passo que o homem pode; estritamente falando, somente aquele que é plenamente homem pode deixar o sistema fechado da individualidade, mediante participação na ipseidade una e universal. Nisto reside o mistério da vocação humana: o que o homem “pode”, ele “deve”; neste plano, poder é ter de, dado que a capacidade pertence a uma substância positiva. Ou ainda, o que fundamentalmente equivale à mesma coisa: saber é ser; saber aquilo que é, e aquilo que unicamente é. (Raízes da Condição Humana)


Estritamente falando, existe apenas uma única filosofia, a Sophia Perennis; ela é também — vista em sua integralidade — a única religião. A Sophia tem duas origens possíveis, uma atemporal e a outra temporal: a primeira é “vertical” e descontínua, e a segunda, “horizontal” e contínua; em outras palavras, a primeira é como a chuva que a qualquer momento pode descer do céu; a segunda é como um riacho que flui de uma nascente. Ambos os modos se encontram e se combinam: a Revelação metafísica atualiza a faculdade intelectiva e, uma vez despertada, esta dá origem à intelecção espontânea e independente. (Unidade Transcendente das Religiões)