Simbolismo
Charbonneau-Lassay: BESTIÁRIO DE CRISTO
É um dos sentidos mais conhecidos dos modernos que a serpente foi também, para os antigos, um dos emblemas da Luz. Da Fenícia à Caldeia, antigas tradições aproximavam a serpente ao raio que serpenteia o céu em fulgurância; e eis porque este réptil era, nestas regiões, o símbolo do fogo. A arte destas regiões conheceu duas serpentes luminosas, uma coroada de raios (Sol), e outra de um crescente (Lua), as duas luminárias do dia e da noite; representadas juntas próximas de três estrelas, formavam a imagem simbólica dos cinco planetas que eram em Caldeia, assim como nos diz Diodoro de Sicília, os cinco regentes do céu, governadores dos mundos.
No Egito antigo, a víbora Haje, o ureus sagrado dos faraós, foi um dos emblemas solares; nos gregos dos tempos heroicos, o arco-íris, a manifestação mais serena da luz do firmamento, foi alegoricamente representada por três serpentes azuis. Homero nos ensina que este símbolo foi figurado sobre a couraça de Agamenon em alusão ao arco de Íris «e como um signo memorável aos humanos que Zeus traça nos céus.
Mais explícito, o autor latino Macróbio nos disse: «A serpente draco é um dos principais emblemas do sol por causa de seu nome derkeim que significa Ver. Seu olho perscrutador e vigilante participa, diz-se, da natureza do sol. Também se designa a serpente como guardiã dos templos, dos oráculos, dos edifícios públicos e dos tesouros».
Um tema iconográfico, que data de muito tempo, nos mostra João Evangelista tendo na mão nua um copo de onde escapa uma serpente. Alguns artistas representaram mesmo o evangelista bebendo deste copo; é o que nos mostra a bela gravura de Bertelli, de 1583. Os hagiógrafos nos deram desta representação, a seguinte explicação: João Evangelista, tendo bebido o conteúdo de um copo envenenado não foi incomodado, pois o veneno dele escapou sob a forma de uma serpente, porque o Senhor disse quando vivo, que seus santos poderia beber impunemente bebidas mortais. É permitido ver também que na origem este copo representava a doutrina evangélica do santo, toda feita de amor e de luz sublime, e de ver, na serpente que dele escapa, a imagem desta luz que dele se dissemina: São João não foi o poeta mais prestigiosos do Verbo divino, luz do mundo.