René Guénon: DA INFALIBILIDADE TRADICIONAL
Frithjof Schuon: O ESOTERISMO COMO PRINCÍPIO E COMO VIA
O conhecimento, função da inteligência, não pode ser falso; é ou não é. Mas a volição, função da verdade, pode ser falsa em virtude do seu objeto, não do seu poder, bem entendido. Analogamente, a felicidade pode ser falsa em virtude do seu objeto ou do seu plano; neste último caso o objeto pode ser bom, mas a felicidade não tem razão em separá-lo do seu contexto divino, o que constitui um pecado de idolatria. A inteligência também pode enganar-se em virtude da falsidade do seu conteúdo; mas, nesse caso, engana-se na qualidade de pensamento, não de conhecimento. Falar de um conhecimento falso seria tão absurdo quanto falar de uma visão cega ou de uma luz obscura. O erro é ignorância; portanto, privação de conhecimento, embora sempre haja no erro um elemento subjacente de conhecimento ou de verdade, sem o que ele não existiria. Mas a tendência para o mal continua sempre uma volição, portanto, uma utilização de nossa liberdade, assim como uma felicidade ilusória continua sempre uma experiência de bem-estar, portanto, uma participação ontológica e longínqua, eventualmente perversa, da única Felicidade que possa existir. Ou ainda: querer ou amar o mal é um mal; mas conhecer o mal não é um mal, é um bem mesmo porque permite localizar o mal e vencê-lo.
Em outras palavras: o conhecimento, em si, é infalível ou incorruptível, assim como o instinto das plantas que se viram para o sol sem jamais se enganar, ao passo que os dois prolongamentos da inteligência, a vontade e o amor, são falíveis. Mas o são apenas porque se separaram do conhecimento para unir-se à paixão ou à inércia; reintegrados no conhecimento, tornam a ser infalíveis ou incorruptíveis como ele. E isto mostra que o homem se identifica essencialmente com a inteligência integral ou total. Essa totalidade confere ipso facto liberdade a essa forma de inteligência, a verdade, assim como confere a generosidade a esta outra forma de inteligência, a alma ou o caráter. A inteligência humana, por sua própria natureza, implica esses dois prolongamentos ou funções com suas perfeições. Somente se desdobrando na vontade e na alma, ou no amor, a inteligência está em estado de penetrar operativa — e impunemente — na dimensão vertical, que leva dos acidentes terrestres à Substância celeste.
Seleção de citações em PERRY, Whitall N. A Treasury of Traditional Wisdom. Cambridge: Quinta Essentia, 1991
A infalibilidade na ordem espiritual e a soberania na ordem temporal são dois termos perfeitamente sinônimos.
As Escrituras, a experiência direta, a autoridade e a inferência — estas são as quatro provas do conhecimento.
Srimad Bhagavatam, XI. xii
Agora, tem-se a certeza de que isto não é uma invenção própria, pois bem se está ciente de que nada se sabe, e portanto só se pode inferir que se foi preenchido através dos ouvidos, como um jarro, pelas águas de outro.
Que nenhum homem que está presente a este festival encontre falha em minha arte devido a meus defeitos pessoais; mas fique sabido que o espírito que Deus insufla em homens de minha sorte é infalível.
‘A Ordem em si não pode ser estragada nem corrompida pela falta dos subordinados ou dos superiores. Aquele que deseja entrar numa Ordem não deve considerar as más pessoas que estão dentro: deve apoiar-se no braço da Ordem que é forte e não pode enfraquecer, e permanecer fiel a ela até a morte.’
Santa Catarina de Siena
Verdadeiramente é difícil encontrar alguém neste mundo que preste atenção à própria Lei, independentemente do caráter do homem que a expõe.
Hônen
Dize: Não se diz a vós que se possuem os tesouros de Allah, nem que se tem conhecimento do Invisível; e não se diz a vós: Eis! somos um anjo. Segue-se apenas aquilo que é inspirado. Dize: São iguais o cego e o vidente? Não refletis então?
Alcorão, VI. 50
Ele (o Oráculo Délfico) é um deus, e não pode mentir; isso seria contra sua natureza.
É Deus que te trouxe a mim, Asclepius, para ouvir um ensinamento que vem de Deus. Meu discurso será de tal natureza, que, por razão de seu fervor piedoso, será corretamente considerado que há nele mais da operação de Deus do que em tudo que se falou antes — ou antes, que o poder de Deus inspirou-me a falar.
Bendito e louvado seja o nome de nosso Senhor Jesus Cristo que proveu para nós uma imagem da verdade, a saber, ele mesmo, na qual não há possibilidade de erro!
Pois caminha-se pela fé, não pela vista; e a fé vacilará se a autoridade das divinas escrituras for abalada.
Ou credes em parte da Escritura e desacreditais em parte dela?
Alcorão, II. 85
Crê-se em um Deus, único e eterno, que move todo o céu, ele mesmo imóvel, com amor e com desejo.
E por tal crença não se tem apenas provas físicas e metafísicas, mas é dado igualmente pela verdade que daí procede
através de Moisés, através dos Profetas e através dos Salmos, através do Evangelho e através de vós que escrevestes quando o Espírito ardente vos fez nutridores.
Dante (Paraíso, XXIV. 130–138)
Ninguém precisa duvidar da verdade ou certeza desta Arte. É tão verdadeira e certa, e tão seguramente ordenada por Deus na natureza, como é que o sol brilha ao meio-dia, e a lua mostra seu suave esplendor à noite.
O Tratado Dourado
Eis! aqueles que descreem na Recordação quando ela lhes chega (são culpados), pois eis! é uma Escritura inatacável.
A falsidade não pode chegar a ela pela frente ou por trás. Uma Revelação do Sábio, o Dono do Louvor.
Alcorão, XLI 41, 42
É uma Revelação do Senhor dos Mundos.
E se ele houvesse inventado quaisquer ditos em Nosso nome,
Nós certamente o teríamos tomado pela mão direita
E então cortado sua artéria vital,
E nenhum de vós poderia ter-nos afastado dele.
E eis! é uma garantia para os tementes a Deus.
E eis! Nós certamente sabemos que entre vós há negadores,
E eis! é verdadeiramente uma angústia para os descrentes.
E eis! é a Verdade da Certeza.
Então glorifica o Nome de teu Senhor, o Tremendo.
Alcorão, LXIX. 43–52
Abandone-se as coisas nas quais se está em dúvida pelas coisas nas quais não há dúvida.