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Criar para Fazer

Bíblia das Origens

Paul Nothomb: TÚNICAS DE CEGO

É ao final do RELATO, após ter confiado ao Homem a terra com sua flora e sua fauna, que Deus "contempla tudo que fez e o considera muito bom" ao final do "sexto dia". Tudo que fez e aí compreendido, certamente, o que ele "fez fazer" ou "deixou fazer" pela evolução natural.

Aí se completam "os céus, a terra e todo seu exército", conclui o texto e adiciona que — é o "sétimo dia" — Deus cessa disto se ocupar. Ele para, não se mete mais.

É o sentido do verbo hebreu (SH) BT (pronunciado: shavat — sabá) empregado.

E isto o texto o diz duas vezes em sequência, com uma variante. A primeira vez "O sétimo dia ele parou de toda sua obra que tinha feito". A segunda vez na última frase do relato "(Neste dia) ele parou de toda sua obra que tinha Criado, ele Deus, para fazer".

Por um lado "toda sua obra que para agora" Deus, o texto afirma então "que ele tinha feito" e em seguida "que tinha Criado para fazer".

'(SH) R BR' L'SSWT (que ele tinha Criado para fazer) em Gen 2,3 justo depois '(SH) R 'SSH (que tinha feito) em Gen 2,2.

Se se pensa como nossas bíblias que "Criar" (que elas escrevem "criar") e "fazer" com Deus por sujeito constituem quase-sinônimos, a última expressão, que contém a última menção de Criar no RELATO, aparece certamente estranha. Se "fazer" com Deus por sujeito quer dizer aproximadamente a mesma coisa que Criar, que significa "Criar para fazer"?

Se pelo contrário, como o indica o fio condutor das seis ocorrências de "Criar" que atravessam o RELATO dos quais três focalizados sobre o Homem, "Criar" quer dizer em realidade "dar liberdade", e "fazer" com Deus por sujeito "fazer fazer" ou "deixar fazer", a expressão se torna muito clara, mesmo se sua revelação é estupeficante.

O primeiro BR' (Criar) figura em Gen 1,1; o segundo em Gen 1,21 (os peixes e os pássaros); o terceiro, o quarto e o quinto em Gen 1,27 (o Homem). Enfim o sexto aqui em Gen 2,3.

Enquanto a "obra de Deus" não é concluída, "Criar para fazer" é a impulsão do "Criar" inicial disparado pelo "Criar" superior dos primeiros animais e encontrando seu apogeu no triplo "Criar" do Homem, o fazer progredir, entre estes saltos qualitativos, por evolução natural. Mas a obra de Deus concluída, e Deus cessando dela se ocupar, que pode ser este "fazer" que evoca senão a ação do Homem?

E de pronto "criar para fazer" (e não "Criar em o fazendo", como traduz Segond sem qualquer desculpa) desvela o porque, se se pode dizer, da obra de Deus. O Homem não é somente o centro, o auge, a meta da criação. Ele dela é a princípio, de alguma maneira, a origem. A "origem incriada"? Impossível! E no entanto a Bíblia das Origens não hesita a sugeri-lo em nos ensinando que toda sua obra, Deus não fez senão confiar ao Homem uma vez concluída, que ele a tinha Criado para isso. Para ver o que o Homem iria dela fazer. Não para a continuar, certamente, posto que ela estava concluída, mas para decidir soberanamente de seu sucesso ou de seu fracasso. De sua realidade. Do sucesso ou do fracasso, da realidade ou da ficção da liberdade que ele encarna, e diante da qual por esta razão, até hoje em dia, Deus se eclipsa e se abstém de intervir em nossa sangrenta História.