VIDE: VESICA PISCIS; ICONOGRAFIA
René Guénon: ALGUNS ASPECTOS DO SIMBOLISMO DO PEIXE
Simbolismo
Charbonneau-Lassay: ARTIGO NA REVISTA REGNABIT
Primeiramente se constata a representação da figura do peixe em objetos (p. ex., placas de osso) e cavernas desde a mais remota antiguidade, ou proto-história . A intenção parece ser mágica , como talismãs ou fetiches. Acredita-se que nestas épocas longínquas a difusão do peixe simbólico desceu sobre a Europa e a Ásia vindo da tradição boreal.
Nas primeiras civilizações históricas, o culto do peixe como imagem da Divindade e a ela se identificando se constata por toda parte. Nas regiões setentrionais da Europa, o Espírito das Águas, concebido sob a forma do peixe, foi revestido pouco a pouco de todas as faculdades intelectuais do homem e se tornou um ser híbrido meio-peixe e meio-homem. Em todas as partes uma conotação de fecundidade.
O deus Oannes, como Espírito das Águas dos Nórdicos, tornou-se um Homem-Peixe, e passou a ser visto como o Senhor da Terra e das vidas que nutria como o mediador também entre Céu e Terra. Oannes ou Anu é representado seja na aparência de um peixe sobre uma altar ou nadando, seja sob sua forma híbrida. Aproxima-se assim sob certos aspectos do Logos dos Gregos, do Verbo eterno. Entre os fenícios tomou o nome de Dagon, originário dos assírios e que expressa ao mesmo tempo a ideia de peixe e de trigo, evocando a origem da vida e sua manutenção na terra.
Na mitologia caldaica, um parente de Oannes, o deus Ea, tinha um corpo superior como o antílope e o inferior como um peixe. Ea, “senhor de Apsou”, era o deus caldaico da Sabedoria, da sabedoria poderosa, de acordo com os chifres que o coroam. Ea não era uma divindade marinha, mas tinha poder sobre as fontes, rios, pântanos e sobre as águas superiores, nuvens, nevoeiros, orvalho, chuvas, neves, todas as águas que se chama Apsou. Era também o Deus do saber e das artes, o deus das encantações e garantia os oráculos.
Na simbólica dos primeiros tempos cristãos, foi adotado como símbolo do Salvador do Mundo. Figura muitas vezes nos Evangelhos, sendo muitos dos discípulos “pescadores”. Um dia, um cristão grego de Alexandria, tomando cada uma das letras iniciais da palavra ICHTHUS, “peixe”, pode-se obter a frase seguinte: Ihesous Christos, Theon Uios, Soter.
Este acróstico teve em Roma um grande sucesso e daí se expandiu a todas as cristandades onde reinava a “disciplina do secreto”; o Ichthus como figura ou palavra foram representados ou escritos por toda parte com sua significação misteriosa que só os iniciados nos dogmas cristãos podiam compreender. Na Idade Média, um dos autores importantes do Ciclo do Graal, Robert de Boron encontrou uma expressão feliz, que foi doravante adotada: Nosso Senhor vindo sobre a terra “se 'obscureceu' (do francês medieval, s'aombra = se cobriu de sombra, se mascarou, se encarnou no seio da Virgem) no seio da Virgem Maria; assim como, também, as primeiras idades cristãs se “ocultaram”, para os profanos, sob as aparências do Ichthus misterioso e dos outros emblemas.
O símbolo do ICHTHUS acromático assim adotado, era ao mesmo tempo um reconhecimento de Jesus como Salvador, e um protesto contra a reprovação manifestada pelo Grande Sacerdote dos Judeus a seu respeito, quando se proclamou, durante sua Paixão, o verdadeiro Filho de Deus.
Desde este dia, a veneração do Peixe-Cristo foi fervorosa na jovem Igreja; também os pontífices desde então e mesmo Clemente de Alexandria recomendam aos fiéis de fazer gravar a imagem reverenciada sobre suas joias, sobre seus anéis, sobre seus selos, sobre seus túmulos. E Deus sabe que foram escutados!
Sobre uma pedra de Autun do final do século II ou III está escrito em grego: “Raça celeste do Peixe divino, fortifica teu coração, posto que recebeste, no meio dos mortais, a fonte imortal da água divina. Regozijai tua alma, amigo querido, pela água sempre brotando da sabedoria que dá tesouros. Receba o alimento, doce como o mel do Salvador dos santos, e coma com delícias, tendo o Peixe em tuas mãos. Satisfaça-te com o Peixe. — Eu o desejo, meu Mestre e Salvador. Luz dos mortos, te suplico, dê a minha mãe um doce repouso. — Aschandios, pai muito amado de meu coração, com minha doce mãe e meus irmãos, na paz do Peixe, lembre-se de Pectorios”.
E eis o que seu epitáfio faz dizer ao bispo Abercius de Hierópolis, que fala a princípio de suas viagens apostólicas, realizadas ao longo do século III, e que adita: “... a Fé me conduz por toda parte. Por toda parte me serviu de alimento um Peixe de fonte, muito grande, muito puro, pescado por uma Virgem santa. Ela o deu a comer aos amigos; ela possui um vinho delicioso que dá com o pão”.
Cabe mencionar ainda um estranho emblema trinitário, a Trinacria, no qual sob a forma que nos ocupa aqui, Jesus Cristo faz parte. São os três peixes absolutamente semelhantes entre eles que estão unidos de tal maneira que suas três cabeças formam uma só cabeça. Emblema muito antigo que a Idade Média preservou sem ter retido o pensamento primeiro que permite aplicar ao Pai e ao Espírito Santo a aparência de um peixe, ordinariamente reservada ao Filho. Alguns autores consideram obviamente como um dos emblemas da Trindade, onde se guarda a importância do Filho divino mimetizado nas três pessoas, em geração eterna, pois a figura denota movimento, deste Filho que não foi criado mas engendrado e que é consubstancial com o Pai. A identidade de natureza divina, comum ao três peixes (como às três pessoas da Trindade, seria afirmada nesta figura pela forma semelhante dos três peixes, assim como a unidade de substância o seria pela cabeça única que não faz dos três peixes senão um só ser.
A Trinacria, como a Triquetra, a Triscela, representada em moedas antigas, como a Suástica, é uma figura tendo um pivô central imaginário que exprime essencialmente um movimento de giro, este movimento que anima tudo, que se impõe a tudo, que é o ponto de partida de toda vida. E neste sentido a Trinacria simboliza a atividade criadora e contínua das três Pessoas divinas, esta atividade produtora que traduz o Verbo divino do qual São João nos diz que “tudo por ele foi feito, e sem ele nada foi feito do que existe...”.
Alguns autores acreditam ter encontrado a razão da adoção do peixe como emblema de Jesus Cristo no fato que o Menino de Belém, teria nascido no signo de Peixes, na medida que o ponto gama, onde a eclíptica corta o equador se encontrava na constelação de Peixes, depois de ter percorrido aquela de Áries. Fato que depois da processão dos equinócios e do deslocamento do polo terrestre, não tem sentido, pois os signos do zodíaco não concordam com as constelações de mesmo nome. Entretanto este fato do ponto gama estar no momento do nascimento de Jesus, não parece ser relevante na adoção do peixe emblemático: reflexos do culto de Oannes e o acróstico alexandrino ICHTHUS, parecem ser fontes mais certas.
O hieróglifo cristão do peixe, um dos primeiros para figuras o Redentor do Mudo, foi também usado para representar misteriosamente o fiel cristão, seu discípulo. Os primeiros cristãos se designavam a si mesmos como “filhos do Ichthus celeste”, o “Grande Peixe”, o “Divino Peixe” que deviam seguir e imitar em tudo: “Nós pequenos peixes, escrevia no século II Tertuliano, segundo nosso Peixe, Jesus Cristo, nascemos na água (batismal), e não podemos ser salvos senão permanecendo na água”, quer dizer na fé do Batismo. E no século seguinte, Cipriano exprimia assim: “É na água que renascemos, “à imagem” do Cristo, nosso Mestre, o Peixe”. (Excertos traduzidos de Charbonneau-Lassay Peixes)