Tendo-os assim posto à prova, o camarista abriu a porta; e, à medida que descerrava as cem cortinas, uma atrás da outra, revelou-se-lhes um novo mundo além do véu. Manifestava-se agora a luz das luzes, e todos se assentaram na masnad, sede da Majestade e da Glória. Cada qual recebeu um escrito com a recomendação de lê-lo do princípio ao fim; e, lendo-o e refletindo-o, foi-lhes possível compreender o próprio estado. Quando se viram totalmente em paz e alheados de todas as coisas, perceberam que o Simurgh se achava ali em sua companhia e que uma nova vida começava para eles no Simurgh. Tudo o que haviam feito até então se apagou. O sol da majestade emitia seus raios e, no rosto de cada um, os trinta pássaros (si-murgh) do mundo exterior contemplaram o rosto do Simurgh do mundo interior. Isso os espantou de tal modo que já não sabiam se eram eles mesmos ou se se haviam transformado no Simurgh. Afinal, num estado de contemplação, compreenderam que eram o Simurgh e que o Simurgh era os trinta pássaros. Quando fitavam os olhos nele, viam que, de fato, o Simurgh lá estava, e, quando voltavam a vista para si mesmos, viam em si o Simurgh. E, dando tento de ambos ao mesmo tempo, de si próprios e dele, compreenderam que o mesmo eram eles e o Simurgh. Ninguém no mundo ouviu jamais coisa igual a essa.
A seguir, entregaram-se à meditação e, passado algum tempo, pediram ao Simurgh, sem auxílio da linguagem, que lhes revelasse o segredo do mistério da unidade e da pluralidade dos seres. E, mesmo sem falar, deu-lhes o Simurgh esta resposta:
— O sol da minha majestade é um espelho. Quem nele se vê, vê sua alma e seu corpo e os vê completamente. Uma vez que viestes como trinta pássaros, si-murgh, vereis trinta pássaros neste espelho. Se tivessem vindo quarenta ou cinquenta, seria o mesmo. Ainda que estejais agora completamente mudados, vós vos vedes como éreis antes.
"Pode a vista de uma formiga alcançar as Plêiades distantes? E pode esse inseto erguer uma bigorna? Já vistes, alguma vez, um mosquito segurar um elefante com os dentes? Tudo o que conhecestes, tudo o que vistes, tudo o que dissestes ou ouvistes — tudo isso já não é aquilo. Quando atravessastes os vales do Caminho Espiritual e realizastes boas tarefas, tudo fizestes por minha ação; e pudestes enxergar os vales da minha essência e das minhas perfeições. Vós, que sois apenas trinta pássaros, bem andastes ficando espantados, impacientes e curiosos. Mas eu sou mais do que trinta pássaros. Sou a própria essência do verdadeiro Simurgh. Aniquilai-vos, pois, gloriosa e jubilosamente em mim, que em mim vos encontrareis.
E os pássaros se perderam para sempre no Simurgh — a sombra perdeu-se no sol, e isso é tudo.