Trecho das páginas 67-69 da tradução de Lilian Silburn
1. Saboreie sempre a paz e abstenha-se da tagarelice perpétua com propósitos vãos, evitando as (expressões) 'quem é você, por que, como, o que é isso' que sobrecarregam o caminho. O que se revela (então) como a luz (iluminando) as distinções entre existência e não-existência, é a maneira de ser sem fissura, o Vazio, o domínio de Shiva, a Realidade, o supremo brahman. Que apreensão objetiva (se poderia discernir) ali?
2. Uma vez afastado o irreal, o real ao qual se acede é ele mesmo irreal. Irreal ou real, não se é idêntico a este mesmo Real?
3. "Toda manifestação é independente e não devida à Luz (da consciência)", diz você, mas então, se esta diferenciação mesma se manifesta, não se manifesta ela, também, na luz? Abandone, pois, sua tendência a quebrar esta quebra. Se, durante um sonho, se sabe que se está sonhando, não se sente medo quando se recebe um golpe de espada, quando se é afogado, queimado ou aprisionado, pois isso é apenas um jogo.
4-5. Quaisquer que sejam as coisas que se colocam sob a incitação do conhecimento e da atividade, diga-me em que elas se distinguem do inconsciente? E se o inconsciente vibra também, não (faz parte) do domínio da Consciência sem dualidade, ilimitado, eterno e que, eminentemente real, escapa a toda apreensão intelectual? Se é você que manifesta as coisas, como a ilusão se espalharia por intermédio delas? e se estas manifestam esta (ilusão), não é graças a você? não importa, aqui ainda, seu brilho permanece indiviso. Caso contrário (se você não é quem manifesta as coisas), elas não têm existência. Nos dois casos (não se pode colocar uma existência objetiva distinta da consciência). (Você) grandeza sempre satisfeita, espontânea, que nada restringe, que pulveriza o erro, oh! maravilha, você é perpetuamente iluminado!
6. Volte seu olhar para o exterior enquanto passa além do caminho do visível (diz você)! Ora, vamos! Trata-se desta enganação à semelhança da bhairavimudra: o céu da Consciência livre de dualidade não está nem no exterior nem no interior, o domínio do florescimento não lhes deixando lugar.
7. Tudo o que se revela quando o fluxo de impressões se expande com veemência, é isso mesmo que se deve observar com intensidade: se você aparece e aparece ainda e ainda no início, no meio e no fim, Oh! o universo (diferenciado) se dissolverá.
8. A confusão se adensa quando se preocupa com dúvidas relativas à dor. As amarras, devidas aos erros surgidos ao mesmo tempo que sua causa, determinam sua extrema variedade. Ela é comparada à fortaleza dos gandharva. Se ela não se manifestasse no firmamento da Consciência — receptáculo da alternativa dualismo e não-dualismo — em que outro lugar ela brilharia e qual seria (seu) último refúgio, ela cuja essência é multiplicidade?
9. Este fluxo (de impressões), verdadeiramente irreal durante o sonho, no estado de sono profundo não se manifesta; como se o capturaria no firmamento da Consciência sem limite e além destes (estados)? Se você diz que na vigília mesma, o conjunto de objetos como a terra existe, lá ainda, acontece que, graças à Consciência, se este (fluxo) termina, em um instante e em qualquer lugar que seja, o conjunto não aparece mais separado (da Consciência), (assim) como (na vigília, a Consciência) poderia ser quebrada?
10. Quaisquer que sejam as aparências manifestadas à Consciência, elas são alcançadas em mim, supremo firmamento; pois estes raios que estão nelas (em sua especificidade), é em mim que eles brilham indiferenciados no Esplendor eterno. E esta Luz consciente ilimitada, autônoma, verdadeira, infinita, sem imperfeição, eterna, espontânea, que dispersa as trevas fugas de dois inimigos irreconciliáveis: dualismo e não-dualismo, (esta Luz) sou eu!
11. Que o tempo suscite as parcelas temporais acumulando-as, que o criador crie com ardor, ou que o deus do amor agite intensamente (o coração humano) segundo as prescrições (de Shiva) das quais ele depende, que este barulho do jogo divino tendo como único asilo o céu constitua as fases sucessivas (levando) à revelação do Eu, ou que tenha o corpo, etc., como asilo, não é na grande ilusão da mudança universal que eu os percebo?
12. Olá, alguém! que eu o devore; olá alguém! que eu o mate imediatamente; olá, alguém! que eu o beba, eu que estou bêbado de ter mastigado a força da suprema Consciência! Shiva-o-leão, Deus encantador, tendo accedido à maior das satisfações ao passear nas florestas impenetráveis de seu próprio domínio, fez o elefante desta vil diferenciação berrar. Sua aparição fulgura para os seres sagazes (chegados) aos cumes do Despertar ao mesmo tempo que põe em fuga os males — estes chacais — e que dissipa o medo inerente à existência.