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id da página: 9498 Marsilio Ficino – Sobre a ira divina e outros textos – Epítome ao Íon Marsilio Ficino

Ficino Loucura

Marsilio Ficino – Sobre a ira divina e outros textos – Epítome ao Íon

Marsilio Ficino. Sobre el furor divino y otros textos. Tr. Juan Maluquer y Jaime Sainz

Nosso Platão, excelentíssimo Lourenço, em seu diálogo Fedro, define a loucura como uma alienação da mente. Observa, contudo, que há dois tipos de alienação: uma causada pelas enfermidades humanas e outra causada pela divindade. À primeira chama insânia, e à segunda, loucura divina. Pela insânia o homem precipita-se a um nível inferior ao próprio de sua condição, e, de homem, torna-se um ente insensato. Em contrapartida, pela loucura divina o homem se ergue acima de sua condição e encaminha-se em direção à divindade.

A loucura divina é, pois, uma iluminação racional da alma, mediante a qual a divindade volta a elevar a alma, que havia descido às regiões inferiores, a sedes sublimes.

O descenso da alma ao corpo, a partir do próprio Uno, princípio de todas as coisas, realiza-se mediante quatro graus: mente, razão, opinião e natureza. Com efeito, existindo em toda ordem seis graus, e contendo o superior o inferior, e sendo os quatro anteriormente citados os que se encontram no meio de seu caminho até o corpo, é necessário que tudo quanto desça do primeiro grau ao último caia através dos quatro graus intermediários.

O Uno-Só é o termo de todas as coisas e medida da infinitude e da pluralidade. A mente é, de fato, plural, mas estável e eterna. A razão é plural, móvel, mas finita. A opinião é plural, móvel e infinita, porém unida por substância e pontos, de igual modo que a natureza, salvo que esta se difunde através do corpo. O corpo, em contrapartida, é uma pluralidade infinita sujeita ao movimento, com uma substância dividida em pontos e espaços.

Tudo isso contempla nossa alma, e por meio disso desce e, por sua vez, ascende.

Quando sai do Uno-Só, que é o princípio de todas as coisas, a alma adquire certa unidade que liga toda sua essência, suas forças e suas ações, unidade a partir da qual e para a qual se contém tudo aquilo que faz parte da alma, de modo semelhante às linhas de um círculo em relação ao seu centro. Mas não apenas une entre si as partes da alma e a alma inteira, como também une a alma ao Uno-Só, causa de todas as coisas.

Quando a alma depende da mente divina, contempla firmemente, mediante a mente, as ideias de todas as coisas. Quando se contempla a si mesma, reúne os estados universais das coisas e, com a razão, discorre as conclusões a partir dos princípios. Quando observa o corpo, concebe, com a opinião, as formas particulares dos entes móveis e as percorre. Quando se volta à matéria, serve-se da natureza como de um instrumento, com o qual une a matéria, move-a e lhe dá forma. Daí surgem vazios e protuberâncias e seus contrários.

Observa, portanto, que do Uno, que está além da eternidade, a alma desliza para a pluralidade eterna; da eternidade passa ao tempo, e do tempo, ao espaço e à matéria. Por essa razão, do mesmo modo que desce através de quatro graus, é necessário que suba pelos mesmos.

Mas a loucura que tende ao superior é divina, como sua própria definição indica. Existem, portanto, quatro tipos de loucura divina: a primeira, a loucura poética; a segunda, a mística; a terceira, a profética; e a quarta, a amorosa. A poesia provém das Musas, a mística de Dioniso, a profecia de Apolo, e, por fim, o amor provém de Vênus.

O espírito, por certo, não pode retornar ao Uno, a não ser que ele mesmo se converta em uno. Este, havendo realizado muitas transformações, desceu ao corpo, distribuindo-se em diversas operações e aplicando-se a cada uma. Por isso, suas partes superiores permanecem quase adormecidas, enquanto as inferiores dominam as restantes. Umas são afetadas pelo corpo e outras por certa perturbação. Em resumo, constata-se que o espírito está repleto de desordem e de discórdia.

Assim, é necessário, em primeiro lugar, que a loucura poética, por meio dos tons das Musas, desperte tudo quanto jaz adormecido, e que, através da suavidade harmônica, acalme o que foi perturbado, e, finalmente, mediante o consenso das diversas partes, expulse a dissonância e modere as várias facetas do espírito. E ainda assim isso não é suficiente, pois a pluralidade permanece no espírito.

Segue-se o arrebatamento místico, que, por meio de sacrifícios, expiações e culto divino, dirige a atenção de todas as partes do espírito à mente, pela qual a divindade é venerada. Assim, conduzindo todas as suas partes à mente única, o espírito passa, de certo modo, da pluralidade à unidade.

É necessário que a terceira espécie de loucura dirija a mente à própria unidade da alma. Isso Apolo o realiza por meio da adivinhação. Pois, quando a alma se eleva acima da mente em busca de sua unidade, prediz o futuro. Quando a alma se converte em uno, é uno-Deus na água que subjaz na própria essência da alma.

Resta, pois, que imediatamente a alma se torne o Uno que está além da essência. A celeste Vênus o realiza pelo amor, isto é, pelo anseio da beleza divina e pelo ardor em direção ao bem.

Resumindo: a primeira loucura tempera tudo o que é disforme e dissonante no corpo; a segunda faz da pluralidade das partes já temperadas um todo; a terceira conduz esse todo único para além de suas partes; e a quarta loucura o dirige ao Uno, que está acima da essência e do todo.

Usando uma comparação, a primeira loucura distingue o bom cavalo — isto é, a razão e a opinião — do mau cavalo — isto é, da ilusão confusa e da natureza. A segunda submete o mau cavalo ao bom, e este, por sua vez, ao auriga, isto é, à mente. A terceira conduz o auriga à sua cabeça, isto é, dirige-o à unidade da mente. Finalmente, a quarta volta a cabeça do auriga ao princípio de todas as coisas, onde o auriga é feliz. Ali coloca os cavalos diante do cocho, isto é, diante da beleza divina, e os alimenta com ambrósia e néctar, isto é, com a visão da beleza e com a alegria que essa visão produz.

Estas são as quatro funções da loucura sobre as quais Platão trata sucessivamente no Fedro. Quanto à loucura amorosa, Platão fala dela mais extensamente no Banquete, enquanto a primeira, isto é, a poética, é abordada propriamente no diálogo intitulado Íon.

Platão, contudo, define no Fedro a loucura poética do seguinte modo: “A loucura poética é a possessão da alma devida às Musas, possessão que, tendo-se apoderado de uma alma delicada e invencível, a desperta e a estimula, por meio de cânticos e da poesia, para instruir o gênero humano.”

Por possessão entende-se o arrebatamento da alma e seu giro para a contemplação dos númenes das Musas. Por alma delicada designa-se aquela alma dúctil e moldável às Musas, pois, se a alma não apresenta tal disposição, não será possuída. Quando se diz que a alma é invencível, é porque, uma vez tomada, vence tudo, e, ao contrário, não pode ser maculada nem vencida por nada inferior.

Essa loucura desperta o corpo do sono e lhe impõe a vigília da mente, retira-o das trevas da ignorância e o conduz à luz, subtrai-o à morte e o encaminha à vida; do esquecimento (lethe) o reclama para recordar o divino e, por fim, o estimula, incita e inflama para que expresse em versos tudo quanto contempla e pressente.

Concluída esta definição, acrescenta que aquele que, sem a intervenção das Musas, se aproxima dos limites da poesia, tanto ele quanto sua obra carecem de valor. Sua obra tem tanto mérito que não pode ser bem-sucedida senão pelo máximo favor da divindade.

Esta é a mesma temática do Íon. Nesse diálogo, Platão expõe de onde procede essa loucura e como ela se desenvolve. Contudo, Platão afirma, no quarto livro das Leis, que a divindade, a fortuna e a arte regem todos os aspectos humanos, o que implica que a poesia pode ser um dom da divindade, do acaso ou da arte.

Sócrates, juntamente com Íon, o rapsodo, procura discernir qual das causas mencionadas é a mais verossímil. Designa-se rapsodo o homem que recita, interpreta e canta poemas.

Íon cantava a obra de Homero e interpretava seus versos, tangendo a lira diante do público. Era tão versado nesse autor que não recitava nenhum outro poeta além de Homero, ainda que outros tratassem dos mesmos temas. Narrava, pois, com rapidez tudo o que concernia a Homero, e é daí que se tece o argumento.

Cumpre averiguar se Íon recita a obra de Homero por acaso, por arte ou por inspiração divina.

Não era por acaso, pois, se assim fosse, não poderia interpretar todas as partes, mas apenas algumas poucas e ainda sem ordem nem continuidade.

Não era por arte, pois aquele que possui uma arte em sua integridade pode julgar qualquer aspecto que a ela pertença. Os poemas de Hesíodo e de outros poetas submetem-se ao mesmo impulso poético que os de Homero, sobretudo nas partes que tratam de temas semelhantes. Contudo, Íon apreendera apenas os de Homero. Conclui-se, pois, que Íon não recitava Homero por arte.

Resta apenas que o fizesse por inspiração divina. Disso resulta claro que Íon, como intérprete do poeta, e muitos outros dotados de modo semelhante, interpretam a poesia alheia com instinto divino. Donde se infere que, se não basta o engenho para apreender a poesia já transmitida, muito menos bastará para criá-la. Por isso nem Homero nem qualquer outro poeta verdadeiro pôde produzir sua poesia sem inspiração celeste. Sócrates demonstra esse argumento por diversos meios.

Primeiramente, os poetas tratam em suas obras de todas as artes e de todas as ciências, mas é impossível que as tenham aprendido por esforço humano, sendo já difícil o conhecimento de uma única delas. Assim, manifestam-se não por arte humana, mas por certa infusão divina, visto que a maior parte dos poetas, quando cessa o ímpeto da loucura, já não compreende o que escreveu, embora durante a loucura tivesse tratado corretamente cada disciplina. Em contrapartida, cada uma dessas ciências seria facilmente reconhecida por quem fosse versado em determinada área.

Além disso, observa-se frequentemente que um homem rude ou inepto se converte repentinamente em grande poeta e canta alguma composição divina e magnífica. Certamente alcançar tal grandeza em um instante não é próprio do engenho humano, mas da inspiração divina. Nela manifesta-se claramente a divindade, pois é ela quem infunde essa inteligência por sua vontade.

Prova disso é que muitas vezes se apodera de homens desajustados em preferência aos de maneiras cultas, e de homens pouco sensatos, em detrimento dos juiciosos. Isso porque, se dirigisse suas forças a homens hábeis e prudentes, pareceria que a obra poética se produzira por sutileza e engenhosidade humanas.

A poesia, portanto, não procedendo do acaso nem da arte, deve ser atribuída à divindade e às Musas. Por divindade, Platão entende Apolo, e pelas Musas, as almas das esferas do mundo.

Júpiter é, sem dúvida, a mente da divindade; dela procede Apolo, mente da alma do mundo, e dele, as almas das oito esferas celestes, chamadas as nove Musas, porque, ao moverem harmoniosamente os céus, produzem música — melodia distribuída em nove sons, sendo oito os tons das esferas e as nove Sereias que, cantando à divindade, produzem um único canto.

Assim, Apolo deriva de Júpiter e as Musas procedem de Apolo, ou, dito de outro modo, o séquito das Musas é conduzido pela mente da alma do mundo, porque, assim como aquela mente (isto é, Apolo) é iluminada por Júpiter, ela também ilumina as almas das esferas do mundo.

Estes são os graus pelos quais desce a loucura poética: Júpiter toma Apolo; Apolo ilumina as Musas; as Musas despertam e estimulam as almas delicadas e invencíveis dos poetas; os poetas inspirados inspiram, por sua vez, os intérpretes; finalmente, os intérpretes comovem o auditório.

Entretanto, as almas são possuídas por diferentes Musas, pois dependem de diversas esferas e planetas, como se narra no Timeu: assim, Calíope é a Musa da voz, representante de todas as vozes das esferas; Urânia, assim chamada por sua dignidade de estrela celeste; Polímnia, dedicada a Saturno, porque guarda a memória da antiguidade e manifesta um período frio e austero; Térpsicore, a Júpiter, benéfica ao coro dos homens; Clio, a Marte, por seu desejo de glória; Melpômene, ao Sol, por ser a moderação do mundo; Erato, a Vênus, pelo amor; Euterpe, a Mercúrio, por seu prazer honesto em assuntos graves; e Tália, à Lua, pela jovialidade mostrada em seu humor diante de todas as vicissitudes.

Apolo é a alma; sua lira, o corpo do Sol; as cordas daquela e os movimentos deste são: o anual, o mensal, o diurno e o oblíquo; seus quatro sons são as neates e a hypate.