VIDE: DESCARTES
Andre Allard: L'ILLUMINATION DU COEUR
A mente me especifica sujeito. A mente, com sua face interna, o intelecto agente e não o pensamento mental. O sujeito, desde Descartes, é aquele que diz «eu». A certeza cartesiana é fundada sobre o cogito. Penso, logo sou. Tendo tudo revogado em dúvida, o cogitante encontra nele mesmo (crê encontrar) o fundamento indubitável de um conhecimento que, doravante, segundo ele, poderá se exercer em toda liberdade e toda verdade. Qual será seu primeiro exercício? Dar de novo uma profundidade ontológica a um mundo de coisas espaciais opostas ao pensamento. Pois a experiência cogitativa, quando é autêntica, vai pelo menos até aí que o cogitante perde o sentido da densidade existencial das coisas sensíveis opostas, em sua «substancialidade» ao pensamento que as pensa e, de resto, esta experiência não induziria o cogitante a fazer do ego sum a pedra angular de seu sistema se ela não fosse de pronto até revelar a inconsistência existencial dos objetos da experiência sensível. Deste idealismo subjetivo, Descartes não sai senão encontrando em Deus «que não poderia enganar» o garantidor que as coisas sensíveis não são simples imagens, mas ao contrário que existem como parecem existir. No entanto, a solução cartesiana não poderia valer senão para Descartes. O idealismo cartesiano é, de fato, a primeira estação de um circuito do qual uma estação é o idealismo absoluto e, o termo, o «coisismo materialista», após o qual não há mais que Nietzsche e Heidegger.
A grande metanoia põe em questão a existência do mundo, mas não, em absoluto, isolando um ego cogitante que existiria, ele, e contemplaria o vazio; ela põe em questão a existência de absolutamente todas as coisas, aí compreendido o pensamento cogitante ele mesmo; ela não tem portanto nada a ver nem com a oposição cartesiana «substância pensante — substância extensa», nem com a problemática do mundo dito «exterior». Não sou fundamentalmente coisa pensante, sou fundamentalmente mente, e em seguida somente coisa pensante. O erro de Descartes é de ter reduzido o sujeito conhecente ao pensamento, depois ter oposto este às coisas sensíveis. Descartes não viu que o pensamento ele mesmo, com seus objetos — os objetos do pensamento tais quais as noções e as imagens — é objetivo, quer dizer «aí-diante» a radicalidade principial que especifica o sujeito como mente. Ob quer dizer «diante», «em face», e jectus significa «aquilo que se encontra como lançado aí». É ob-jeto toda coisa ob-jetada em relação à radicalidade principial: todas as coisas, quer dizer coisas sensíveis, percebidas pelos sentidos, ou coisas pensadas; radicalidade principial, quer dizer a mente. É a mente que, ativada — ou atualizada — pela Presença real de Deus que reside no centro da alma como em um templo, diz o «eu» que me especifica sujeito conhecente e querente. Certamente, a cogitação ativa é também o afazer do sujeito conhecente; mas mesmo na cogitação ativa, que é uma operação do pensamento mental, a mente, se está ligada a esta atividade, permanece vidente: age por sua presença, mas nela mesma permanece a testemunha da cogitação.