Ananda Coomaraswamy: DA PERTINÊNCIA DA FILOSOFIA
A metafísica também não nega que mesmo num Céu situado na mais remota extremidade do tempo pode existir, ao menos até o dia do Juízo Final, um conhecimento de alguma coisa (avidya), em vez de um conhecimento como conhecimento (vidya), embora ela mesma não considere que a pessoa cuja modalidade ainda está no conhecimento de alguma coisa possa ser um Ser que Compreende (vidvan) nem um Ser Completamente Ampliado (atimukta). A metafísica concede, e isto num acordo formal com a religião, que pode e até deve haver estados de existência que de modo nenhum existem completamente no tempo, nem ainda na eternidade (o agora intemporal), e sim são eviternos, definindo eviternidade (do sânscrito amrtatva) como um meio que há entre a eternidade e o tempo; por exemplo, os Anjos, como substâncias intelectuais conscientes, participam da eternidade quanto à sua natureza e compreensão imutáveis, mas participam do tempo no que se refere à percepção acidental que têm de antes e depois, à variação das suas afeições (risco de cair em desgraça etc.) e tendo em vista a independência angelical de se mover do lugar (devido à qual são representados com asas e às vezes chamados pássaros) 1 , com o que conseguem ir a qualquer lugar, não é a imanência do Primeiro que implica uma presença igual em toda parte. Nem a religião nega que "certos homens, mesmo neste estado de vida, são maiores que certos Anjos, não na realidade e sim virtualmente" (Santo Tomás de Aquino em Summa Theologica (Tomás de Aquino) I.q.117, a.2, ad.3), de onde se conclui naturalmente que "alguns homens são elevados às ordens angelicais mais altas (Gregório, Horn. in Ev. XXXIV), participando assim de uma existência eviterna; tudo isso corresponde ao que está implicado na conhecida expressão hindu devo bhutva, que equivale a "que morreu e foi para o Céu". Este mesmo ponto de vista está explicado mais tecnicamente no texto crítico Brhadaranyaka Upanixade II 1.2.12 da seguinte forma: "Quando um homem morre, o que não o abandona (na jahati) é a 'alma' (nama) 2 ; a alma não tem fim (ananta ou eviterna), sem fim é o que os Inúmeros Anjos são, e assim ele ganha o mundo eterno" (anantam lokam). Segundo Rumi (XII no livro Shams-i-Tabriz de Nicholson), "cada forma que vemos tem o respectivo arquétipo no mundo sem posição, e se a forma pereceu, não importa, visto que o original dela é eterno" (lamkan-ast); e Santo Tomás de Aquino (Summa Theologica (Tomás de Aquino) II-I, q-67, a.2c) diz: "No que se refere às espécies inteligentes, que estão no intelecto possível, permanecem as virtudes intelectuais", por exemplo quando o corpo é corrompido. Isso também foi exposto por Fílon, para quem "le lieu de cette vie imortelle est le monde intelligible" 3 , o que significa dizer o mesmo que o Domínio Intelectual de Plotino. Se considerarmos agora as implicações destes adágios em relação à resposta que Boehme dá ao erudito que pergunta: "Para onde vai a alma quando o corpo morre?" isto é, "Não há necessidade de ir a lugar nenhum. .. Pois. .. qualquer dos dois lugares (céu ou inferno) que esteja manifestado na alma (agora), é lá que ela ficará (depois) ... de fato, o julgamento é feito imediatamente depois da separação do corpo" 4 ; e, à luz do Brhadaranyaka Upanixade IV.4.5-6 "o que se quer. . . recebe-se" (yat kamam. . . tat sampadyate) e "quem tem a mente ligada (a coisas mundanas). . . volta de novo para este mundo. . . mas quem deseja a Essência (atmarí), não é abandonado pela sua própria vida (pranah) e ele vai para o Brâmane como Brâmane; fica evidente embora a alma ou intelecto (o manas védico) seja imortal por natureza (isto é, embora seja uma potencialidade individual que não pode ser aniquilada, qualquer que seja o seu destino), mesmo assim o destino real da consciência de um indivíduo depende de si mesma, quer ela esteja destinada a ser 'salva' ou 'libertada' (devayana), quer destinada a entrar de novo no tempo (pitryana) ou a ser "perdida" (nirrtha). Em consequência disso dizem-nos: "Recolhe o tesouro no Céu, onde não há traças nem ferrugem para estragá-lo", pois obviamente, se agora a vida consciente do indivíduo já está estabelecida intelectualmente (ou, na fraseologia religiosa, se está estabelecida "espiritualmente") e se o mundo intelectual ou espiritual é eviterno (como se conclui da consideração de que as ideias não têm lugar nem data), essa vida consciente não pode ser infringida pela morte do corpo, que não muda nada no que diz respeito a isso. Ou se a consciência ainda está ligada a finalidades boas ou más (ou implicadas nelas) como as que só podem ser conseguidas no tempo e no espaço, mas ainda não foram conseguidas quando o corpo morre, é claro que uma consciência assim vai achar o caminho de volta para aquelas condições, tais como condições de espaço e tempo, nas quais as metas desejadas podem ser atingidas 5 . Ou, enfim, se em vida a pessoa já levou uma vida consciente, devemos considerar que ficou separada quando o seu único apoio foi destruído; isto é, tudo deve ser considerado uma "apostasia" numa mera potencialidade ou num mero inferno.
NOTAS: