VIDE: Analogia; Identidade Suprema
A identidade «absoluta» é puramente «ideal», portanto, experimentalmente inexistente, tanto no mundo empírico como na prática quotidiana e não tem significado concreto nem «existencial». O mundo formal das abstrações lógicas e matemáticas não pode, portanto, sofrer nenhum desmentido físico nem nenhuma crítica ontológica pois, uma vez que é puramente tautológico, assenta num único princípio: «o mesmo (tantos) do qual ele postula idealmente a igualdade absoluta com 'o uno' em todas as relações consideradas como racionalmente coerentes». Esta perspectiva lógica não implica nenhum postulado além do sentido que dá a si própria inicialmente: o do princípio de identidade, de que depende toda a formalização ulterior.
A identidade (de idem, mesmo), que já estudamos em “Filosofia e Cosmovisão”, pode ser desdobrada, em:
a) auto-identidade (a identidade da tensão consigo mesma);
b) identidade plural ou numérica (identidade entre dois ou mais objetos), que, já vimos, só formalmente podemos considerar, isto é, como esquema abstrato, já despojado das diferenças.
Ou ainda» como:
a) absoluta, como a identidade de todas as notas, bem como da tensão e da posição (cuja validez discutiremos oportunamente) ;
b) relativa, a identidade que se dá com a afirmação das mesmas notas estruturais da tensão, mas com diferença das notas de posição.
Se há distinção nas notas estruturais entre dois objetos, temos a diferença.
Ora, as tensões, enquanto físicas, não são idênticas, nem os esquemas abstratos o são, porque se o fossem negaríamos a sua multiplicidade, nem tampouco os objetos psíquicos, porque se dão historicamente em nossa psique.
Só há identidades absolutas formais: é a conclusão a que se chega ante a evidência de apenas pseudo-identidades (parciais).
Mas já vimos que a identidade para a razão é sempre formal, sempre absoluta. Os seres, que se identifiquem parcialmente, identificar-se-iam nestas ou naquelas notas, e teríamos, entre essas, pelo menos, uma identificação absoluta.
Considerando-se, como já o fizemos, depois de longa análise, a gênese do conceito de identidade, conceito da razão, e o de diferença, conceito da intuição, sabemos que, dialeticamente, a identidade e a diferença nunca se excluem do existir; são apenas unüateralidades que tomamos da distinção por nós procedida dos fatos, graças à funcionalidade dos nossos esquemas.
Um exame de identidades físicas nos leva, através da análise, a reconhecer diferenças, e não obtemos nunca a cognoscibilidade intuitiva da identidade, como não atingimos nunca a cognoscibilidade racional da diferença.
Por isso, para sermos concretos, temos que pairar num conceito “identidade-diferença” (inseparáveis na concreção, mas separáveis na distinção), o que nos permite notar os graus, a gradatividade desse conceito, que nos favorece compreender a gama genética que vai do diferente, do semelhante, do igual ao mesmo, até os conceitos formais de diferente absoluto e de identidade absoluta, que são incaptáveis, intuitiva e racionalmente, no existir.
(Impõe-se aqui este parêntese: a identidade absoluta e o diferente absoluto, poderemos captá-los por meios dialécticos e não só formais, mas apenas quando examinemos devidamente a teoria das tensões, e alcancemos a transcendência).
Lipps em sua obra “Elementos de Lógica” expressa: “... nada impede definir a igualdade como uma identidade parcial, e a identidade como igualdade absoluta, não só qualitativa”. Essa “igualdade absoluta” é uma “démarche” da razão no seu processo de despojamento da heterogeneidade até alcançar a homogeneidade total, o que já vimos em nossos trabalhos anteriores.
Prossegue Lipps: “Podemos dizer que igual, em certo aspecto, é aquilo que seria idêntico se fosse também igual em outro aspecto. Igualdade, tomada a palavra em seu sentido mais geral, é indiferenciação, condicionada ou incondicionada. Esta última é identidade”.
Husserl, em suas “Investigações Lógicas” (Logische Untersuchungen) diz: “Se duas coisas são iguais quanto à forma, então o idêntico é a correspondente espécie de forma; se são iguais quanto à cor, então o idêntico é a espécie de cor, etc.
É claro que nem toda espécie está univocamente expressada na palavra, e haverá ocasiões em que faltem expressões adequadas que assinalem o aspecto, e talvez ainda seja difícil indicar o aspecto claramente. Mas este aspecto temo-lo sempre presente, e é ele o que determina nossa afirmação de igualdade.
Naturalmente acreditaríamos que inverte a verdadeira situação objetiva quem quisesse — embora fosse no terreno do sensível — definir essencialmente a identidade como caso limite da igualdade. A identidade é absolutamente indefinível. Não, assim, a igualdade. Esta é, pois, a relação dos objetos que pertencem a uma e à mesma espécie. Se não se permite falar de identidade da espécie, se não se permite falar do aspecto em que se verifica a igualdade, então cai por sua base o termo igualdade.
A identidade é formal, indefinível racionalmente, e incognoscível por intuição sensível ou intelectual, desde que permaneçamos no campo abstratista.
Nos trechos de Husserl, que citamos, verifica-se que a identidade só cabe no esquema abstrato, porque este, construído pela razão, já a encaixa, aí; portanto só aí a podaria encontrar, dedutivista como ela é. [Mário Ferreira dos Santos – Ontologia e Cosmologia]
No conhecimento, deve-se estabelecer uma distinção entre o aspecto de analogia e o de identidade, pois aí encontraremos a diferença fundamental entre o pensamento racional e a inspiração intelectual, no sentido próprio e exato deste adjetivo. O aspecto de analogia é o da descontinuidade entre o centro e a periferia: as coisas criadas, inclusive os pensamentos — portanto, tudo aquilo que constitui a manifestação cósmica —, estão separadas do Princípio; as realidades transcendentes apreendidas pelo pensamento estão separadas do sujeito pensante. Isto significa que o conhecimento racional ou mental é como um reflexo separado de sua fonte luminosa, reflexo este, no entanto, exposto a todos os tipos de perturbações subjetivas.
Por outro lado, o aspecto de identidade é o da continuidade entre o centro e a periferia; consequentemente, distingue-se do aspecto de analogia como a estrela se distingue dos círculos concêntricos. A manifestação divina à nossa volta e em nós mesmos prolonga e projeta o Princípio e com este se identifica precisamente sob o aspecto da qualidade divina imanente; o sol é realmente o Princípio percebido através dos véus existenciais; a água é, de fato, a Passividade universal percebida através desses mesmos véus. Quanto ao conhecimento, não basta que essa relação seja simplesmente pensada para conferir ao raciocínio um caráter de divindade, portanto, de verdade e de infalibilidade. É certo que, objetivamente, todo pensamento manifesta — sob o aspecto metafísico de identidade — o Pensador divino, se assim podemos nos expressar. Mas esta situação puramente objetiva e existencial, ontológica, se quisermos, é absolutamente geral e mantém-se fora das diferenças qualitativas, de forma que nada tem a ver com a realização subjetiva e cognitiva do aspecto de identidade. Dissemos que, no conhecimento racional ou mental, as realidades transcendentes apreendidas pelo pensamento estão separadas do sujeito pensante; ou, no conhecimento propriamente intelectual, ou feito pelo coração, as realidades do Princípio, que são apreendidas pelo coração, prolongam-se na intelecção; há unidade entre o conhecimento pelo coração e aquilo que ele conhece, sendo o conhecimento como um raio de luz ininterrupto. [Frithjof Schuon: O esoterismo como princípio e como via]
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