CARTER, Robert Edgar. The Kyoto school: an introduction. Albany (N.Y.): State university of New York press, 2013
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A análise de George B. Burch estabelece uma distinção tripartida da experiência humana: a experiência empírica, como ver uma casa; a experiência racional, como reconhecer a verdade do teorema de Pitágoras; e a experiência mística, como a realização da unidade de todas as coisas, que constitui o núcleo simples do misticismo, independentemente das suas variadas formulações tradicionais, como a união com Deus ou com o absoluto.
- A cegueira impede a experiência empírica, uma deficiência matemática impede a experiência racional, mas a incapacidade de experienciar a unidade fundamental de todas as coisas é a condição normal, tornando claro que a experiência mística está disponível apenas para aqueles que, de alguma forma, transcendem a experiência quotidiana normal, embora seja potencialmente aberta a todos, permanecendo a grande maioria inconsciente da sua própria possibilidade.
- Adotando a definição simples de Burch, a experiência mística é ver, isto é, experienciar realmente a unidade de todas as coisas, entendida como a consciência não dual da iluminação, onde todas as coisas separadas desaparecem como absorvidas no nada como uma unidade, sem se perderem, pois um regresso ao pensamento dualista exibe-as novamente como múltiplas, sendo simplesmente uma a partir da perspectiva não dual e muitas a partir da perspectiva dualista.
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Nishida declarou explicitamente que a sua filosofia não era mística, uma negação baseada na sua percepção de que os místicos permanecem num quadro dualista de compreensão, operando a partir de uma "lógica de objeto" que continua a separar Deus, ou o absoluto, do indivíduo, sendo a união uma união de dois entes separados, uma visão comum nas três principais tradições religiosas ocidentais, apesar de exceções como Mestre Eckhart, que descreveu a perda total do eu na fusão com Deus.
- A posição de Nishida é que a sua filosofia não é mística "na medida em que o verdadeiro indivíduo deve ser estabelecido a partir da negação existencial do próprio absoluto", significando que, na medida em que Deus Se esvazia ao criar-nos, a distinção entre Criador e criado desaparece: todos somos encarnações divinas da energia criativa original, uma visão a partir do "interior" onde se compreende que "tu és Deus, e Deus és tu".
- Esta compreensão filosófica não requer um "tipo especial de consciência", pois tudo o que é necessário é realizar o que sempre esteve sob os nossos pés, embora Nishida, nos seus trabalhos iniciais, tenha creditado a algumas formas de misticismo a capacidade de ver o misticismo a partir do interior, elogiando a religião da Índia antiga e o misticismo europeu dos séculos XV e XVI por procurarem Deus na intuição realizada na alma interior, considerando-o o conhecimento mais profundo de Deus, ilustrado pela imagem de Jakob Boehme do "olho invertido", uma perspectiva do interior onde a lógica do objeto já não é aplicável.
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D. T. Suzuki oferece um argumento semelhante ao afirmar que o Zen não é místico, pois o misticismo no Ocidente começa com a pressuposição de uma antítese entre Deus e o ser humano que termina com a "unificação ou identificação", enquanto no Zen "não há antítese, portanto não há síntese ou unificação", sendo a iluminação simplesmente o reconhecimento do que já é o caso desde sempre.
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Ueda Shizuteru lança a luz mais clara sobre esta questão, sugerindo que Nishida é e não é um místico, uma formulação que segue a lógica do soku hi (que algo é e não é, ao mesmo tempo).
- Tendo escrito a sua tese de doutoramento sobre Mestre Eckhart, Ueda traçou o misticismo de Eckhart até ao seu culminar, uma compreensão notavelmente similar à de Nishida, onde Eckhart ensinou que Deus e os humanos são da mesma essência, partilhando o mesmo "fundo", levando-o a exclamar que rogava a Deus "que O tornasse livre de Deus", pois "enquanto a alma tem Deus, conhece Deus e está consciente de Deus, ela está longe de Deus", sendo que, uma vez livrado do conceito ou imagem de Deus, resta o nada ou o vazio, cessando toda a imaginação e nomeação.
- A percepção de Ueda sobre o Zen, Nishida e o misticismo é que ambos incluem o místico, mas vão além do misticismo para o que Ueda designa por "não-misticismo" ou "des-misticismo".
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Bret Davis, concordando com Ueda, sugere que a passagem do misticismo para o des-misticismo consiste em quatro ingredientes:
- Uma transcendência extática do ego (um abandono do eu quotidiano);
- Uma união mística com Deus ou o Uno (ver a unidade de todas as coisas);
- Um rompimento extático para além de Deus ou do Uno num nada absoluto (o abandono do ego quotidiano é agora ecoado pelo abandono de Deus);
- Um regresso a um envolvimento extático/estático no aqui e agora (um regresso ao mundo "quotidiano", mas agora visto como se pela primeira vez, com um brilho e cor maravilhosos).
- Enquanto os ingredientes (1) e (2) caracterizam a maior parte do misticismo, os ingredientes (3) e (4) vão "para além" do misticismo, sendo o terceiro ingrediente característico do misticismo de Eckhart e do Zen, e o quarto ingrediente distintivamente Zen, incluindo o pensamento de Nishida.
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O primeiro ingrediente é uma negação do eu quotidiano; o terceiro é uma negação de Deus; e o quarto é uma negação do nada absoluto, assegurando que este não seja ele próprio reificado ou "coisificado", mas antes esvaziado, fazendo com que todo o universo reemerja como o real último: o nirvana é samsara, o samsara é nirvana, ou, como expressa o Sutra do Coração, o vazio é forma, e a forma é vazio.
- Nishida refere-se frequentemente à forma (as coisas criadas) do sem-forma (Deus, o nada), e ao sem-forma da forma, sendo o nada absoluto o esvaziamento da realidade do formado para o não formado, a "extensão aberta" sobre a qual Ueda escreve como o "lugar" onde nós e as coisas surgimos: o basho e o topos de Nishida.
- Aqui, o eu é agora um não-eu, e as coisas são não-coisas; estão vazias, "ocas" nas palavras de Ueda, mas, como ocas, são o que são, e são ao mesmo tempo o que não são, ardendo brilliantemente como coisas individuais e também como automanifestações do nada absoluto, sendo tudo o que é, tanto formado como sem forma, constituindo "eus sem forma" nas palavras de Hisamatsu.
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A filosofia uniu-se agora à poesia, pois viver com o êxtase do quarto ingrediente do des- ou não-misticismo é tornar cada momento uma eternidade fora do tempo, onde cada consciência se torna uma experiência pura.
- Um ente querido é agora compreendido mais plenamente, uma papoula no jardim arde com uma cor vermelho-alaranjada para além de toda a expectativa, e até ver as notícias na televisão provoca um suspiro de incredulidade perante a incapacidade de ver as maravilhas que estão a ser desperdiçadas.
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As Dez Pinturas do Pastor de Búfalos do Zen, frequentemente utilizadas por Ueda, ilustram esta jornada, onde o rapaz (o eu quotidiano) procura um eu mais profundo (o Búfalo), descobrindo na sétima imagem que não há Búfalo separado de si mesmo, desaparecendo ambos na oitava imagem num círculo vazio, para que, na nona imagem, o mundo reemerja com uma intensidade e brilho nunca antes experienciados.
- Neste ponto, está-se para além do misticismo, para além do dualismo, e há apenas... formas, sendo que, uma vez que o "tu" desapareceu, "tu" és elas, tornando-se a flor, o amante, a papoula e a rocha, os rios e as árvores, os pássaros e as cigarras, não só tendo visto a unidade de todas as coisas, mas sendo esta unidade, onde não há "tu e as outras coisas", há apenas as outras coisas, e elas são tu.
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Esta realização está para além do misticismo, mas é alcançada através dele, sendo o misticismo o caminho para o não-misticismo e para a experiência do mundo na sua profundidade magnífica e espantosa através das lentes da consciência iluminada.
- O legado da filosofia de Nishida é evidente nos que o seguiram, seja numa expansão ou numa crítica da sua posição, com conceitos como o "nada absoluto", "basho", "a identidade da autocontradição" ou "soku hi" a entrarem no pensamento daqueles que o sucederam, sendo o "nada absoluto" o central, dando origem a uma "escola" de pensamento que o tomou como foco, não num sentido negativo, mas positivo, como a origem e o fundamento de tudo o que existe, o pano de fundo invisível para todas as coisas visíveis, tendo sido a tentativa e a conquista de Nishida falar do inefável em termos filosóficos, um desafio que os seus sucessores enfrentaram das suas próprias maneiras únicas, mas foi Nishida quem primeiro formulou o problema e traçou um caminho para a sua possível solução.