Macário o Grande (falecido cerca de 390), organizador da vida monástica em Cétia e mestre de Evágrio, apadrinha uma obra volumosa da qual duas ou três páginas podem, no melhor dos casos, reivindicá-lo. O compilador da Philokalia tomou 150 capítulos sobre a perfeição no Espírito parafraseados por Simeão o Metafrasto. Trata-se de fato de uma antologia bastante fiel extraída das 50 Homílias espirituais que a crítica atribui há algum tempo a um autor messaliano ou messalianizante do início do século V, que parece ser Simeão da Mesopotâmia. Existe enfim um ciclo copta de Macário que Macário de Corinto não deixa de explorar, se este último o tivesse conhecido.
As três tradições têm aqui o seu lugar. Um apotegma, certamente autêntico, esboça a oração monológica. As Homílias espirituais, suspeitas para a ortodoxia, em razão de seu leitmotiv da coexistência, na alma, da Gratia e do pecado (Messalianismo), pertencem, em muitos aspectos, à tradição da oração do coração: preponderância da atenção e da prece, despojamento do espírito, consciência do sobrenatural (a famosa plerophoria — esse sentimento de plenitude e de certeza, que atravessa toda uma corrente da espiritualidade bizantina), e, sobretudo, talvez, lugar do coração e da experiência luminosa. O pseudo-Macário omite comparações para ilustrar a realidade do coração: o coração é um mundo, seguindo um tema eloquentemente desenvolvido por Orígenes em suas Homílias sobre Lucas, XXI (Cf. Fr. Bertrand, Mystique de Jesus chez Origène, Paris, 1951, pp. 103-104); um circo, uma parelha, uma paisagem enevoada onde se enxerga a dois passos, uma choupana enfumaçada, etc. Esta preocupação anuncia claramente a noção trans-fisiológica que a oração cristã do coração compartilha com métodos da mesma inspiração.
Finalmente, o ciclo copta (Amélineau, Annales du Musée Guimet, XXV, 1894) vem exaltar a oração de Jesus ligada à respiração, em termos surpreendentes. A coletânea das Virtudes de São Macário é nitidamente uma composição. Partilha certos elementos com as Homílias. Qual é a cronologia dos outros? Isto é bem inquietante responder. De qualquer maneira, o testemunho tem seu valor. Seguimos rigorosamente a tradução de Amélineau, sem dúvida literal mas com seguramente decepcionante. (da apresentação de Jean Gouillard)
Macário da Cétia e a monologia
Perguntou-se ao Pai Macário: Como se deve orar? O ancião respondeu: Não é necessário se perder em palavras; basta estender suas mão e dizer: "Senhor como te apraz e como sabes, tende piedade". Se o combate te pressionar diga: "Senhor socorro!" Ele sabe o que te convém, e terá piedade de ti. (P.G. 34, 249a.)
Pseudo-Macário
A alma se desvia das más divagações guardando o coração para impedir seus membros, os pensamentos, de divagar pelo mundo. (Homilias 4. P.G. 34, 473d.)
O ciclo copta
... ( Abade Macário ) disse: não façamos com que a fonte, borbulhando, lance dessa mistura única ( o receptáculo do coração ) o que é maculado; mas, que lance incessantemente, para o alto, o que é doce em qualquer tempo, isto é, Nosso Senhor Jesus Cristo ( Op. cit., p. 142 ).
O irmão interrogou-o ainda, dizendo: Qual é a obra mais agradável a Deus, no asceta e no absti-nente? Respondeu-lhe, dizendo: bem-aventurado aquele que for encontrado perseverante no nome bendito de Nosso Senhor Jesus Cristo, sem cessar, e de coração contrito. Porque sem dúvida não existe, em toda a vida prática, obra tão agradável quanto esse alimento bem-aventurado, se o ruminares sempre; se o ruminares como a ovelha, quando o faz vir para cima, e experimenta a doçura de ruminar, até que a coisa ruminada entre no interior de seu coração e nele derrame uma doçura e um óleo ( unção ) bom para o estômago e para todo o interior. Não vês a beleza da sua expressão cheia da doçura do que ela ruminou na boca? Oxalá consigamos que Nosso Senhor Jesus Cristo nos conceda graça, em seu nome doce e macio ( untuoso ) ( pp. 152-153 ).
Um irmão interrogou o abade Macário, dizendo: explica-me estas palavras "a meditação de meu coração está em tua presença". O ancião lhe disse: Não há outra meditação excelente, além do nome salutar e bendito de Nosso Senhor Jesus Cristo, habitando continuamente em ti, assim como está escrito: "Como uma andorinha eu gritarei e como uma rola meditarei". É assim que faz o homem piedoso, constante no nome salutar de Nosso Senhor Jesus Cristo ( p. 153 ).
O abade Macário, o Grande, disse: Prestemos atenção a esse nome, Nosso Senhor Jesus Cristo, com coração contrito; quando teus lábios estão ardentes e tu o atrais para ti, não o conduzas a teu espírito para fingir ", mas pensa em tua invocação: "Nosso Senhor Jesus Cristo, tem piedade de mim". No descanso verás sua divindade repousar em ti; o nome de Jesus expulsará as trevas das paixões que estão em ti, purificará o homem interior com a purificação de Adão quando estava no Paraíso; esse nome bendito que João Evangelista invocou, dizendo: "Luz do mundo", "doçura que não sacia" e "verdadeiro pão de vida" ( p. 160 ).
O abade Evágrio disse: atormentado pelos pensamentos e paixões do corpo, fui procurar o abade Macário, e disse: Meu pai, dize-me uma palavra da qual eu viva. Disse o abade Macário: Amarra à pedra a corda da âncora; e, pela graça de Deus, a barca atravessará as vagas diabólicas, as ondas deste mar enganador e o turbilhão das trevas deste mundo vão. Disse eu: O que é a barca, o que é a corda e o que é a pedra? O abade Macário respondeu: A barca é teu coração; vigia-o. A corda é teu espírito; prende-o a Nosso Senhor Jesus Cristo. Ele é a pedra que tem poder sobre todas as ondas e vagas diabólicas que combatem contra os santos, pois não é fácil dizer a cada respiração: "Nosso Senhor Jesus Cristo, tem piedade de mim; eu te bendigo, meu Senhor Jesus, socorre-me". Quando o peixe estiver lutando ainda contra a onda, será pegado sem o saber. E nós também, se formos perseverantes nesse nome salutar de Nosso Senhor Jesus Cristo, ele pegará o diabo pelas ventas, por causa do que nos fez; mas nós, os fracos, saberemos que o socorro é de Nosso Senhor Jesus Cristo ( p. 161 ) '.
O abade Macário disse: Visitei um doente que estava de cama; o ancião recitava, mais que qualquer outra coisa, o nome salutar e bendito de Nosso Senhor Jesus Cristo. Como eu o interrogasse sobre suas melhoras, disse-me com alegria: como persevero nesse ( em tomar esse ) doce alimento de vida, o nome de Nosso Senhor Jesus Cristo, encantaram-me com a doçura do sono; apareceu-me, numa visão, o Rei, o Cristo, como Nazareno, e disse três vezes: "Vê, vê que sou eu, e não outro senão eu". Depois, acordei sob ressaltado, em grande alegria, de modo que esqueci a dor ( p. 163 ).
O abade Macário, o Grande, disse: um monge que fica sentado em sua cela, precisa é concentrar em si a inteligência, longe de toda preocupação do mundo. Que ele não a deixe vacilar nas vaidades deste século, mas que tenha um único objetivo, isto é, colocar o pensamento só em Deus, persistindo nele em todos os momentos, sem solicitude; e que não deixe nada de terreno entrar tumultuosamente em seu coração... mas que esteja, tanto no espírito quanto em todos os seus sentidos, como se fosse na presença de Deus... ( p. 170 ).
O abade Macário, o Grande, disse: se te aproximares da oração, presta atenção em ti com firmeza, para não entregares teus vasos nas mãos dos inimigos; porque eles querem levar teus vasos, que são os pensamentos da alma. São vasos gloriosos, com os quais servirás a Deus, pois o que Deus quer de ti não é que lhe rendas glória apenas com os lábios, enquanto os pensamentos andam vacilantes e esparsos por todo o mundo; mas, que a alma e todos os seus pensamentos sejam coerentes e olhem o Senhor sem solicitude ( p. 180-181 ).
- APOFTEGMA
- PSEUDO-MACÁRIO
- Pseudo-Macaire (IVe siècle)