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Multiplicidade

MANIFESTAÇÃO — MULTIPLICIDADE


VIDE: unidade; as dez mil coisas; múltiplo; multiplicidade; unidade-multiplicidade

Segundo estudo do pensamento de Guénon, feito por Vivenza (Dictionnaire de René Guénon), a Multiplicidade caracteriza, por essência, o estado do mundo criado, o estado da Manifestação visível que, invariavelmente, tende para a diferenciação, a confusão e o "descentramento". Se se quer bem ver, que "a desordem está, como escreve René Guénon, em um sentido inerente a toda manifestação tomada em si mesma", compreende-se melhor este estado de Multiplicidade que atinge o conjunto do manifestado, pois "a Manifestação, fora de seu princípio, logo enquanto multiplicidade não unificada, não é senão uma série indefinida de rupturas de equilíbrios". A Multiplicidade define bem o que pertence propriamente à desordem do mundo visível, a seu desequilíbrio constitutivo. Todavia, esta desordem obedece a uma lei compensadora, "pois é destinada a compensar uma outra desordem", e isto na medida que, não esqueçamos jamais, "é a soma de todas as desordens, de todos os desequilíbrios, que constitui a ordem total". É somente considerando cada coisa no seio da Unidade primeira que é então possível aceder à verdadeira realidade, pois "a multiplicidade, fora do Princípio único, não tem senão uma existência ilusória". A superação da Multiplicidade se efetua pela percepção da Unidade original, aí onde tudo é conduzido ao Centro no qual não subsiste nenhuma oposição, aí onde «se unem indivisivelmente os dois pontos de vista complementários da "Unidade na multiplicidade e da multiplicidade na Unidade" (v. Unidade-Multiplicidade), ao Ponto central de toda manifestação, que é o "lugar divino" ou a "estação divina". Notemos que, metafisicamente, o Não-Ser não comporta nem Multiplicidade nem unidade, "pois o Não-Ser é o zero matemático». A este nível todos estas noções perdem sua pertinência, não há mais nada que seja forma ou não-forma, aí está o domínio da pura vacuidade, anterior à Unidade mesma, e que a doutrina hindu denomina "Não-Dualidade" (adwaita).


Se o Um e Único é a Origem de tudo, duas questões podem aparecer: como surge esta aparente multiplicidade e por que não vemos as coisas desta maneira?

Para Ibn Arabi a multiplicidade é inerente à Origem, da mesma forma que os números são inerentes na unidade “um”. Esta multiplicidade é o que ele chama de Nomes Divinos (aqui empregando uma terminologia alcorânica), que retratam os relacionamentos atinentes ao Próprio Ser. Podem ser classificados tanto como “transcendentes”, denotando a maneira pela qual o Ser Absoluto está além do relativo em virtude da interioridade e prioridade lógica, ou “imanente”, denotando a maneira pela qual o Ser está ligado ao relativo. Podem ser apenas conhecidos ou reconhecidos porque seus efeitos são manifestados: por exemplo, descrevê-Lo como Absoluto O isenta de todos os possíveis limites e condições, mas estes mesmos limites e condições já devem existir de alguma forma para que nós possamos transcendê-Lo deles. Da mesma forma, descrevê-Lo como Senhor exige a existência daquilo sobre o qual Ele é Senhor, e chamá-Lo de Deus requer a existência daquilo sobre o que a divindade pode ser exercida. Estas duas categorias de Nomes requerem a existência de um “lugar” por meio do qual elas são manifestas e conhecidas. O lugar é o mundo, um palco sobre o qual os vários Nomes podem representar seus papéis, direta ou indiretamente, amando o drama Divino. Portanto Ibn Arabi vê o mundo somente sob a mais positiva luz, como o lugar das manifestações das infindáveis possibilidades do Ser de Deus.

Os Nomes são relações nominais do Ser com Ele Próprio e não dividem a realidade essencial. Deve-se salientar aqui que o que Ibn Arabi chama de Deus (Allah) é o Nome que conecta todos os outros Nomes, a “totalidade dos Nomes que são contrários entre si”. É como uma ligação entre todas as possíveis relações do Ser e a Própria Realidade essencial. Por analogia, um ser humano pode ser chamado de João e mesmo assim podemos descrevê-lo como um ser compassivo, conhecedor, capaz e assim por diante. Cada um desses adjetivos é diferente, mas eles não mudam a realidade essencial de João ou o tornam diferente ou múltiplo; simplesmente o mostram de diferentes pontos de vista, delineando suas qualidades e tornando-o conhecido. O tempo todo seu nome certo e primordial é João. Todos os nomes referem-se ao Um nomeado: dentro d’Ele são indiferenciados, enquanto por meio da manifestação parecem diferenciados.

Como, então, não vemos o mundo ou nós mesmos desta maneira? Ibn Arabi explica que nos acostumamos tanto com as ilusões da pluralidade que as consideramos reais. Em face da Unicidade a multiplicidade ilusória desaparece. Ele, frequentemente, usa uma analogia matemática para descrever como o Um é revelado e entendido pelo ser humano:

Quando a Unidade (wahdaniyya) é revelada, aquele que a testemunha não vê outro que ele próprio, tanto na estação de sua própria unidade ou na de qualquer outro. Se estiver na estação de sua própria unidade, será o mesmo que multiplicar um por um e o resultado será sempre um, usando termos numéricos como uma analogia e uma aproximação. Então multiplique um por um e terá um. Se não estiver na estação da unidade, então é o mesmo que multiplicar um por dois e ter dois como resultado e assim por diante, com todos os números. [Stephen Hirtenstein, O compassivo ilimitado: a vida e o pensamento espiritual de Ibn Arabi]


How does manyness arise from Oneness? Being is Oneness, while nothingness as such does not exist in any respect. But we already know about Being that It is Light, so It radiates and gives of Itself. Hence we have three “things”: Light, radiance, and darkness; or Being, existence, nonexistence. The second category— radiance or existence—is our particular concern, since it defines our “location” for all practical purposes. Its most obvious characteristic is its ambiguous situation, half-way between Being and nonexistence, Light and darkness, He and Not He. Ibn Arabi sometimes calls it existence, and sometimes nonexistence, since each attribute applies to it. “Nonexistence” can thus be seen to be of two basic kinds: Absolute nonexistence (al-adam al-mutlaq), which is nothingness pure and simple, and relative nonexistence (al-adam al-idafi), which is the state of the things considered as Not He.

Our classification of the kinds of reality has gradually become more complex. We began with Being and existence, then looked at Being and nonexistence, then at Being, existence, and nonexistence, and now we turn to a fourth picture of the basic structure of reality: Being, relative nonexistence, and absolute nonexistence, the last of which we can call “nothingness.” Only Being truly is, while nothingness has no existence except of a purely speculative and mental kind. So “everything other than God” — the cosmos — is relative nonexistence. But anything which is relatively nonexistence is also relatively existent.

Plurality and manyness arise from the very nature of existence (we could also say, from the very nature of nonexistence, but then the discussion would take a different turn; that perspective will come up in due time). It is plain to everyone that “brightness” is not all of a single intensity. Some brightness is stronger, some weaker; some is closer to light, some farther away. We can also say that some existents are more intense than others, but here the point is not so obvious. To make the point clear, it is best to talk not about Being itself but about the attributes of Being, i.e., those qualities that are denoted by the divine names, and examine how they are reflected in existence. [William Chittick, Caminho Conhecimento]



PÁGINAS:
Frithjof Schuon: Schuon Multiplicidade Véus


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