VIDE: ORFEU; Orfeu Cristo; Evangelho de João X
EVANGELHO DE JESUS: Jo 10:1-21
- A alegorização na primeira seção (vv. 1-21) de João X
- A comparação da “porta” se transforma em metáfora estendida com as figuras do “pastor” e do “porteiro”: “Aquele que entra pela porta é ‘pastor’ (sem artigo definido) das ovelhas. A esse o ‘porteiro’ abre-a e as ovelhas escutam a sua voz. E ele chama as suas ovelhas uma a uma pelos seus nomes e fá-las sair” (vv. 2-3).
- A entrada sub-reptícia do ‘pastor’ e do ‘porteiro’ na comparação metafórica da ‘porta’ abre os horizontes do que será explanado na alegorização de Jesus-porta e de Jesus-pastor nos vv. 7-18.
- O “porteiro” só pode significar o “Pai” que abre a porta ao Filho.
- A nova identificação das ovelhas de Israel por meio de Jesus: “Se alguém entrar por mim estará salvo... conheço as minhas ovelhas e as minhas ovelhas conhecem-me, assim como o Pai me conhece e eu conheço o Pai; e ofereço a minha vida pelas ovelhas” (vv. 9-15).
- Todos os que não têm a ver com Jesus são “mercenários” e “ladrões” porque não entram por sua porta nem ouvem suas palavras (pastagens).
- A razão dos desentendimentos entre os judeus: “Estas palavras tornaram a provocar desentendimentos entre os judeus” (v. 19).
- As opiniões divergentes dos judeus: uns diziam: “tem demônio e está louco”, enquanto outros observavam: “Estas palavras não são dum possesso. Como é que um demônio pode dar vista aos cegos?” (vv. 20-21).
- A última observação serve de ponte entre o capítulo 9 e o capítulo 10.
- A historicidade das polêmicas
- As críticas dos judeus sobre Jesus como “demônio-louco” remetem ao tempo das comunidades joânicas posteriores.
- Os sinóticos já apresentam o Jesus histórico, por ser taumaturgo, possuído por Belzebu (Lc 11, 15 e par.).
- As polêmicas entre os judeus e Jesus não nascem nas comunidades posteriores, mas no tempo histórico de Jesus, embora o quarto evangelho as apresente mais desenvolvidas por causa da relação de Jesus-Filho com Deus-Pai.
- A incompreensibilidade no tempo do Jesus histórico de certas críticas anti-judaicas (mas não anti-semitas), que referenciam os judeus como “mercenários” e “ladrões”.
- A crítica literária e a questão da fonte
- O parecer de muitos autores de que, originalmente, haveria uma camada literária com uma “comparação” pura e simples da “porta”, seguida pela alegorização de Jesus-porta e Jesus-pastor.
- A subjetividade de usar o exemplo dos sinóticos para defender essa causa, já que o mundo semiótico de João é diferente do dos sinóticos.
- A questão da fonte continua aberta, seja no que concerne aos sinais-milagres, seja nesta comparação-metáfora (parábola).
Roberto Pla: Evangelho de Tomé - Logion 25
Pelo evangelho de João sabemos como reivindica Jesus sua dignidade exclusiva de ser o Bom Pastor, e como explica que todos os que chegam adiante dele, os que intentam escalar o redil sem entrar pela estreita porta verdadeira — que é ele mesmo — são ladrões e salteadores. Estes são os dois nomes que metaforicamente se dá às vezes no evangelho a ruah e a nefes, os dois terços inferiores da alma que sempre são “assalariados”, quer dizer, regidos por uma ação interessada, inadequada para conduzir vitoriosamente ao redil da vida eterna suas ovelhas ou conteúdos psíquicos.
É importante recordar que esta condição de ladrões ou salteadores a aplicam em muitas ocasiões os textos neotestamentários e às vezes com representações surpreendentes, como quando dizem: “O Dia do Senhor há de vir como um ladrão”. (1Tess 5:2; 2Pet 3:10; Apocalipse 3:3)
Jesus emprega expressões similares a respeito de si mesmo: Mc 14:48; Lc 22:52; Lc 22:37; Isa 53:12
No transcurso joanico no qual Jesus declara ser o bom pastor das ovelhas, das quais diz que o conhecem porque são de seu redil — ou igreja comum do reino pneumático — explica que tem outras ovelhas às quais também há de conduzir ao seu redil, pois escutaram a sua voz — sua Palavra —, diz, e "haverá um só rebanho, um só pastor" (Jo 10,16).
- Fiéis a uma interpretação manifesta e muito "do mundo", chegaram a explicar alguns teólogos antigos que as ovelhas que Jesus queria reconduzir tinham perigo de acabar em um "redil judeu". No entanto, não há dúvida de que na cidade celestial das ovelhas, descrita como o Reino da Unidade, não há lugar para "nações" e "reinos" humanos.
As ovelhas desse rebanho de origem forasteira são, sem dúvida, as que vêm do reino psíquico, posto que não há outras ovelhas, nem outros reinos. Jesus, enquanto bom pastor e porta única por onde hão de entrar todas as ovelhas, confia em resgatá-las para si, mediante a entrega da Vida que dá voluntariamente e que recupera em cada nova "união" conseguida. Mas estas ovelhas novas que vêm de outro redil, quer dizer, do mundo, porque estas são do mundo, chegam ao Filho do Homem após grandes anseios de alimento espiritual, de sangue e de fé, que recebem quando é derramado generosamente nelas pelo Cordeiro de Deus "para remissão dos pecados" (Mt 26,28).
Michel Henry: EU SOU A VERDADE — CRISTO — PASTOR
Tal é o sentido da parábola (Pastor e Ovelhas segundo a qual o Cristo é a porta do cercado onde passam as ovelhas. O Cristo não é então o mediador entre o homem e Deus. O Cristo é então o mediador entre cada eu e ele mesmo, este reporte a si que permite a cada eu ser um eu. Este reporte que não é um reporte abstrato, redutível a uma conceitualização formal. Ele tem, como dissemos, uma concretude fenomenológica, uma carne. Se o reporte a si onde se edifica todo eu concebível é a Ipseidade original do Arque-Filho que junta cada eu a ele mesmo, um tal reporte se acha ser ao mesmo tempo a erva onde pastam as ovelhas, a erva que as nutre e garante seu crescimento. Pois todo eu que se reporta a si cresce dele mesmo, se engorda de seu próprio conteúdo. Este crescimento de si em todo eu possível, este auto-afeto que toca em si em todo ponto de seu ser, eis aí sua carne, sua carne fenomenológica, sua carne vivente. Em minha carne vivente me dei a mim mesmo e assim sou um eu, sou eu mesmo. Mas não é eu que me sou dado a mim mesmo, não é eu que me junto a mim mesmo. Não sou a porta, a porta que abre a mim. Não sou a erva, a erva da qual cresce minha carne. Na minha carne, sou dado a mim mesmo mas não sou minha própria carne. Minha carne, minha carne vivente é aquela do Cristo. Assim fala Aquele do qual João reporta a palavra: «Sou eu que sou a porta: aquele que entrará por mim ... irá e virá e encontrará pasto... » (Jo 10,9).
Ora a porta do cercado que, ao dizer da estranha parábola (Pastor e Ovelhas), dá acesso ao lugar onde pastam as ovelhas, fundando acima da Ipseidade transcendental na qual cada eu, se reportando a si e se acrescendo de si, retira a possibilidade de ser um eu, esta porta, lemos, dá acesso ao conjunto dos eus transcendentais viventes — não a um só dentre eles, àquele que eu sou eu mesmo. O Cristo não se mantém só em mim como a força que, me oprimindo contra mim, faz sem cessar de mim um eu. Cada eu não advém a ele mesmo senão desta maneira, no poder formidável deste constringir no qual ele se auto-afeta de maneira contínua. Eis porque a porta abre sobre todos os viventes. Dá acesso a cada um dentre eles, disto só é possível através do Cristo. E é preciso compreender o que uma tal proposição significa com todo o rigor. Se o acesso a todo eu concebível pressupõe sua vinda nele mesmo à favor de uma Ipseidade prévia que não procede dele mas da qual ele procede, então com efeito aceder a este eu quer dizer tomar emprestado a via desta vinda prévia nele nele da qual ele resulta — atravessar a porta, atravessar a parede incandescente desta Ipseidade original na qual queima o fogo da Vida. Impossível chegar até cada um, alcançá-lo, exceto através do Cristo. Através da Ipseidade original que o reporta a ele mesmo, fazendo dele um Si — este alguém, este “eu” que ele é. Impossível tocar uma carne exceto através de uma Carne original, a qual em sua Ipseidade essencial dá a esta carne de se sentir a si mesma, de se experienciar a si mesma, lhe concede ser uma carne. Impossível tocar esta carne sem tocar a outra carne que fez dela uma carne. Impossível de atingir alguém sem atingir o Cristo. E é o Cristo que o diz: «O que fazes ao mais pequenino dentre vossos irmãos, é a mim que o fazes» (Mt 25,35).
Bruno Barnhart
Ao ler o discurso de Jesus sobre o pastor, o aprisco e sua porta, percebeu-se saltos estranhos no pensamento e afirmações conflitantes. “Eu sou a porta das ovelhas.” “Eu sou o bom pastor.” Estes predicados conflitantes da afirmação básica “Eu Sou” nos impulsionam para além do nível do êxodo para uma interpretação unitiva. Como antes, este nível unitivo de significado se expressa nas imagens dos relatos da criação do Gênesis. “...as ovelhas ouvem a sua voz. Ele chama as suas ovelhas pelo nome e as conduz para fora” (10:3). “...e tudo o que o homem Adão chamou a cada criatura vivente, esse foi o seu nome” (Gên 2:19). Jesus é o novo Adão que vem para chamar cada pessoa pelo nome, e como se verá na própria história de Lázaro, este nomear é um dom de nova vida (ver 10:27-28).
Este nível de interpretação foi desenvolvido ainda mais na disputa entre Jesus e os judeus na festa da Dedicação do templo (10:22-39). O significado joanino do próprio templo é desenvolvido ao mesmo tempo. A esta dedicação histórica ou reconsecração do templo após sua profanação pelos Gentios (ver 1 Mac 1:54; 2 Mac 6:1-5; 1 Mac 4:41-61) corresponde a consagração do novo templo do corpo de Jesus que ele realizará através de sua morte pascal. Embora Jesus já seja “consagrado” por sua origem do Pai (10:36), ele havia falado no final da ceia de uma nova autoconsagração para que “eles também sejam santificados consagrados na verdade” (17:19).
Neste ponto, se encontra outro salto surpreendente. Jesus falou das pessoas como ovelhas, e de si mesmo como entrando no aprisco através de sua porta baixa. Agora ele começa a falar dos humanos como deuses. “Se aqueles a quem a palavra de Deus veio foram chamados ‘deuses’ — e a escritura não pode ser anulada...” (10:36). Jesus, o novo Adão, é ao mesmo tempo pastor e Verbo, “Nome” de Deus, que é enviado a homens e mulheres, para chamá-los pelo nome — por seus verdadeiros nomes no Verbo criador, que são nomes divinos, geradores de ser divino. Aqueles que ouvem o Verbo de Deus são reunidos nele e se tornam “deuses”. Aqueles que recebem o Filho de Deus são reunidos nele e se tornam filhos de Deus (1:12). A compulsão violenta que leva os ouvintes de Jesus a pegar pedras para matá-lo (10:31) vem de além deles mesmos, de alguém que só mataria e destruiria (ver 8:40.44); o que eles correm para destruir é a vida divino-humana que é o seu próprio destino.
”Eu tenho outras ovelhas... haverá um só rebanho, um só pastor” (10:16). “O Pai e eu somos um” (10:30). O aprisco para o qual Jesus conduz aqueles que ouvem a sua voz, que o ouvem pronunciar os seus novos nomes — quer tenham sido judeus ou gentios — é, em última análise, este Um, este Eu Sou, que é o seu próprio ser.
O contraste — às vezes explícito e sempre presente como uma corrente dramática — entre Jesus, o verdadeiro pastor de Israel, e os falsos ou infiéis pastores que são os principais sacerdotes, fariseus e outros governantes do povo, continuou a se desdobrar. Já se viu que há uma forte base bíblica para esta imagem (ver p. 153 acima). Moisés, que literalmente pastoreava ovelhas antes de seu chamado para liderar o povo, foi visto como o pastor de Israel: este é o nível do êxodo de referência simbólica. À luz de Gênesis 2:18-20, o próprio Adão pode ser considerado o primeiro pastor na narrativa bíblica. O papel de pastor começa a aparecer como quase uma dimensão integral da vida humana. Isso torna as palavras de Jesus ainda mais chocantes:
Todos os que vieram antes de mim são ladrões e salteadores... o ladrão vem apenas para matar e destruir; eu vim para que tenham vida, e a tenham em abundância (10:8-10).
Quem são estes “ladrões e salteadores” que precederam Jesus? À medida que se responde a esta pergunta em níveis sucessivos de profundidade, o escopo da resposta se ampliará para corresponder à radicalidade das palavras de Jesus. Elas não se referem apenas àqueles líderes do povo que foram manifestamente corruptos. No tempo do êxodo, Moisés e os israelitas extorquiram do povo egípcio suas coisas preciosas: “E assim eles saquearam os egípcios” (Ex 12:36) “...apenas para roubar, matar e destruir” (10:10): estas palavras podem ser aplicadas à violência infligida aos egípcios por Moisés e os israelitas em seu êxodo, e se tornam o pano de fundo contra o qual a qualidade distintiva de dar vida do novo êxodo emergirá, neste quinto dia.
O termo de Jesus “ladrões e salteadores” se aplica mais diretamente aos líderes religiosos judeus de sua época. A expressão também pode estar conectada com o templo, e, portanto, com a limpeza simbólica de Jesus do templo no início do quinto dia. Suas palavras, “Não fareis da casa de meu Pai uma casa de comércio” (2:16; ver Mt 21:13; Mc 11:17), e sua expulsão dos cambistas e outros comerciantes, refletiriam também sobre o “negócio” mais sutil dos principais sacerdotes, escribas e fariseus, que de uma forma ou de outra lucravam com sua posição de pastores, à custa do povo comum e em detrimento da verdadeira religião.
Talvez roubar e matar cheguem em última análise à mesma coisa. No ataque profético de Jesus aos líderes do povo judeu, matar pode significar a destruição da fé das pessoas, de sua vida espiritual, de seu relacionamento com Deus. O pior crime dos maus pastores, os mediadores perversos, é transformar seu próprio papel de mediação em uma porta fechada, uma parede impenetrável — ou um caminho que não leva a lugar nenhum.
Estas palavras duras de Jesus também podem ser aplicadas, em um sentido, a todo professor, exceto Jesus. Todo professor religioso carismático, mesmo apesar de si mesmo, “rouba” ao atrair o discípulo para si mesmo em algum grau: ou seja, tanto para longe de Deus quanto para longe do próprio discípulo e de seu próprio relacionamento imediato com Deus. Isso leva mais adiante: somente Jesus pode conferir a vida da qual ele fala, e isso no centro da pessoa: uma água viva que é o oposto de toda alienação. E assim João, que batiza externamente com água, cede lugar àquele que deve batizar com o Espírito Santo (ver 1:33).
”O que veio a ser nele era vida, e a vida era a luz de todas as pessoas” (1:4). Somente o professor que é ele mesmo luz e vida pode entrar em uma pessoa como luz e regenerá-la a partir de seu próprio centro, como vida. Jesus é essa luz de vida desde o início, e entra na porta de novo à medida que se aceita sua morte e ressurreição através da fé.