Filosofia Lusófona
O "ser" de um ente (o fato de o ente ser indefinidamente, portanto diversamente determinável, ou reidentificável) só pode ser o seu... ser — ainda que seja o ser daquele ente determinado —, só pode ser o seu ser enquanto ser, ou o seu ser em si, pois o Ser não pode "ser" outra coisa, senão "O Que É". Por exemplo, o ser de um ente não pode estar "na" identificação daquele ente (a outro ente?!), ou "na" arena subjacente do espaço ou do tempo, porque não pode "ser outra coisa", "mudar", "ter duração" ou "movimento" e, menos ainda, "subjazer" ao que quer que não "seja", que não tenha ser, que esteja fora do Ser — ou, na minha terminologia "protestante", ou "reformada", subjazer ao que "exista". Longe de poder ser um tipo (o que quer que se repita ou esteja presente em mais de um ente) ou um composto hylemórfico, etc., o ser de um ente, ou um ser determinado, não é o que quer que seja, que nele for determinado ou identificado: o que é determinável ou identificável é o ente, não o ser do ente! (Por favor, fique o leitor — e conforme-se! — com essa explicação en passant do que viria a ser um "tipo", pois é, dentre outras coisas, da incapacidade de a Ciência resolver o "problema (em aberto!) do significado da distinção token/type" que decidi fazer essa reforma da Ontologia. ("Murmúrios na Catedral!" Uso o título de um review de Dennett sobre A Mente Nova do Rei [The Emperor's New Mind, de Roger Penrose] para me dar conta do que neste momento deve estar pensando, derrisoriamente, um "filósofo analítico", ou seja, "e Quine?!!!"; "e Wittgenstein?!!!", etc.)
Proponho que o ser de um ente seja uma interface — justamente a interface entre Ser e Não-Ser que faz de um ente, por um lado, um ser determinado, reidentificável, e, por outro lado, um indivíduo, único, irrepetível (não "identificável" a outro), independente de espaço ou tempo, e incomparável (não meramente "diferente"). Ora, aquilo que está "deste último lado", o lado do indivíduo, é "absoluto", não "subjaz", não "dura", não "permanece idêntico a si mesmo" [sic], "ao longo do tempo e do espaço" e, sobretudo, não se "identifica" (não "existe").
Marcia Sá Cavalcante Schuback: Excertos de "PARA LER OS MEDIEVAIS"
Ouvimos sempre falar que os medievais concebiam as coisas como um microcosmo. Mas o que é esse "microcosmo", esse mundo em miniatura? De que modo as coisas, mesmo as mais inanimadas como a pedra, possuem chispa de alma e vida? Uma-pedra-aí é, para o medieval, testemunho de toda a história da criação. Ser um microcosmo, ter chispa de alma é, em primeira instância, ser testemunho e sinal do ser-uno de deus. A questão aqui não é de uma cópia do mundo em formato menor, mas a de ser sinal. Ao se dizer, portanto, que o sentido medieval de ser é ser num pertencimento dinâmico, indica-se que o ser das coisas nunca se restringe a seus formatos, às suas características meramente extensivas. O ser das coisas ultrapassa, ao contrário, radicalmente todo formato, sendo coisa-sinal, coisa-palavra, coisa-indicação. É o que nos permite compreender a importância da doutrina das categorias na Idade Média. Por doutrina das categorias, a Idade Média entende a possibilidade de se redefinir as coisas como coisas-palavras, onde as coisas são a sua apreensão. A doutrina das categorias não busca, de modo algum, apreender as coisas "em si" mas, bem ao contrário, as coisas na possibilidade de sua apreensão. Uma ideia inadmissível para a Idade Média é a de uma coisa dotada de realidade independente da apreensão. A unidade própria de cada coisa já é a coisa em sua apreensão, sendo, desse modo, coisa-sinal. Isso nos permite, igualmente, aprofundar o uso do verbo participar, na passagem supracitada de Mestre Eckhart. Participar significa doar, conferir mas também comunicar. Esse duplo sentido não é mera ambiguidade de uma determinação imprecisa, mas a maior precisão de que o ser-parte das coisas significa, primordialmente, ser-sinal do ser-uno de deus. O pertencimento entre deus e as partes não se deixa, pois, apreender como simples somatório de corpos num espaço, como mero agregado. O pertencimento é, como dissemos, fundamentalmente dinâmico. O que especifica propriamente esse dinamismo não é, porém, um deslocamento dessas partes que se somam ou agregam num espaço determinado. O que caracteriza esse pertencimento dinâmico entre as partes e o todo é a constituição própria da parte como testemunho, sinal, indício. Ou, numa expressão mais formal, o que caracteriza esse pertencimento dinâmico é uma estrutura de sentido. O ser das coisas é apreensão de sentido divino. As coisas e seus lugares são, nesse horizonte de experiência, lugares de apreensão de sentido, sendo sempre a totalidade de todos os lugares apreendida em cada lugar.