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Sutra do Diamante

Wei Wu Wei – Nota sobre o Sutra do Diamante


WEI WU WEI. Ask the Awakened: the negative way. 1st Sentient Publications ed ed. Boulder, CO: Sentient, 2002

Gostaria de lembrar a qualquer um que leia das palavras de Hui Neng, o Sexto Patriarca, no próprio Tan Ching ou Sutra da Plataforma. Tendo anunciado sua morte iminente, seus discípulos ficaram comovidos até as lágrimas, com exceção de Shen Hui (aqui chamado de Shin Wui em chinês do sul, como Hui Neng é chamado de Wei Lang):

“O Jovem Mestre Shin Wui (então com 45 anos) é o único aqui que atingiu o estado de espírito que não vê diferença entre o bem e o mal, não conhece nem tristeza nem felicidade, e não se move por louvor ou culpa.”

Após este pronunciamento significativo, ele castiga os outros pela ignorância traída por seu sentimento, provando que eles não tinham compreendido. Shen Hui foi, assim, revelado como o sucessor e guardião da doutrina pura. (Wei Lang, p. 114.)

Shen Hui, um sábio iluminado, a quem o Dr. Suzuki chama de “o discípulo mais eloquente de Hui Neng” (No-Mind, p. 29), justifica estas nossas expectativas dele, e é um do seleto grupo que pode realmente nos ajudar e em quem podemos confiar. Aqui temos um exemplo.

Em resposta a uma pergunta a respeito do gatha no Sutra do Diamante cuja eficácia é exaltada com tal hipérbole, ele concorda que o gatha em questão aqui é aquele que contém as palavras 1 :

“Ausência dos fenômenos do eu, outro, entes e era.”2 Mas ele aponta que é apenas porque existem estes fenômenos que se fala de sua ausência. O sentido, ele diz, não é aquele dado a estas linhas pelos mestres (maîtres de la loi), pois é a ausência em si desta ausência de fenômenos que é o significado real do “gatha de quatro linhas,” e que o torna de tal valor inestimável como um meio para a iluminação.3

Isto agora deve ser óbvio. Shen Hui restaura ou representa estas linhas como a fórmula essencial dos Budas: (a) os fenômenos existem como tal; (b) por essa razão eles (também) não são (são “ausentes”)—wu—que é a doutrina Prajnaparamita aplicável a todos os fenômenos; (c) portanto eles são. Mas aqui ele de fato nos diz o que é esta fase final—e é um negativo, a ausência (wu) da ausência de fenômenos (a “própria ausência” que é em si mesma uma presença).4

Podemos agora ver que a fórmula dos Budas é realmente a resolução de todas as chamadas dualidades—que é a negação mútua de ambos os elementos, ou seja, o vazio ou a vacuidade.

Doravante podemos dizer que a forma das palavras em que a terceira fase da fórmula dos Budas é traduzida já não importa muito 5 —pois o que ela implica agora é luminosamente claro. É o epítome da própria doutrina de Prajnaparamita. Tudo o que resta é realizar a resplandecente negatividade da própria vacuidade.6 (Ver Entretiens du Maître de Dhyana Chen-houei du Ho-tsö, Hanói 1949, p. 47. Jacques Gernet. Publications de l’Ecole Française d’Extrême Orient.)

Nota Geral: Pode-se lembrar que na Seção 5, p. 28, Conze, a tradução de uma das declarações dos Budas de sua fórmula duplica o negativo: “O que foi ensinado pelo Tathagata como a posse de marcas, isso é verdadeiramente uma não-posse de não-marcas.” Já que a fórmula dos Budas é aplicada a cada categoria imaginável de dharma podemos re-expressar este exemplo da seguinte forma: “O que foi ensinado como a presença de fenômenos é verdadeiramente a ausência de não-fenômenos.” Essa é precisamente a fórmula, citada acima, declarada por Shen Hui como sendo o verdadeiro sentido. Não é possível para mim saber como ela vem a aparecer aqui apenas, e somente do Dr. Conze mesmo aqui, mas ele é um erudito exato demais para ter cometido um erro desse tipo ao inseri-la. Pode-se inclinar a se perguntar se em textos falhos a verdadeira tradução pode não ter sido preservada por acidente neste caso. Copistas que pensam que entendem um texto cujo significado real está bem além de sua compreensão são capazes de tal enormidade.^

A “posse” de marcas deve ser entendida como significando tal “realidade” ou veracidade que possa haver na ideia da posse de marcas. Assim, poderia ser dito que: “O que foi ensinado pelo Tathagata como (a presença de) Samsara (o que Samsara é ou pode ser dito ser) é verdadeiramente a ausência de não-Samsara.” A Verdade é nem Samsara nem não-Samsara. Isso não depende meramente do aspecto negativo de Samsara, mas da negação mútua de ambos Samsara e seu oposto como conceitos. A palavra traduzida “posse” (sampad) também significa “excelência” e “realizações,” ou seja, o que “eles se tornam,” indicando assim o que as “marcas” realmente representam. (Ver Conze, p. 28.)

Isso é tão importante que pode valer a pena uma exegese mais aprofundada. “A ausência de não-fenômenos” aqui não implica a presença do contraparte negativo de “fenômenos,” isto é, “uma metade de um par” e o “vazio de aniquilamento” de Han Shan; é não apenas não-Samsara. É a Não-Manifestação da qual a manifestação surge, a “Vacuidade de Prajna,” o “Vazio do Absoluto,” como Han Shan o chama, ou Potencial puro (ta chi). Este é precisamente o ponto que Han Shan faz, e que ele declara que o Buda buscou nos fazer entender. (Ver Han Shans Commentary on the Diamond Sutra, tr. por Charles Luk em Chan and Zen Teaching, 1st Series.) O contrário é o erro dos “Maîtres de la Loi” dos quais Shen Hui fala, e que ele evita usando a dupla ausência ou negativo, que concorda com a fórmula dos Mestres— “nem é nem não é”—a Verdade sendo expressível apenas indicando a ausência de ambos os contrapartes fenomenais—fenômenos e não-fenômenos.

Deve-se perceber que este é não um ponto técnico menor da doutrina, mas a própria ausência de doutrina que revela o caminho direto.

Análise


Tomemos o caso mais simples—“sim-patia” e “anti-patia,” que são interpretações contraditórias de “pathein” (sentir). A ausência de ambas as interpretações, ou seja, nem sentir-com nem sentir-contra, deixa com a percepção pura não interpretada. “Sofrimento e prazer (anti-sofrimento)” são idênticos ao acima, assim como “amor e ódio.” Nenhuma destas interpretações nem são nem não são, existem ou não existem de fato, pois sua veracidade reside apenas na percepção não interpretada, ou seja, elas não são como interpretações, mas não são basicamente inexistentes por causa da percepção (Funcionamento aparente do Absoluto) subjacente à interpretação, que ela mesma, não interpretada, é não na dimensão serial do tempo.

Todo fenômeno, coisa, conceito, objeto, nem é nem não é. Como uma interpretação é não, mas é não inexistente (sua ausência conota uma presença) como aquilo que é não (como sua ausência), pois isso, não interpretado, é pura percepção (Funcionamento), não por parte de um sujeito no tempo, mas intemporalmente.

Na dimensão de tempo serial da experiência fenomenal muitos opostos e complementares aparentes podem encontrar composição. Por exemplo, agudo-e-grave, quente-e-frio, longo-e-curto têm um termo intermediário, que é nem um nem outro. Sofrimento-e-prazer também podem ter um termo intermediário que é nem um nem outro, e que pode ser chamado de não-sofrimento e não-prazer (eles são o “vazio de aniquilamento” de Han Shan). Mas estes são inteiramente conceituais e objetivos e têm não significado metafísico. O significado metafísico reside exclusivamente em sua dupla ausência, e só pode ser indicado por isso. Sua fundação na direção de medição não-serial, intemporal, que é “vazia” para nós que percebemos como sujeitos de objetos, só pode ser indicada direcionando a atenção para a ausência de sua existência como aquilo que é interpretado bem como a ausência da negação disso, ou seja, a ausência de quente-e-de-não-quente, de frio-e-de-não-frio, de cada membro de cada par de opostos ou complementares e de sua negação ou oposto. A atenção assim direcionada é desviada da dimensão serial de sujeito-e-objeto, que são assim reunidos em transcendência, e é, portanto, tornada disponível para reintegração na intemporalidade.

Essa deve ser a razão da eficácia da fórmula dos Budas, seu sucesso patente nas pessoas de Subhuti e Hui Neng, na de Wu Men e em tantos outros, e dos hinos de louvor hiperbólico que ela recebe no próprio Sutra do Diamante.

Aperceber a dupla ausência, “a própria ausência da ausência,” ou seja, perceber uma ausência em si mesma como uma presença, é uma visão não-objetiva—que é a única Verdade.

Nota sobre “Wu-nien”


O conceito “não-pensar” é um objeto do sujeito assim como sua contraparte o conceito “pensar.”

É por isso que os Mestres afirmaram que sentar-se com a mente em branco ou suprimir pensamentos à força são não o caminho para a verdadeira visão (a visão interior).

Portanto, a presença (na intemporalidade) representada no tempo pela ausência de pensamento (wu-nien) é não o conceito, ou ação psíquica, de “não-pensar,” mas aquilo que intemporalmente corresponde à fórmula “o pensamento nem é nem não é,” a dupla ausência do Pensamento e do Não-pensamento, que é o Funcionamento puro (ta yung).

Essa é a visão interior da verdadeira natureza para a qual os Mestres apontaram: fenomenalmente uma ausência absoluta, intemporalmente uma presença absoluta.

Se alguém deseja uma autoridade mais familiar do que a que citei ele tem só que recorrer ao nosso velho amigo e bom mestre, o monge iluminado Hui Hai (trad. John Blofeld, 1948), páginas 34 e 35, em cada uma das quais ele expõe com louvável lucidez a essência do que eu busquei explicar aqui. Ele encerra a segunda descrição com esta frase:

“Se este princípio é compreendido, isso equivalerá à real Liberatio, para cuja obtenção não pode haver outro método.”