CABALA
Leo Schaya: HOMEM E ABSOLUTO SEGUNDO A CABALA
Em outros termos: na Beleza de Deus, todas Suas Possibilidades causais aparecem como os «Modelos» acabados das coisas criadas, e isso sob os aspectos mais opostos; nEla, Deus «talhas Suas esculturas» eternas com a maior precisão, e com uma arte perfeita, que reúne todos os contrastes em uma suprema concordância. Na Beleza de Deus, todos Seus Aspectos são o que são, sob todas suas relações e em todas suas reciprocidades; cada Sephirah se abre nEla, e através dEla, em toda sua Plenitude e Magnificência, e em sua interpenetração com as outras Sephiroth. Também Tiphereth é chamada Daath, o «Saber» divino, a Omnisciência ou Consciência total de Deus, da qual está escritos (Prov XXIV,4): «E por Daath, as câmaras (ou «receptividades» espirituais) são preenchidas de todos os bens (sefiróticos) preciosos (em seu aspecto cognitivo) e agradáveis (em seu aspecto harmonioso). »
A Beleza divina é, ao mesmo tempo, Trevas mais que luminosa; Plenitude transbordante do Ser; Vazio sem limite, pura Receptividade; Gratia incomensurável; Medida rigorosa de todas as coisas; Amor e Paz, que unem tudo a tudo; Vida, Alegria e Liberdade; Extinção dos limites no infinito; Ato redentor; Majestade. Todos estes Aspectos, que não descrevem outra coisa que as dez Sephiroth, se penetram, um no outro, e formam as expressões ilimitadas da «Pequena Face», que revela os Mistérios e as Luzes da «Faces Grande Pequena», guardada nEla. Pois Tiphereth, Ela unicamente, é toda a «Pequena Face»; Ela é o «Rei» ou o «Filho», que constitui a Síntese de todas as Emanações divinas, assim como daquelas das quais de onde decorre como daquelas que o seguem: todas aparecem como seus próprios Aspectos. «O Filho toma posse de tudo (o que emana de Kether), herda de tudo (Arquétipo particular) e se expande (por sua irradiação central e universal) por toda parte. »
O Princípio essencial da Beleza divina é a identidade do Absoluto (Ain) — que exclui tudo que não é Ele — e do infinito (En-Soph) — que inclui tudo o que é real; é a Unidade das Trevas mais que luminosas do Não-Ser e da Plenitude transbordante do Ser puro, Unidade suprema e a mais misteriosa, que Se revela — no Cântico dos Cânticos (I,5) — em dizendo: «Eu sou negra, mas bela...» Este princípio essencial da Beleza divina, que irradia e a Verdade pura do único Real, eclipsando tudo o que não é Ela mesma, e Sua Beatitude ilimitada, na qual toda coisa nada como em um oceano sem margem, não é outro senão Kether que guarda, eternamente e indistintamente, todos os Aspectos polares de Deus. Quando Kether Se revela, Seu Aspecto infinito e unitivo se exprime por Hokhmah e por Hesed Din, e Seu Caráter absoluto ou exclusivo se manifesta por Binah e por Scholem Din. Estas duas espécies de Emanações antinômicas são indispensáveis com vistas à criação: vimos como, para criar, é preciso ao mesmo tempo a Verdade rigorosa e a Beatitude generosa, ou de um lado, a Medida de todas as coisas, o Juízo de sus qualidades, a Lei universal, e por outro lado, a ilimitação da Graça, da qual brota toda vida, toda alegria e toda liberdade. E para que estes dois opostos, nos quais se concentram, de uma maneira ou de outra, todos os Aspectos divinos, possam produzir o Cosmo, é preciso não somente sua Identidade absoluta, «no alto», mas também sua interpenetração e fusão existencial, «em baixo». Esta fusão ou síntese de todas as Antinomias reveladas de Deus, que se resume nos dois termos gerais de «Graça» e de «Rigor», se realiza em Tiphereth, a «Beleza». NEla, a Verdade rigorosa que Deus só é, não difere de Sua Clemência que une tudo a Ele. No «Coração» de Deus, a Medida eterna das coisas se encontra como dissolvida na incomensurabilidade de Sua Graça redentora. Quando a Beleza divina se manifesta, esta Graça se cristaliza misteriosamente nas «medidas» ou formas criadas e irradia, através delas, dando à obra da criação a marca direta de seu Autor.