VALLIN, Georges. Être et individualité. Paris: Presses Universitaires de France, 1959
O dogmatismo onto-teológico e o fracasso da onto-teologia da substância individual
A recusa mais ou menos explícita da Transcendência radical do Absoluto, ou seja, da universalidade integral que caracteriza a perspectiva metafísica, condiciona o aparecimento do dogmatismo filosófico ou teológico. O dogmatismo em geral, assim como se mostrou noutro lugar 1
está ligado à inversão das relações de tipo metafísico entre o que se chamou com René Guénon de Essência e Substância, isto é, entre o polo metafísico ou "essencial" e o polo cosmológico ou "substancial" pelos quais se pode considerar toda realidade determinada, "inteligível" ou "sensível". A perspectiva metafísica subordina integralmente a Substância à Essência: toda determinação, inclusive a que permite colocar o Absoluto como Causa e Princípio do mundo, não passa de um reflexo simbólico da única realidade supraessencial e sobredeterminada que constitui sua Essência ou seu Si. A gênese do dogmatismo está condicionada pela recusa dessa subordinação integral e, no limite, por uma subversão total das relações metafísicas entre a Essência e a Substância. Os diversos avatares do dogmatismo coincidem com os diversos graus dessa recusa, que por sua vez se explica pelo apego do homem à realidade substancial de seu eu e do mundo. Noutros termos, o dogmatismo antimetafísico é um dogmatismo cosmologista e humanista. O dogmatismo identifica a essência do mundo e do homem com sua substância: de um reflexo que remete à sua fonte, faz uma substância mais ou menos encerrada na densidade e opacidade de sua autarcia cosmológica.
Em estudo anterior creu-se poder discernir dois graus ou dois aspectos fundamentais dessa revolta ou desse dogmatismo antimetafísico:
Primeiro, o dogmatismo ontoteológico que se encontra na ontologia ocidental de Aristóteles até Leibniz e que se caracteriza não por uma recusa da Transcendência do Absoluto, mas pela recusa do caráter integral desta última. A ontologia não desemboca numa "meontologia" ou numa teologia negativa de tipo metafísico. O Ser está encerrado em limitações cosmológicas insuperáveis, inclusive o ser aparentemente "puro" e "sem restrições" que se situa no cume da hierarquia. O mundo e o homem permanecem subordinados a Deus; o cosmologismo e o humanismo ficam pois mais implícitos que explícitos. Mas a própria infinidade de Deus encontra-se praticamente degradada e limitada pela relação com o mundo que, de fato, se não em teoria, constitui a essência mesma do Absoluto. A Transcendência do Princípio já não é integral, mas fragmentária ou abstrata. Toda a ontologia clássica parece tributária dessa limitação dogmatizante inaugurada, no plano da história dos sistemas, pela revolta antiplatônica de Aristóteles. O cosmologismo humanista e antimetafísico da filosofia e da teologia ocidental expressou-se com esplendor na recusa aristotélica da "Transcendência" da Ideia platônica. A revolta fundamental que se encontra na origem dessa recusa parece ter-se perpetuado através de toda a história da filosofia ocidental, cuja dialética modelou por assim dizer.
Segundo, ao lado desse dogmatismo ontoteológico, cujas incidências sobre o princípio de individuação vai-se esboçar, colocou-se em evidência o dogmatismo temporalista, que marca uma segunda etapa na recusa da Transcendência em geral ou mais precisamente na recusa de todas as formas, e não apenas de certos aspectos, do que se tinha chamado a "Transascendência". O Absoluto é doravante integral e exclusivamente imanente. E o tempo, que já não é a imagem móvel da eternidade imóvel, é posto como criador, enquanto desabrocham todas as virtualidades do dogmatismo. O humanismo e o cosmologismo tornam-se doravante explícitos.
O objetivo nesta obra é descrever os diversos aspectos que reveste o dogmatismo temporalista e determinar o estatuto ontológico da individualidade que se oferece à experiência da consciência temporalista que se encerrou deliberadamente no círculo da imanência cosmológica. Esta análise coincidirá com a colocação em evidência dos diversos aspectos do que se chamará também, por oposição à "Transascendência" que assinalou nas páginas anteriores, a "Transdescendência", isto é, da orientação exclusiva da subjetividade humana para a realidade substancial do mundo e do ego.
O estudo coincidirá aliás também com o esboço de uma fenomenologia do homem e do mundo modernos na medida em que estes podem ser legitimamente caracterizados pela recusa da Transcendência do Absoluto.
Antes de descrever as três estruturas temporais da consciência que constituirão o quadro deste estudo, parece útil esboçar um estudo das relações entre o dogmatismo ontoteológico 2 e o princípio de individuação que permitirá esclarecer melhor os limites e as dificuldades da experiência da individualidade que se oferece à subjetividade no quadro do dogmatismo temporalista.
As doutrinas de Aristóteles, de São Tomás e de Leibniz trazem três exemplos elucidativos da impotência para fundar a individuação qualitativa no quadro do dogmatismo ontoteológico.