Dizendo-o simplesmente
Só um objeto pode sofrer, mas fenomenalmente sujeito e objeto, sendo um todo, gira como uma moeda de modo que os intervalos entre cara e coroa são imperceptíveis. Consequentemente a dor, ou o prazer, parecem ser contínuos.
Numenalmente, ao contrário, não há objeto para sofrer dor ou prazer. O númeno é invulnerável, e não pode ser de outra maneira. O númeno é o aspecto não manifestado do que somos, seres sencientes: o fenômeno é nossa manifestação.
Portanto, manifestados, devemos sofrer dor e prazer; não manifestados, não podemos experimentar nenhum deles. Ambos aspectos são permanentes e coevos, um sujeito ao tempo (que acompanha toda manifestação, tornando a extensão dos eventos perceptível), o outro — intemporal.
O númeno — ser imperceptível, sem tempo, sem espaço — é o que somos: fenômeno — temporal, finito, sensorialmente perceptível — é o que aparecemos ser como objetos separados. Fenômenos, sujeitos ao tempo, são impermanentes, ficções ilusórias da consciência, mas nada são senão númeno em manifestação, em um contexto de sonho (um de vários contextos de sonho — condições psíquicas devidas ao sono, drogas, asfixia, etc.). Similarmente o númeno nada é; factualmente, demonstravelmente, cognoscivelmente (e portanto objetivamente), ou seja, nenhuma coisa, mas — aparte de — sua manifestação como fenômenos.
Esse é o significado das «misteriosas» contradições enunciadas pelos Sábios: «Forma é nada senão vazio, vazio é nada senão forma», «Samsara é Nirvana, Nirvana é Samsara», «Fenômenos e Númenos são um», etc., etc.
Por isso Huang Po pôde dizer:
«Por nenhuma razão faça uma distinção entre o Absoluto e o mundo senciente» (p. 130)
«O que quer que a Mente seja, assim também são os fenômenos — ambos são igualmente reais e compartilham igualmente da Natureza-Dharma. Aquele que recebe uma intuição desta verdade se tornou um Buda e alcançou o Dharma.» (p. 111)
«Todo o universo visível é o Buda.» (p. 107)
Citando Hui Neng ele pôde também dizer, e frequentemente no mesmo contexto:
«Então onde vai a poeira suja se agarrar?»
«Total compreensão disto deve vir antes que eles possam entrar no caminho.» (p. 111)
E por último:
«Agarre-se forte a um princípio e todos os outros são idênticos.» (p. 108)
O que, então, é este princípio?
«Além do mais, em assim contemplando a totalidade dos fenômenos, estais contemplando a totalidade da Mente. Todos estes fenômeno são intrinsecamente vazios e no entanto esta Mente com a qual são idênticos não é mero nada.» (p. 108)
Este, capítulo 37 do Registro Wan Ling, é provavelmente a afirmação mais clara e mais valiosa da suprema verdade que possuímos. Nele afirma-se, como citado, que em vendo uma coisa vês TUDO. O que é esta única coisa, e a vimos? Certamente é justo que fenômeno e númeno são um. Em diferenciando entre Aparência e sua fonte, nenhuma das quais existe que não seja conceitualmente, nunca devemos esquecer esta «única coisa» — a qual é que elas são um.
Entretanto, se vemos esta única coisa como "um", não a vimos, a deixamos escapar. Não é «única coisa», pois uma coisa é um objeto. De fato nunca podemos "vê-la", pois aqui, esta é a Visio que é não-visão, na qual nenhum "único" é visto e nenhuma "coisa" é vista como tal.
Não compreendemos? Não podemos perceber intuitivamente o que isto deve ser? Um olho não pode ver a si mesmo. Isso que é buscado é o buscador, o procurado é o procurador, que não é um objeto. "Único" é um conceito, objetivo portanto, e "ele" é "desprovido de qualquer traço de objetividade". (Huang Po, p. 35)
Não podemos ver (descobrir, apreender, alcançar, tocar) ele, porque "nós" não somos objetos em absoluto, nem é "ele" um objeto, e o que quer que "nós" sejamos numenalmente é o que "ele" é numenalmente. Assim somos um — e não há nenhum tal objeto como "único" em númeno, posto que, como já lemos, não há nenhuma tal coisa (objeto) como númeno também.
Isto é a não-visão, pela não-visão que vês TUDO, o único princípio com o qual todos os outros são idênticos, o único problema que, resolvido, resolve todos os outros ao mesmo tempo, o centro dos centros do qual tudo pode ser percebido.