Skip to main content

Xvarnah

COSMOLOGIA MASDEÍSTA — LUZ DE GLÓRIA



Henry Corbin: Corpo Espiritual e Terra Celeste

Há uma Energia que sacraliza tanto o estado menok quanto o estado getik do ser, e cuja representação é tão fundamental para toda a visão mazdeísta do mundo, que ela passa integralmente na restauração filosófica que foi a obra de Sohrawardi. Esta Energia está em obra desde o instante inicial da formação do mundo até o ato final anunciado e pressentido sob o termo técnico de Frashkart, o qual designa a Transfiguração que cumprirão no fim do Aion os Saoshyants ou Salvadores originários da raça de Zaratustra. É esta Energia que é designada pelo termo Xvarnah na Avesta (persa khorre, farreh). Várias traduções ensaiaram delimitar os contornos, revelar todas as nuances. «Luz-de-Glória» nos parece restituir o essencial, se ao mesmo tempo conjugamos no pensamento os equivalentes gregos que foram dados: Doxa e Tyche, Glória e Destino. Ela é a substância toda luminosa, a pura luminescência que constitui as criaturas de Ohrmazd em sua origem. «Por ela Ahura Mazda criou as criaturas numerosas e boas... belas, maravilhosas... cheias de vida, resplandecentes». Ela é a Energia de luz sacral que conjunta o ser delas, que mede ao mesmo tempo o poder e o destino imputados a um ser, que garante aos seres de luz a vitória contra a corrupção e a morte introduzidas na criação de Ohrmazd pelos Poderes demoníacos de Trevas. Ela está portanto associada essencialmente às esperanças escatológicas; é assim que no canto litúrgico dedicado a Zamyat, o Anjo da Terra, a menção das criaturas de luz das quais esta Luz-de-Glória é o atributo, chama cada vez em refrão esta doxologia: «Tais que elas farão um mundo novo, isento à velhice e à morte, à decomposição e à corrupção, eternamente vivo, eternamente crescente, possuindo poder a seu grado, então que os mortos se erguerão, que a imortalidade virá aos vivos, e que o mundo se renovará a gosto».

A iconografia a figurou como a nuvem luminosa, a Aura Gloriae, que aureola os reis e os sacerdotes da religião mazdeísta, e ela transferiu a representação às figuras de Budas e de Bodhisattvas, como às figuras celestes da arte cristã primitiva. Finalmente uma passagem do grande Bundahishn, o livro mazdeísta do Gênese fixa com toda a precisão desejável a que tencionam estas representações, quando identifica o Xvarnah esta Luz que é Glória e Destino, com a alma mesma. Logo ela é finalmente e essencialmente, a Imagem fundamental sob a qual e pela qual a alma se compreende ela mesma, e percebe suas energias e seus poderes. Ela representa no mazdeísmo o que a ontologia do mundus imaginalis nos ensinou a discernir como a Imago (mithal), a Forma imaginal. Ela é aqui esta Forma imaginal da Alma que tematizaremos como Imago Animae. Então talvez também tocamos na estrutura secreta que revela, e que torna possível, a visão da Terra em seu Anjo.

Esta Luz-de-Glória que é a Forma imaginal da alma mazdeísta, é ela com efeito que é o órgão pelo qual a alma percebe o mundo de luz que lhe é homogêneo, e pelo qual opera inicialmente e diretamente a transmutação dos dados físicos, estes mesmos dados que são para nós dados «positivo», mas que para ela seriam dados «insignificantes». É esta Forma imaginal mesma que a alma projeta nos seres e nas coisas, as levando a incandescência deste Fogo vitorioso cuja alma mazdeísta abrasou toda a Criação, e que percebeu por excelência nas auroras tremulando no pico das montanhas, aí mesmo onde ela antecipava com seu próprio destino a Transfiguração da Terra.

Em resumo, é por esta projeção da Imagem ela mesma, que a alma operando aqui a transmutação da Terra material, instaura inicialmente também uma Forma imaginal da terra, uma Imago Terrae que lhe reflete e lhe anuncia sua própria Imagem, quer dizer uma Imagem da qual a Xvarnah é também sua própria Xvarnah. É então, no e por este duplo reflexo da esma Luz-de-Glória, que à visão mental se revela o Anjo da Terra, quer dizer que a Terra é percebida na pessoa de seu Anjo. E é isto que exprime um traço admirável e profundo da angelologia mazdeísta, quando é indicado que o Amahraspand Spenta Armaiti, o Arcanjo feminino da existência terrestre, é a «mãe» de Daena.

¿Cómo representar un paisaje terrestre en el que todo está transformado por esta Luz-de-Gloria que el alma proyecta? Cuando el alma mazdeísta capta esta Energía de luz sacra como fuerza que hace brotar el agua, germinar las plantas, desplazarse las nubes, nacer a los humanos, que ilumina su inteligencia, les confiere una fuerza sobrenatural victoriosa y los consagra como seres de luz revistiéndolos de una dignidad hierática -todo eso no puede ser objeto de una pintura representativa, sino de un arte esencialmente simbólico-. Como esplendor terrenal de la divinidad, el Xvarnah Imaginado por el alma transfigura la Tierra en una Tierra celeste, paisaje glorioso símbolo del paisaje paradisíaco del más allá. Se requerían pues composiciones que reunieran todos los elementos hierofánicos de esta Gloria y los transformaran en símbolos puros de una naturaleza transfigurada.



CITAÇÕES: