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Renúncia – Desapego

Indiferença ao prazer e à dor / Desapego do lugar e das condições / Eludindo o ego / O esforço integral necessário / A ruptura com o hábito / Interiorização e transmutação das faculdades / Pobreza espiritual / Nada real é perdido / Desapego e serenidade

Separado

“Fariseu” designa aquele que é separado sem nenhum limite. Tudo o que pertence à alma deve ser absolutamente separado. Assim, quanto mais nobres são as potências, mais elas separam. Certas potências são tão elevadas acima do corpo e tão afastadas que despojam e separam absolutamente. Um mestre pronuncia uma bela palavra: “O que toca uma vez uma coisa corporal jamais penetra nestas potências.” O segundo significado é que se deve ser desapegado, separado, retirado de si mesmo. Por isso se deduz que um homem ignorante pode, pelo amor e pelo desejo, adquirir e ensinar o saber. O terceiro significado é que não se deve ter limite, não estar encerrado em lugar nenhum, não ter nenhum apego e estar assim transportado para a paz, de tal sorte que um tal homem ignora a inquietação quando é transportado em Deus com potências totalmente separadas.

Fr. 7, D.W. 1, p. 119, 7-120, 10, A.H. 1, p. 90. Mestre Eckhart

Espírito separado

Um mestre de nome Avicena diz que a nobreza do espírito que permanece separado é tão grande que tudo o que ele contempla é verdadeiro, que tudo o que ele deseja lhe é concedido e que, o que quer que ele comande, deve-se obedecer. E deve-se saber em verdade: quando o espírito livre permanece em uma verdadeira separação, ele constrange Deus a vir para seu ser e se pudesse permanecer sem forma e sem nenhum acidente, tomaria o ser próprio de Deus. Ora Deus não pode dar este a ninguém a não ser a si mesmo; é por isso que Deus não pode fazer nada de mais pelo espírito separado do que se dar ele mesmo a ele. E o homem que assim permanece em uma total separação é tão transportado para a eternidade que nada de efêmero pode comovê-lo, que ele não experimenta nada do que é carnal, que é dito morto para o mundo pois não tem gosto por nada de terrestre. É o que pensava São Paulo quando diz: “Eu vivo, e no entanto não vivo: o Cristo vive em mim” (Gálatas 2, 20).
(Von abegeschaidenheit, D.W. 5, p. 410, 7-411, 10. A.H. Traités, p. 163. Eckhart Tratados)

A alma humana tem em si algo que é divino

A alma humana tem em si algo que é divino; mas a ela também se juntam as partes irracionais, a saber, o desejo e a repugnância. Essas... são forças motrizes... que têm a ver com entes mortais. E assim, enquanto a parte divina da alma estiver no corpo divino, o desejo e a repugnância estarão longe dela; mas quando a parte divina entra em um corpo mortal, eles passam a existir como acréscimos a ele, e é por meio de sua presença que a alma se torna má.... A alma dos animais irracionais consiste em repugnância e desejo; e é por isso que esses animais são chamados de 'irracionais', porque são privados da parte racional da alma.

Hermes

As dores e os prazeres excessivos

As dores e os prazeres excessivos devem ser considerados, com razão, as maiores doenças a que a alma está sujeita. Pois um homem que está em grande alegria ou em grande dor, em sua ânsia inoportuna de alcançar uma coisa e evitar a outra, não é capaz de ver ou ouvir nada corretamente; mas ele está louco, e é, naquele momento, totalmente incapaz de qualquer participação na razão.

Platão (Timeu, 86 C)

Desapego da renúncia

A ilusão do desejo deve ser superada por meio do discernimento - a urgência por meio da renúncia. Mas é preciso estar desapegado de sua própria renúncia. (Whitall Perry)

Na renúncia nada de real é perdido

Se muito já foi escrito sobre o assunto da renúncia, não é tanto porque a doutrina seja difícil de ser compreendida, mas sim porque a prática precisa de encorajamento. “O Senhor teu Deus é um Deus ciumento” (Deuteronômio, VI. 15), e não sofrerá associados, ídolos, ou a adoração de qualquer coisa considerada boa ou desejável ou real ao lado Dele, — Ele, que é infinitamente desejável em virtude de ser a Única Realidade que é. O essencial a ser lembrado na renúncia é que nada de real é jamais perdido; cada retirada do mundo é uma apropriação em um plano superior daquilo de que se retirou. Na retirada final não há mais eu, não há mais mundo — apenas o Vazio, o Real. Daí o paradoxo: quanto mais uma pessoa pode dispensar o mundo, menos ele pode dispensar dela, — pois o centro pode dispensar a periferia, enquanto uma periferia sem um centro — manifestado ou não manifestado — é uma impossível impossibilidade. Usando o mesmo padrão de analogia: “O desapego é possível sem a renúncia, mas a renúncia não tem sentido, exceto em vista do desapego” (Schuon: Perspectives spirituelles, p. 281). (Whitall Perry)

Sofrimento ligado à renúncia

O sofrimento está indissociavelmente ligado à renúncia, tanto como causa quanto como resultado. No primeiro caso, no entanto, o homem é a vítima do termo último de um processo cosmológico inexorável; no segundo caso, ele é ativo em relação ao sofrimento, que desta vez é estritamente relativo e subordinado ao fim em vista, ou seja, a libertação da tirania das vicissitudes e desequilíbrios aos quais ele, como indivíduo, está sujeito — portanto, a libertação do domínio do próprio sofrimento, através da identificação ritual com os estados supraformais, que estão fora do reino da mudança. (Whitall Perry)