Skip to main content

Espelho

TradiçãoSímbolos — Espelho


VIDE: Manifestação, Imagem

A imagem de «espelho da mente», atribuída ao intelecto agente, enquanto face da mente oferta a Deus, merece considerações sobre a riqueza de seu simbolismo. A comparação do espelho propõe a tomada em consideração de quatro pares de termos: primeiro, o Sol, que é a Realidade divina. Em seguida o espelho que recebe a luz, e é a face interna da alta região da alma chamada mente, face oferecida a esta divina Realidade. Em seguida ainda, o fluxo luminoso que emana do Sol e atinge o espelho, e é a irradiação de todos os Aspectos divinos reunidos em um só feixe «incolor» que não é conhecido senão em modo existencial. Enfim, a imagem do sol no espelho, que corresponde o reflexo de Deus retinindo na mente de sorte que a criatura é à imagem de Deus. E assim como o reflexo do sol no espelho é resplandecente quanto o sol recebido pelo espelho, assim também o reflexo de Deus na mente é tão resplandecente quanto Deus que se mira nesta mente. Mas o reflexo da coisa não é a coisa; a luz existencial divina no espelho da mente não é Deus. Deus reside no dentro da alma, mas a alma não é Deus. [Allard l'Olivier: L'illumination du coeur]


Deus em nós — ou, para conservar a terminologia já empregada, Deus «em mim» — e Deus «em si», que simbolizam os dois Purusha imanente e transcendente do qual é dito no Bhagavad Gita, que estão separados por um véu, uma parede e esta parede opaca é feita de toda a opacidade das coisas e em primeiro lugar da opacidade o «eu», da opacidade desta contrapartida individual do Si mesmo que é o ego.

Quer dizer que a parede não é opaca senão em função da qualidade da visão da «testemunha», de sua capacidade de discriminação. Quando o olho desperta à visão da Realidade ele «vê» as coisas como das teofanias e, em função de seu sentido da analogia, ele os «reconhece» como reflexos do Ser universal. Esta parede se torna espelho: a vida é desde então um espetáculo ininterrupto de espelhos remetendo em todas as coisas a mesma imagem e este «Infinito Espetáculo» é Deus. Toda vida pode ser assim condicionada por uma visão das coisas como espelho de Deus. [Jean Canteins: Miroir de la Shahada]


O mundo do Imaginal põe em obra uma ciência dos espelhos. Segundo Daryush Shayegan, Corbin a traduz como o «fenômeno do espelho»: «A substância material do espelho, metal ou mineral, não é a substância da imagem, uma substância cuja imagem seria uma acidente. Ela é simplesmente o "lugar de sua aparição" [...]. A imaginatio activa é o espelho por excelência, o lugar epifânico das Imagens do mundo dos arquétipos; eis porque a teoria do mundus imaginalis é solidária de uma teoria do conhecimento imaginativo e da função imaginativa». Uma «imagem em suspenso» não é nem material, nem puramente espiritual; ela é um entre-dois. Por um lado, tem uma forma imaterial, por outro lado o espírito aí aparece revestido de uma forma própria. E é isto que é posto em obra, por exemplo, a ideia de Iltibas (anfibolia) em um Ruzbehan de Shiraz. Para o sensível, o visível tem assim um duplo sentido (anfibolia); é e não é ao mesmo tempo. Toda teofania é um espelho que embora revelando o ser não menos dele guarda sua dimensão oculta, assim como o espelho, mostrando a imagem que aí se manifesta, remete ao que resta velado além da imagem. A anfibolia pressupões assim uma transfiguração que torna possível o ponto de junção deste duplo sentido: ela é isto que conduz da dualidade do vidente e do visto, à união teofânica onde eles invertem por assim dizer seus papeis: o Amante percebe presentemente todas as coisas com o olhar transfigurador do Amado. Graças ao fenômeno do espelho ele percebe agora a face humana transfigurada ao nível da Face divina, é é com o olho do Amado que redescobre a face humana de sorte que o Amante, o Amado e a ligação os reunindo juntos, se tornam homocromo (hamrang). Ora este fenômeno não pôde ser efetuado se a visão ela mesma não permanecesse a uma distância igual de um duplo obstáculo que é o tatil (a redução do todo à multiplicidade). É em outros termos em salvando o «fenômeno» que se salva por aí mesmo o valor noético da Imagem, quer dizer do Ícone em a preservando contra a idolatria. É também esta «ciência do olhar» (ilm-e nazar) centralizada sobre a visão teofânica da Imagem metafísica que faz de um poeta como hafiz uma «Jogador de olhar» (nazar-baz). Pois o «jogador de olhar» não vê o mundo como um objeto, nem enquanto coisa representada, posta aí em nossa face, mas como um Jogo de Imagens refletidas sobre os espelhos encantadores do universo, sendo e não sendo ao mesmo tempo. O olhar visionário do poeta é um Jogo que tem por desafio o Jogo pelo qual a Divindade olha o mundo e Hafiz de concluir: «Se a face divina se torna epifania de nosso olhar / Não há dúvida que és presentemente o possuidor do olhar». [Henry Corbin: Face de Deus, Face do Homem]


PÁGINAS:
Boaventura: Itinerarium mentis in Deum III, 1 e III,5


Citações: