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Borella Conhecer

Jean Borella — La Charité profanée


VIDE: CONHECIMENTO; FORMAS DE SER E DE CONHECER; CONHECER E SER

Em seu exercício ordinário o conhecimento mental está submetido à razão; logo se poderia dar igualmente à alma mental o nome de alma racional. Como vimos, este conhecimento procede segundo uma dupla exigência: ela vai da ordem do mundo à razão e da ordem da razão ao mundo. Estas duas direções se entremeiam no conceito que é o meio, a mediação, deste conhecimento. Decorre disso que esta démarche pode ser qualificada de discursiva, o discurso significando um curso submetido à dualidade, à divisão. Não é de modo algum, verdadeiramente, o conhecimento ele mesmo que é discursivo, mas todavia seu processo, que confronta perpetuamente a exigência das coisas à exigência da razão e reciprocamente, pois o conhecimento nele mesmo, em qualquer nível que se considere, não pode no final das contas, senão ser intuitivo, quer dizer «Visio» (ou audiçao, percpeção direta e unitiva de seu objeto.

Que não haja conhecimento senão intuitivo, é uma evidência, não a conclusão de um raciocínio. Conhecer é «ver o que é». É por conseguinte impossível dar uma definição do conhecimento; ele é primeiro, irredutível, ingênito. Devemos nos contentar com metáforas tais como a Visio. Ainda assim esta metáfora não é adequada senão porque a visão é ela mesma um conhecimento, ou melhor ainda um dos modos sensíveis do conhecimento. O que não é intuitivo, é o processo de aquisição do conhecimento, assim como aquele do estabelecimento de sua validade. O mental não procede discursivamente, por investigação, raciocínio, dedução, senão por aquilo que ignora. Mas o conhecimento, em seu ato próprio, não pode ser senão recepção direta do dado inteligível. A investigação discursiva dura tanto tempo quanto se queira, se cerca de todas as garantias possíveis da criteriologia mais racional, assim é preciso, no final das contas, que tenhamos confiança neste ato cognitivo pelo qual um objeto conhecido se une diretamente a um sujeito conhecedor, em uma espécie de transparência recíproca que é a experiência mesma do inteligível. Caso contrário, qualquer filosofia que se professe, neão se vê como poderíamos obter um conhecimento qualquer, mesmo da ordem mais efêmera.

Ao que me nós conhece se dá o nome de inteligência, ou de intelecto. Ora, com o intelecto, entramos em um domínio que ainda não tínhamos encontrado, e cuja natureza parece diferir bastante da realidade psicocorporal. No domínio psicocorporal, individualidade e existência vão de par. O psicocorporal existe, indubitavelmente; se move, age, reage, deseja, assim como todos os seres da natureza, como um ser distinto entre todos os seres distintos constituindo uma organização fechada sobre ela mesma. Esta existência é vida de um ser individual1 . No conhecimento, parece que a gente estivesse fora da existência, porque se está fora do individual. Dissemos que o conhecimento, ato do intelecto, era percepção direta e unitiva do ser. Ele implica uma transparência quase absoluta do intelecto a tudo que recebe nele, quer dizer uma abertura quase universal, e não o fechamento sobre si que realiza a existência individual. Do lado do objeto conhecido, por outro lado, está claro que o que é recebido no intelecto não é seu ser mesmo, mas a modalidade inteligível daquele, despojada de sua existência individual própria 2 , o qual permanece, por definição, impenetrável. O ato do conhecimento não se realiza senão ao preço de uma espécie de desrealização.

No entanto o conhecimento é bem real, ele é mesmo a função do real por excelência. Não há ser senão para o conhecimento. Se tivéssemos que dar uma definição do intelecto diríamos que é o sentido do real. Assim como o doce e o salgado não têm sentido senão para a língua, assim também o visível ou o audível não tem sentido senão para o olho e a orelha, assim também o «real» não tem sentido senão para o intelecto (e logo o intelecto é a faculdade de distinguir o real do irreal) {FOOTNOTE()}Digamos a este respeito que esta constatação representa para nós a «prova» irrefutável da suprema Realidade divina: a existência da inteligência prova Deus porque em última análise, Deus ou o absolutamente real é o verdadeiro conteúdo implícito de todos nossos atos intelectuais. Poderemos também formular esta argumentação da maneira seguinte: ninguém pode, sem contradição negar a existência da realidade empírica natural. Ora esta realidade, sendo relativa, carece de realidade; logo há uma Realidade absoluta, transcendente à natureza que a funda. — Esta forma «silogística» não deve iludir: trata-se de evidências intelectuais que a linguagem não pode exprimir senão discursivamente. Não é uma demonstração da existência de Deus; é uma afirmação destinada a fazer todo homem tomar consciência que jamais cessou de afirma Deus. Não é absoluto possível se dar conta desta situação paradoxal (ao mesmo tempo fora do real e ligada ao real) do intelecto senão admitindo que a luz que ilumina vem de alhures, que é de outra natureza e de outro grau de realidade que o plano sobre o qual ela se manifesta. Eis porque se pode representar como um ponto que se encontra no centro da alma mental representando o traçado de um eixo vertical. O conteúdo cognitivo do intelecto excede o grau de realidade de sua manifestação; dito de outro modo, lhe é transcendente. Chega-se então à seguinte representação; o mental é figurado pela superfície de um círculo cujo centro é o intelecto, enquanto os Raios que dele emanam correspondem à razão. Esta imagem ilustra bem a natureza respectiva de cada uma destas funções cognitivas. Em conformidade ao papel arquitetônico e regulador da razão os raios ordenam e medem o círculo mental, e juntam a periferia ao centro (ratio = relação). Por outro lado são a emanação do centro, ou o reflexo na superfície das águasmentais (animus) do eixo vertical do intelecto, cujo centro do círculo não é senão o ponto de encontro com o domínio psíquico. Apreende-se por aí porque os princípios da razão se impõem nào discursivamente à alma mental: é que refletem com efeito uma luz supramental cuja evidência se manifestará então como constrição 3 Enfim a função própria do mental figurada pela superfície do círculo é de constituir o «meio» propriamente humano onde se refrata todo conhecimento, meio que reveste estes conhecimentos de uma forma abstrata. Mas o conteúdo do conhecimento tomado nele mesmo, é da ordem do inteligível: ele se realiza quando o inteligível externo (o mundo) entre em contato com o inteligível interno (o intelecto) e onde todos os dois se atualizam reciprocamente no ato comum do conhecimento.

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