A FLOR DE LIS
Gérard de Sorval: A LINGUAGEM SECRETA DO BRASÃO
Muitos autores fizeram derivar a flor de lis, do lírio ou da iris, por vezes da alteração do desenho de sapos ou de rãs, por vezes de um ferro de lança com pontas recurvadas, por vezes de um tridente de Netuno ou do antigo símbolo caldeu da realeza (hieróglifo sar).
O importante é estudar a emergência do desenho muito particular que a arte do brasão associa às significações do lis floral, mesmo que pouco pareça com a flor. De fato o brasão reconhece nele um motivo floral, ao mesmo tempo flor de lis e flor de Loys, quer dizer emblema característico da monarquia francesa.
Acredita-se que este emblema foi trazido do Oriente pelos cruzados, passando a ser usado no escudo dos reis de França, apesar da belas lendas sobre o eremita Joyenval e as visões de Santa Clotilde. Afirma-se também que passou antes pelos cetros reais antes de ser gravado nos brasões, demonstrando ser símbolo por excelência da autoridade real.
O próprio da flor de lis é a princípio ser um emblema ternário que simboliza a Trindade divina e mais particularmente seu reflexo na alma e no corpo social. Pelo equilíbrio obtido na pétala central entre as duas pétalas laterais e pelo domínio das três pétalas sobre as três raízes, significando o domínio da alma espiritual sobre o corpo e aquele do Criador divino sobre sua imagem na existência terrestre, a flor de lis simboliza por excelência a Justiça, ao mesmo tempo interior e exterior. Ela é o emblema específico da «conjunctio oppositorum», da união dos complementares, e da resolução da dualidade na unidade, ao mesmo tempo sobre o plano horizontal (as duas pétalas opostas e a pétala central evocando a conciliação do masculino e do feminino, do ativo e do passivo, da contemplação e do dinamismo externo), e também sobre o plano vertical (as pétalas superiores em relação às raízes inferiores figurando a junção do céu e da terra, de Deus e do Homem, e sobretudo a subordinação do poder temporal à autoridade espiritual).
Por este último aspecto de duplo ternário invertido, o simbolismo da flor de lis se aparenta àquele do «selo de Salomão» ou «escudo de Davi» (dito também «escudo de São Miguel»), atributo característico da realeza bíblica, com esta diferença que o que é equilíbrio de triângulos entrelaçados iguais se torna, na flor de lis, preeminência clara das pétalas superiores sobre os «reflexos» inferiores; o que leva a pensar na superioridade da «Gratia» na Nova Aliança sobre a «Lei» na Antiga Aliança.
Se o lírio parece ser uma das flores herdadas do Jardim do Éden, símbolo do poder que Adão possuía sobre o mundo antes da queda, a rosa que o acompanha frequentemente na iconografia, nas canções populares tradicionais, e na heráldica medieval, caracteriza um outro aspecto da «felicidade primordial».
A oposição da brancura do lírio ao vermelho encarnado da Rosa caracteriza os domínios respectivos da iniciação, os Pequenos e os Grandes Mistérios, mas também a iluminação da alma e o ardor do espírito. Este ardor na oração e o trabalho interior («ora et labora») faz da rosa o símbolo mais particular do obra alquímica, como de maneira geral, da demanda iniciática, permeada de «espinhos» e delicada.