René Guénon et l’actualité de la pensée traditionnelle. Actes du Colloque International de Cerisy-la-Salle: 13-20 juillet 1973
J.-P. LAURANT. — Continuemos estas reflexões com a ideia do monarca universal, do Çakravarti, na tradição hindu, de que o Sr. Lavastine vai nos falar.
P. LAVASTINE. — Terei logo uma questão fundamental a colocar a René Alleau sobre a natureza de seu rei. É ele um indivíduo ou uma “pessoa corporativa”? Para mim, é evidente que a antiga realeza caiu quando se passou a crer que se tratava de indivíduos. O rei — pensou-se — era o indivíduo Luís XVI; no entanto, temos textos fundamentais, sobretudo no Rig-Veda (10-90-12), para os quais não existe tradução que não seja um contrassenso, exceto a de Paul Mus. Esse texto diz: “À voz do Brahmane, os Kshatriyas vêm constituir seus braços, os Vaishyas, suas coxas. Assim será constituído o homem.”
Em sânscrito, a palavra “homem” significa ao mesmo tempo “homem” e “gnômon”, verticalidade perfeita. Chego então à casta dos Shudras, que nascem de seus pés. Sabe-se que o Shûdra é o homem que se identifica com seu corpo: “meu corpo sou eu”. Quando pode dormir e comer bem, está contente; e quando seu corpo morre, ele morre. Conheceis a frase de Bertrand Russell: “Por que não sou cristão? Porque estou convencido de que, quando morrer, apodrecerei.” É a fala típica do Shûdra. Para os hindus, esses não são homens, são pré-iniciáticos. Nascem dos pés do homem, como a sombra. A sombra é a pele negra, é o aspecto asuriano da dissolução. Tudo está bem apenas quando a sombra retorna a seu corpo, como a sombra de uma árvore ao meio-dia.
A sagração real, na Índia, é um novo nascimento: havia um indivíduo, e é preciso que esse indivíduo se separe de si mesmo, de modo que possa tomar em suas mãos a si, sua mulher e seus filhos. É então a “pequena sagração” do chefe de família, do pater familias.
Resumirei: o homem “maior” obteve a “salvação”, o homem é salvo de sua “egoidade” quando tem esposa, filhos, descendência; ele é então salvus. Não sei se Guénon o sabia, mas isso coincidiria com a diferença que ele estabelece entre salut e délivrance. Sarvam quer dizer totalidade. Antes que um homem tenha esposa, ele é um mutilado; assim como uma mulher normal, sem homem, sente-se amputada.
O Shûdra é a sombra da “grande pessoa”, como disse; o Vaishya corresponde às coxas, o Kshatriya aos braços, e, por fim, temos o rosto do rei bramânico. O homem está salvo quando alcançou sua plenitude. Enquanto é menor, deve estar “sob a mão” dos pais; caso contrário, não saberia conduzir-se. Pode-se atingir a maioridade mais ou menos depressa: dir-se-á, por exemplo, na Índia, que um Brahmane de 10 anos é mais velho que um Kshatriya de 100. O homem maior se diz também, em sânscrito, “duas vezes nascido”. Recorda-se o simbolismo da Páscoa: os ovos. As três castas superiores da Índia são aves, enquanto o Shûdra não é ainda uma ave, é apenas um ser homo, humus, feito de terra, e só pode ser considerado como a sombra de uma Pessoa, como vimos.
Assim, o homem maior, ou salvo, ou duas vezes nascido, ou pássaro que saiu do ovo, tem por medida de ser: ele mesmo, sua mulher e sua descendência solidariamente. Falava-se outrora da “solidez” familiar (é o mesmo termo), e o que governava na família era o atman, o “si mesmo” da família; e quando houve a queda do âtman, um certo indivíduo — o chefe da família — acreditou que devia fazer sua esposa obedecer-lhe. Então foram promulgadas leis segundo as quais a mulher devia obediência ao marido. Jamais o antigo direito védico, nem o antigo direito romano, afirmaram semelhante coisa. Quando o filho é sagrado pater familias na morte do pai, torna-se o próprio pai, que é o ancestral primordial, Agni, o deus do lar. René Alleau falou, a propósito da Santa Ampola, de algo que se vê por toda a Índia: a pequena lamparina a óleo. Ora, o esquema dessa lamparina tem a mesma forma daquela de onde provém o yoni e de onde surge o lingam.
Consequentemente, o ancestral é assimilado ao fogo porque o homem não pode viver sem luz e sem calor. Um dos elementos essenciais do sol não é apenas a luz, mas também o calor; e o fogo doméstico dá calor e luz. A característica desse fogo do lar é a mesma de todos os fogos: é preciso sacrificar-lhe, é preciso oferecer-lhe combustível, o que se chama em sânscrito soma, simbolizado pela água-da-vida, pela surpreendente descoberta do álcool, a “água de fogo”. A água comum apaga o fogo — e eis que se descobriu uma água que o acende! Imediatamente comparou-se essa água à água do esperma. O esperma do homem é chamado soma, enquanto o órgão feminino é o altar do fogo, o que há de mais santo, de mais central, no qual deve ocorrer a oblação do soma, do esperma.
Por isso, um homem não pode ser completo sem uma mulher, pois sem ela não pode celebrar o sacrifício — o sacrifício de dar nascimento ao filho sempre esperado, essa criança divina que é ignis divinus, Agni, Jesus. O Natal é uma antiga ressurreição desse nascimento de Agni, sempre o mesmo. Eis a bússola da sociologia sânscrita. Lévy-Bruhl pôs a casa de cabeça para baixo ao falar de pré-lógica. Disse que a participação é uma ilusão, um caos. Durkheim, por sua vez, definiu a participação como “o poder de ser ao mesmo tempo si mesmo e outra coisa”. Eu sou, ao mesmo tempo, eu mesmo, minha esposa e meus filhos. Se tocam em minha esposa, em meus filhos, é em mim que tocam. Isso é pré-lógico?
J.-P. LAURANT. — No fim da vida, Lévy-Bruhl renunciou ao pré-lógico.
P. LAVASTINE. — Queria dizer que a participação não é confusão nem caos, mas exatamente o contrário; é uma construção, uma tentativa de organizar o caos. Na Índia, a segunda nascença fez o homem passar do estado de Shûdra — as crianças também são Shûdras — da sombra às coisas. Do mesmo modo, no plano cosmogônico, é preciso distinguir duas criações: uma primeira, srishti, palavra derivada do radical srj, que significa a ejaculação em massa de milhões de sementes — isso não pode ser chamado criação, é o caos. Depois vem a verdadeira criação, Kri, de onde deriva o termo latino creare, que será realizada pelo brahman. Enquanto esse homem social não está constituído, há apenas uma multidão de seres, e segundo certos hebraístas, Adão era um ser coletivo. Quando foi criado do pó, pergunta-se se não o foi de um pó de indivíduos. A distinção fundamental deve ser feita entre os indivíduos e a “Grande Pessoa”.
A participação é um esforço para organizar o caos, reunir uma multidão de dados dispersos aos quais se conferirá um nome e uma forma. Por que a participação era possível outrora? Porque esses homens ainda não haviam inventado nossa ciência, que compartimenta e classifica fora de nós, enquanto os antigos queriam classificar e compartimentar, sim, mas dentro de nós, como órgãos em um corpo. Em outras palavras, o método da participação é retomado pela ciência fora do “englobante”. O homem está constituído, Purusha nasceu, há um segundo nascimento de um Homem coletivo.
Uma última observação sobre o Shûdra e a sombra. A cosmologia Bon, no Tibete, já antes do Budismo, dizia: “No princípio, só havia sombras; depois vieram as coisas.” A primeira criação, antes da iniciação, não são senão sombras. É poeticamente maravilhoso!
R. ALLEAU. — Porque as sombras tornar-se-ão depois os patterns, os modelos.
P. LAVASTINE. — Existem, portanto, essas três castas: Kshatriya, Vaishya e Shûdra. Quanto ao Brahmane, ele está fora da natureza — Dumézil fez o transcendente cair no imanente, reduziu o Brahmane a uma função social —, enquanto o Brahmane é também o âtman, que se situa acima do natural. Assim como o âtman, o Brahmane é a-natural. O âtman tem muitos nomes, mas, essencialmente, é o homem eterno, o homem imutável, aquele que nunca pode mudar e que permite à Índia possuir uma “cultura eterna”.
Aqui é preciso entender cultura como tudo o que se relaciona com o homem eterno; deve-se cultivar em si esse homem eterno por meio dos samskara. Costuma-se traduzir samskara por sacramentos — não é falso, mas também não é exato: é a mesma raiz de kri, em samskriti. Existem dois prefixos fundamentais em sânscrito: sam, que corresponde a um bloqueio de tudo em uma unidade, e vi, que é a difusão, a manifestação que espalha a multiplicidade.
A cultura (samskriti) edifica um homem samskrita, um homem completo. E um homem samskrita equivale a um homem salvus, isto é, um homem que reintegrou a totalidade do estado humano, porque se separou definitivamente da ideia de que ele, com seu corpo, é o alfa e o ômega. Para dizer “eu” em sânscrito, diz-se aham; ora, a é a primeira letra e ham a última. Pela sagração do chefe de família, que toma o lugar do pai, há sucessão; por essa sagração, o “pequeno sacre” do pater familias, ele é elevado à dignidade de “englobante”.
Mais uma coisa fundamental: sabe-se que toda a doutrina da Índia se resume no A U M. A é a não-relação com o universo, o afastamento dos dois mundos; depois U, semi-relação, o estado de sonho; enfim M, relação estreita, isto é, identificação, sono. Recordai-vos do ovo do mundo. Em relação ao espírito — Manas —, que vale mil, a matéria vale apenas dez. Essa matéria é a casca do ovo. E se não houvesse essa casca, não haveria o choque do espírito contra a concha, que cria a vida.
Eis a tríade fundamental da Índia: Manas, o espírito; Vac, que se pode traduzir por matéria, mas que é propriamente o latim vox, o som, porque o som é o primeiro entre as qualidades sensíveis. A partir do instante em que há som, toda a matéria aparece, toda a criação material aparece com Vac. Ora, Vac será identificado com Jâyâ, a esposa, a mãe. Para que possa haver comunicação entre Manas, o espírito, e Vac, a matéria, é necessário o sopro, o espírito vital, Prana.