Essas considerações conduzem ao problema crucial da obediência, tão essencial nas civilizações normais e tão pouco compreendida pelos modernos, que, contudo, a admitem sem dificuldade quando se trata da disciplina coletiva, ainda que, por vezes, em detrimento dos direitos espirituais mais elementares. A obediência é, por si mesma, um meio de perfeição interior, desde que esteja inteiramente enquadrada pela religião, como ocorre em todos os mundos tradicionais: nesse contexto, o homem deve sempre obedecer, de todo modo, a alguém ou a algo, ainda que seja unicamente à Lei sagrada e à consciência, se se tratar de um príncipe ou de um pontífice; nada nem ninguém é independente de Deus.
A subordinação das mulheres, das crianças, dos inferiores e dos servidores insere-se com absoluta naturalidade no sistema de múltiplas obediências que constitui a sociedade religiosa; a dependência do próximo pode ser um destino penoso, mas possui sempre um sentido religioso, assim como a pobreza, que implica, por sua própria natureza, um significado semelhante.
Do ponto de vista da religião, os ricos e os independentes nunca são, por definição, os felizes; não que a segurança e a liberdade não sejam, em uma sociedade desse tipo, elementos de felicidade, mas não o são, sempre do ponto de vista da religião, senão em conexão com a piedade e em função desta, o que remete novamente ao adágio de que a “nobreza obriga”. Quando a piedade existe à margem do bem-estar material e, ao contrário, a impiedade se alia a esse bem-estar, a verdadeira felicidade será atribuída à pobreza piedosa, não à riqueza ímpia; é uma pura calúnia pretender que a religião, como tal ou por meio de suas instituições, tenha estado sempre ao lado dos ricos.
Por um lado, a religião existe para transformar os homens que desejam deixar-se transformar, mas, por outro, deve tomar os homens tal como são, com todos os seus direitos naturais e seus defeitos coletivamente indestrutíveis, sob pena de não poder subsistir em meio humano.
Franz von Baader: FERMENTA COGNITIONIS
A doutrina de Jacob Boehme, porque inteiramente cristã, é radicalmente oposta a todas as doutrinas modernas da autonomia, quer dizer às doutrinas da legislação por si e do fundamento de si mesmo; este sapateiro afirma ao contrário que a primeira função do homem é de não se colocar mas de se extinguir em Deus e em e por esta afirmação de Deus somente, de atender, de ser afirmado, de ser expresso ou fundado por Deus ele mesmo e nEle. Se, portanto, estas doutrinas modernas são mais ou menos as escravas do espírito pagão da presunção, do orgulho e da insubordinação, ou igualmente da baixeza, a filosofia de Jacob Boehme não conhece, ela, outro espírito que aquele da humildade, da abnegação e da obediência no sentido do alto, e que se revela ao mesmo tempo por aí, no sentido do baixo, como o espírito de nobreza, de grandeza e de autoridade.