Pierre Gordon: A REVELAÇÃO PRIMITIVA
O homem não oferece tanto no mundo físico como no mundo do Real o mesmo caráter. No seio do universo físico, ele se apresenta como um ser animal-humano, incapaz de alcançar os seres e as coisas por uma outra via que aquela das impressões superficiais ou sensações. Por oposição, nomeamos ser humano-super-humano ou super-homem, o Eu que se move no domínio da matéria apreendida como radiante, dito de outro modo no universo do dinamismo ou universo energético. Este universo do ser ou do Real sendo aquele da sobrenatureza, a expressão de super-homem nos parece adequada, sob reserva que não se a contamine por referência inconsciente a outros sentidos, cujo grave equívoco de é de ser impreciso.
Como não existe e não pode existir senão um cosmo único, aquele do ser, o homem não detém a existência verdadeira senão no universo energético: é aí somente no reino da sobrenatureza, no estado de super-homem ou de ser humano-sobre-humano que possui seu nível normal. Em sua condição presente, no estado animal-humano, só tem a aparência da existência; é um ser deficiente, posto que seu pensamento não se junta diretamente ao que é. Insistimos sobre este ponto, dizendo que o homem atual é, por essência, teratológico: é, verdadeiramente, um monstro cósmico. Por definição, não pode jamais, no universo físico, ser uma criatura normal, posto que a existência, que seu pensamento postula, lhe escapa inevitavelmente por transformação em devir; em sua situação animal-humana, é um Eu que persegue sem cessar o ser, mas não pode jamais o abraçar e a ele se integrar.
No curso de milênios, para ajudar o homem a se liberar do aprisionamento espaço-temporal e a se incorporar ao mundo da matéria apreendida como dinâmica ou radiante, se manteve e se difundiu o ritual de morte e de ressurreição: se afirma assim indispensável morre para a morte, quer dizer para o mundo das impressões sensoriais (que é, por definição, aquele da morte) para ressuscitar no mundo do ser, onde se extingue todo o devir. Este ritual, que forma a substância de todas as religiões, é igualmente chamado ritual iniciático. Não damos, de nossa parte, ao vocábulo iniciação, nenhum sentido hermético ou esotérico. Não cremos, por outro lado, que possa se perpetuar a iniciação autêntica por fora das religiões positivas, que dela constituem o veículo histórico. Isolar a iniciação sob pretexto de possuí-la no estado puro e de reservá-la a uma elite, é deixar cedo ou tarde o domínio do concreto e da vida. Empregamos portanto a palavra unicamente com seu sentido etimológico, e sem jamais recorrer a nenhum ocultismo: a iniciação é o início (initium) da vida nova, deste crescimento da alma, pelo qual o pensamento se desprende da aparência da existência, para penetrar no (in-ire) o império transcendente da existência verdadeira ou existência plena (v. Plenitude).
Julius Evola: Introdução a «Mundo Mágico dos Deuses»
A ideia segundo a qual o sobrenatural é uma realidade, a realidade absoluta e verdadeira, da qual toda a realidade natural e sensível depende quase como o corpo da alma — e a ideia que,não no sentido impuro, luciferiano ou retórico, do «super-homem» moderno, mas segundo o sentido sacral e iniciático da Tradição, certos homens podem destruir a natureza humana e se realizar «solarmente» no hipersensível — estas duas pressuposições, por conseguinte, fizeram que entre a «Ciência heroica», entre a «Ciência Sagrada dos Chefes» e a «Magia», em um sentido superior, se estabelecesse sempre uma conexão natural. Aquele que interiormente pertence não ao mundo mas ao «hipermundo» — à hyperkosmia — pode dominar o mundo, as coisas, a natureza, as pessoas, não do exterior, mas do interior — pela via «metafísica» — através de sua própria superioridade, que é poder; pode operar o «prodígio» evidente e claramente; pode encarnar esta função de mediação sobrenatural, compreendida na significação originária e simbólica tradicional da palavra pontifex: o «fazedor de pontes», aquele que serve de ponte entre este mundo e o outro mundo, e que é portanto como uma via — arcaicamente, pons significava «via» — ao longo da qual influências superiores podiam se imprimir, invisivelmente e eficazmente, nos pensamentos, nas ações e no destino dos homens e das nações.