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id da página: 10735 Georges Vallin – A Perspectiva Metafísica – Prefácio

Vallin Perspectiva Metafisica Prefacio

Prefácio

  • Prefácio à Segunda Edição de "A Perspectiva Metafísica"

    • A publicação da primeira edição de "A Perspectiva Metafísica" em 1959 como tese complementar do Doutoramento de Estado em Filosofia defendido na Sorbonne.
    • O reconhecimento por um autor de que esta tese de doutoramento foi, acredita-se, a primeira de inspiração guenoniana.
    • A necessidade de precisar os laços que unem o trabalho desenvolvido ao longo de vinte anos no quadro universitário à obra de René Guénon.
    • O mérito imenso de Guénon em abrir um espaço intelectual radicalmente novo e propriamente "revolucionário" para o filósofo que se era.
    • O caráter revolucionário deste espaço intelectual precisamente porque se coloca do ponto de vista daquilo que Guénon chama a Tradição.
    • A concepção de que nada é menos "conservador" do que esta abertura ao horizonte tradicional tal como Guénon o define.
    • A obrigatoriedade imposta por esta abertura de lançar um novo olhar sobre as produções ideológicas e os tiques mentais do pensador ocidental, com os pressupostos e as pulsões que eles veiculam.
    • A avaliação da crítica marxista ao mundo capitalista e da crítica nietzschiana ao niilismo ocidental como muito menos "subversivas" do que a crítica guenoniana do mundo moderno.
    • A possibilidade de situar esta crítica a dois níveis distintos.
  • Os Dois Níveis da Crítica Guenoniana

    • A primeira forma da crítica como um apelo à tradição para contestar a modernidade, assumindo a forma de uma condenação.
    • A aparência do mundo moderno como uma perversão à qual convém opor-se em nome de uma exigência ética.
    • A possibilidade de um certo "guenonismo" conduzir a um apego intempestivo e não razoável a formas passadas e propriamente ultrapassadas, em nome da Tradição.
    • A distinção entre estruturas sociais e políticas, por um lado, e símbolos ou ritos instituídos pelas grandes tradições espirituais, por outro.
    • A evidência de que símbolos e ritos, como os da tradição católica ou da Franco-maçonaria, constituem, enquanto subsistirem as condições do seu exercício, instrumentos privilegiados de vida e de realizações espirituais para o homem de hoje.
    • A inclinação natural que leva a um tradicionalismo propriamente reacionário e "reativo", retomando uma expressão nietzschiana.
    • A preocupação visível de parte da obra guenoniana em lutar contra as aberrações da modernidade que denuncia.
    • A aparência prática destas aberrações como acidentes monstruosos e lamentáveis que era possível evitar, ainda que não em todo o rigor doutrinal.
    • O reconhecimento da vigor da condenação como uma instância necessária da crítica, tal como a recusa das seduções do mundo é um momento necessário no caminho espiritual.
    • O grande risco de o tradicionalista se imobilizar num reflexo de recuo e inibição, numa negação de exclusão, numa crispação moralizadora, apaixonada e muito ocidental, face à modernidade.
    • O segundo nível da crítica, análogo ao movimento de regresso ao mundo no caminho espiritual, que conduz o pensador tradicional a discernir a necessidade da passagem que leva de uma civilização tradicional à modernidade e às suas aberrações.
    • A importância crescente deste segundo nível à medida que se acelera a dissolução das formas que Guénon tão vigorosamente pôs em evidência.
    • A inscrição das aberrações aparentes do "reino da quantidade" no processo de decomposição que caracteriza o fim do ciclo atual, segundo a doutrina tradicional retomada por Guénon.
    • A dimensão de necessidade que estas aberrações comportam, podendo conduzir a compreender a sua secreta justificação.
  • A Sabedoria Não-Dualista e a Compreensão da Modernidade

    • O papel indispensável que as revoltas modernas e contemporâneas contra as formas culturais, sociais e políticas de tipo tradicional podem parecer desempenhar no esgotamento das últimas possibilidades deste ciclo.
    • O condicionamento, por este fato, do advento de um ciclo novo.
    • A impossibilidade de uma sabedoria não dualista, de inspiração xivaíta, se limitar ao desprezo ou ao ódio moralizador daquilo que é antitradicional na modernidade.
    • A necessidade, para esta sabedoria, de um esforço de compreensão e de abertura aos aspectos mais traumáticos da modernidade.
    • A não implicação, para o não-dualista, de sucumbir às ilusões progressistas que se encontram aliás largamente desmistificadas atualmente pelo curso da nossa história.
    • A capacidade do não-dualista em discernir, com os marxistas, um sentido da história, sem cair na ilusão de que se trata de um progresso.
    • A percepção da sociedade sem classes visada pelo marxismo como fundada sobre uma forma sem dúvida metaforicamente caricatural da justiça, mas sobre uma forma real.
    • A possibilidade de esta forma ser a única compatível com as condições do fim da "idade sombria".
    • A analogia impressionante entre a sociedade sem classes para a qual tende o marxismo e a mistura das castas no fim da idade sombria (Kali Yuga) segundo o Hinduísmo.
    • A capacidade de ver que a luta contra a instauração desta última forma de justiça se baseia talvez na vontade feroz de conservar uma ordem social violenta e injusta.
    • O distanciamento do pensamento tradicional, considerado no rigor das articulações teóricas e da linguagem legada por Guénon, tanto de um conservadorismo reacionário como das ilusões progressistas.
    • A camuflagem, por parte do conservadorismo reacionário, do seu medo da mudança e da perda de privilégios atrás da máscara de uma defesa da Tradição.
  • O Pensador Tradicional e a Perspectiva Metafísica

    • A possibilidade de o pensador tradicional que toma consciência das implicações essenciais do Não-Dualismo ser o contrário de um tradicionalista no sentido ordinário do termo.
    • A admissão e compreensão, em nome da essência da Tradição e com todas as ilusões abolidas, da necessidade de formas novas.
    • A legitimidade, para um Não-Dualista, das lutas revolucionárias que visam suprimir injustiças sociais escandalosas abrigadas atrás de instituições tradicionais que tendem a ser "superstições".
    • A compreensão da inevitável destruição de todas as formas.
    • O conhecimento do caráter finalmente ilusório e metaforicamente equivalente de todas as formas, rigorosamente nulas perante o Infinito.
    • A capacidade de ver em todas as formas, incluindo as de uma civilização não tradicional, uma manifestação e um reflexo do "Princípio".
    • A legitimidade de denunciar as contrafações e as imposturas, mas a necessidade igual de compreender a necessidade destas últimas.
    • O abandono da atitude frequentemente demasiado rígida e passionais que o tradicionalista comumente ostenta face às contrafações e imposturas, em nome da Tradição.
    • A citação do Eclesiastes: "Um cão vivo vale mais do que um leão morto".
    • A capacidade do Não-Dualista, de acordo com o simbolismo chinês do Yin-Yang, de discernir o ponto branco que reflete o "Yang" na superfície negra do "Yin", figurando as últimas possibilidades do fim da "Idade Sombria".
    • A obrigatoriedade, para o pensamento não dualista, de comportar uma atitude integrativa que, longe de condenar ou rejeitar "as aberrações" da modernidade, as integra no horizonte ilimitado que é o seu.
    • A possibilidade de, através desta atitude, delimitar estas aberrações de uma maneira ao mesmo tempo forte e nova.
    • A constituição desta atitude integrativa na dimensão "subversiva" de um pensamento de tipo tradicional, tal como se pode ter o desejo e a ambição de o fazer funcionar hoje, depois de Guénon, no contexto da modernidade.
  • A Noção Chave da Metafísica e a sua Atualidade

    • A preferência pela noção chave de "metafísica" sobre a de "tradição", devido às equívocas que esta última permite entreter.
    • A manutenção desta preferência apesar da hipoteca que pesa sobre a noção de "metafísica".
    • A consciência perfeita, enquanto filósofo, da insolência testemunhada, aos olhos dos defensores das ideologias dominantes de hoje, pelo regresso deliberado a esta noção gasta e desacreditada de "metafísica".
    • A justificação e a necessidade desta insolência mais do que nunca.
    • A incomensurabilidade entre o que, seguindo Guénon, se chama "metafísica" e o que a tradição filosófica ocidental, inaugurada por Aristóteles, entende por este termo.
    • A recordação de que é nas doutrinas não dualistas da Ásia que a "Metafísica" oferece as suas formulações mais coerentes e explícitas.
    • A proposta de chamar "a Perspectiva metafísica" a este entendimento.
    • A percepção de que a Perspectiva metafísica estabelece com os aspectos mais característicos da Modernidade uma relação de iluminação recíproca que justifica amplamente a sua pertinência e atualidade.
  • O Não-Dualismo e a Compreensão do Nihilismo Contemporâneo

    • A capacidade do não-dualismo metafísico de dar razão, de forma não residual, do niilismo que se encontra no coração do pensamento contemporâneo.
    • A compreensão, na sua ótica, de como a nossa cultura, modelada pelo aristotelismo e pelo monoteísmo judaico-cristão, e fundada na afirmação da realidade do ego, foi progressivamente constrangida a pôr em relevo o nada ou o poder de negação no estado puro que se encontra na raiz do ego.
    • A possibilidade oferecida pela Perspectiva metafísica de apreender a necessidade desta aniquilação que é o suporte ontológico e histórico da dissolução progressiva das formas.
    • A ajuda da Perspectiva metafísica em delimitar com rigor a presença invasora deste nada, negado e recalcado tanto pelos epígonos de Nietzsche como pelo cientismo estruturalista.
    • A validade mantida das afirmações feitas em 1959 neste livro.
    • A identificação, por Sartre em "O Ser e o Nada", do "Para-si" e do "Nada" como tendo visado, acredita-se, o termo do processo de dissolução que define a modernidade.
    • A consideração das filosofias atuais, incluindo a segunda filosofia de Sartre, como regressões aquém deste niilismo radical.
    • A ajuda do Não-Dualismo em delimitar a necessidade deste eclipsar do homem para baixo, analogicamente inverso do eclipsar para o alto visado pelas técnicas espirituais das sabedorias não dualistas.
  • A Abertura Espontânea ao Não-Dualismo na Modernidade

    • A possibilidade de esta aniquilação de fato, mascarada e recalcada pela agitação tecnocrática e pelos delírios progressistas contemporâneos, conduzir hoje a uma abertura natural e espontânea ao Não-Dualismo metafísico.
    • A fascinação por vezes duvidosa mas significativa exercida cada vez mais, na América como na Europa, pelas doutrinas da Ásia tradicional.
    • A proximidade do Nada, pressuposta pelo menos implicitamente pelas doutrinas contemporâneas da "morte de Deus" e da "morte do homem", como uma possibilidade notável de abertura ao que Guénon chama o Não-Ser.
    • A identificação do Não-Ser com o Absoluto transpessoal que se encontra no coração do Não-Dualismo metafísico.
    • A condição para o despertar do sentido do Não-Ser: que este "nada", objeto de uma angústia recalcada ou de uma afirmação ilusória, seja contemplado e integrado no Universal.
  • A Atualidade das Formulações Metafísicas Asiáticas

    • A maior atualidade das formulações metafísicas de um Shankara ou de um Nagarjuna face às ladainhas soporíferas da escolástica freudo-marxista.
    • A possibilidade oferecida por estas formulações de encarar de forma muito mais radical a desmistificação das ilusões "humanistas".
    • A iluminação, através destas formulações, dos pressupostos ideológicos sobre os quais se funda o etnocentrismo ocidental que inspira esta escolástica e as ideologias que ela ataca.
    • A inibição e a má consciência da filosofia ocidental perante os imperativos de uma ideologia política que proclama a necessidade de transformar o mundo em vez de o interpretar.
    • A sensação de impotência da filosofia face à onipotência das ciências, da qual a filosofia pode sonhar ser, no seu masoquismo, a modesta serva.
    • A urgência para a filosofia de tomar distância e liberdade face a estes terrorismos tranquilizadores.
    • A necessidade de a filosofia se voltar, libertando-se do seu etnocentrismo cultural, para os modelos teóricos elaborados pelo Não-Dualismo nas suas formulações mais características.
    • A inscrição natural desta abertura na lógica do desenvolvimento da modernidade.
    • O convite da modernidade para conhecer as doutrinas formuladas com esplendor e rigor pelas tradições metafísicas da Ásia, para lá do amadorismo exótico ou erudito.
    • A compreensão, por parte do filósofo, de que o que combatia atrás da palavra "metafísica", seguindo Kant, Nietzsche ou Marx, era apenas uma caricatura da verdadeira "metafísica".
  • A Tarefa da Filosofia Comparada

    • A oferta de uma tarefa importante e nova à reflexão filosófica na abordagem dos modelos teóricos do Não-Dualismo e na análise crítica que eles permitem efetuar sobre as categorias filosóficas ou teológicas do pensamento ocidental.
    • A proposta de chamar "filosofia comparada" ao conjunto das tarefas que, em função da abordagem dos modelos teóricos do Não-Dualismo, se podem apresentar aos filósofos.
    • A tarefa primordial da filosofia comparada como sendo a análise destes modelos teóricos a partir de textos fundamentais.
    • O apego sobretudo aos textos indianos, hindus e budistas, dos quais se podia ter a versão sânscrita.
    • A menção de obras importantes para uma abordagem destes modelos teóricos e a sua interpretação.
    • O inventário racionalizado dos erros de interpretação nos quais o nosso etnocentrismo ideológico arrisca cair.
  • Objetivos da Filosofia Comparada

    • A orientação da filosofia comparada para o objetivo de um confronto das diferentes expressões asiáticas da perspectiva metafísica.
    • A realização de comparações entre formulações orientais e formulações ocidentais de tipo não dualista.
    • A medição do afastamento entre expressões mais lacunares, como as de alguns pré-socráticos ou neoplatônicos, e as expressões mais completas e rigorosas das formulações asiáticas.
    • O interesse em desenvolver a comparação entre a teoria lacunar da matéria inteligível em Plotino e a doutrina da Maya no Advaita Vedanta.
    • A condução de um segundo tipo de procedimento a uma comparação no interior de um mesmo contexto cultural ou tradição espiritual entre formulações de inspiração não dualista e doutrinas que se lhes opõem.
    • A abertura de novas perspectivas sobre as limitações constitutivas do monoteísmo proporcionada pela refutação do não-dualismo shankariano por Ramanuja.
    • O esclarecimento considerável dos aforismos de Heraclito à luz de certas formulações budistas do Não-Dualismo.
    • A iluminação sobre o nascimento da onto-teologia ocidental a partir da crítica aristotélica da teoria das Ideias de Platão.
    • O fornecimento, pela referência aos modelos não dualistas, de uma nova grelha de leitura das produções ideológicas do Ocidente e da sua história.
    • A consideração da dialética hegeliana como uma inversão caricatural de certas formulações não dualistas.
    • O papel da doutrina sartriana do Nada como veículo e ponto de partida possíveis para uma abordagem destes modelos.
    • A clarificação proporcionada pelo Não-Dualismo asiático sobre o devir dos sistemas ideológicos do Ocidente e sobre a passagem do pensamento tradicional às várias etapas da modernidade.
    • A aparência do Deus pessoal do monoteísmo esotérico, face ao Absoluto transpessoal do Advaita Vedanta ou do Mahayana, não como objeto supremo do pensamento religioso, mas como a primeira etapa da "morte de Deus".
    • A possibilidade de o Não-Dualismo ser o ponto de partida de uma verdadeira filosofia da história dos sistemas filosóficos.
  • O Impacto da Filosofia Comparada

    • A ajuda da filosofia comparada, pela sua análise dos modelos teóricos do Não-Dualismo, em produzir uma nova posta em perspectiva das doutrinas e da sua história.
    • A geração de problemáticas novas concernentes às categorias sobre as quais se fundam as ideologias dominantes sucessivas da nossa cultura.
    • A revolução copernicana constituída pela abertura aos modelos não dualistas, que deslocam os limites que o Ocidente atribuía à ontologia e à teologia.
    • O rebuliço das relações clássicas entre a natureza e Deus.
    • A perda de objeto das tentativas de desmistificação da ilusão religiosa de um Feuerbach, de um Nietzsche ou de um Freud, em presença do Absoluto transpessoal do Não-Dualismo.
    • A necessidade de mostrar como o anti-humanismo residual e polêmico, que constitui hoje uma das últimas modas do pensamento filosófico, só toma todo o seu sentido à luz do Não-Humanismo ou do Trans-humanismo.
    • A oferta, pelas doutrinas do Zen, do Taoismo ou do Advaita Vedanta, da superação decisiva do antropocentrismo ocidental.
    • A contribuição da filosofia comparada para libertar o pensador ocidental do seu etnocentrismo e do seu imperialismo ideológico.
    • A abertura da filosofia comparada não só para o alargamento do horizonte cultural do historiador da filosofia, mas para uma verdadeira mutação do próprio pensamento filosófico.
    • O desejo de Heidegger, até à sua morte, pelo advento desta mutação, quando chamava o pensador de hoje a abrir-se um "caminho para o Ser".