Ascetismo e Misticismo
Tanquerey: COMPÊNDIO DE TEOLOGIA ASCÉTICA E MÍSTICA
O que carateriza a via purgativa, ou o estado dos principiantes, é a purificação da alma, no intuito de se chegar à união íntima com Deus.
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A perfeição consiste essencialmente na união com Deus pela caridade. Como porém, Deus é a mesma santidade, não é possível ter união com Ele, sem possuir a pureza do coração, que compreende um duplo elemento, a expiação do passado e o desapego do pecado e daí suas ocasiões para o futuro.
A purificação da alma é pois, a primeira tarefa que se impõe aos principiantes.
Pode-se até acrescentar que a alma se unirá tanto mais intimamente com Deus quanto mais pura e desprendida for. Ora a purificação será mais ou menos perfeita, consoante os motivos que a inspirarem e os efeitos que produzir.
A) A purificação será imperfeita, se for inspirada sobretudo por motivos de temor e de esperança, temor do inferno e esperança do céu e dos bens celestes. Os seus resultados são incompletos: claro que a alma renuncia ao pecado mortal, que a privaria do céu, mas não se desprende das faltas veniais, até mesmo deliberadas, porque estas não impedem a eterna salvação.
B) Há, pois, uma purificação mais perfeita, que, sem excluir o temor e a esperança, tem por motivo principal o amor de Deus, o desejo de Lhe agradar, e, por isso mesmo, de evitar tudo quanto o ofenda, ainda mesmo levemente. É então que se verifica a palavra do Salvador à pecadora do Evangelho: «São-lhe perdoados os seus numerosos pecados, porque ela amou muito».
É a esta segunda purificação que devem aspirar as almas generosas; o diretor, porém, não esquecerá que muitos principiantes não são capazes de se elevar a essas alturas desde o começo, e, com insistir muito no amor de Deus, não deixará de propor os motivos de temor e esperança que atuam mais fortemente sobre essas almas.
Conhecido o fim, trata-se de determinar os meios necessários para o atingir. Esses meios reduzem-se afinal a dois: a oração, que nos obtém a Gratia e a mortificação, pela qual correspondemos a ela. Mas a mortificação toma diferentes nomes, segundo os aspectos sob os quais se considera: chama-se penitência, quando nos leva a expirar as faltas passadas; mortificação propriamente dita, quando se opõe ao amor do prazer, para diminuir o número das faltas no presente e no futuro; luta contra os pecados capitais, quando combate as tendências profundas que nos arrastam ao pecado; luta contra as tentações, quando resiste aos assaltos dos nossos inimigos espirituais.
Todos estes meios supõem evidentemente a prática das virtudes teologais e morais no primeiro grau: não é possível orar, fazer penitência, dar-se à mortificação, sem crer firmemente nas verdades reveladas, sem esperar os bens do céu e amar a Deus, sem se exercitar na prudência, na justiça, na fortaleza e na temperança. Nós, porém, não trataremos dessas virtudes senão na via iluminativa, onde elas atingem o seu pleno desenvolvimento.