Thomas Merton: AÇÃO E CONTEMPLAÇÃO
Filosofia
Hannah Arendt: A CONDIÇÃO HUMANA
A expressão vita activa, compreendendo todas as atividades humanas e definida do ponto de vista da absoluta quietude da contemplação, corresponde, portanto, mais à askholia grega («ocupação», «desassossego») com a qual Aristóteles designava toda atividade, que ao bios politikos dos gregos. Já desde Aristóteles, a distinção entre quietude e ocupação, entre uma abstenção quase estática de movimento físico externo e de qualquer tipo de atividade, é mais decisiva que a distinção entre os modos de vida político e teórico, porque pode vir a ocorrer em qualquer um dos três modos de vida. E como a diferença entre a guerra e a paz: tal como a guerra ocorre em benefício da paz, também todo tipo de atividade, até mesmo o processo do mero pensamento, deve culminar na absoluta quietude da contemplação.1 Todo movimento, os movimentos do corpo e da alma, bem como o discurso e o raciocínio, devem cessar diante da verdade. Esta, seja a antiga verdade do Ser ou a verdade cristã do Deus vivo, só pode revelar-se em meio à completa quietude humana.2
Tradicionalmente, e até o início da era moderna, a expressão vita activa jamais perdeu sua conotação negativa de «in-quietude», nec-otium, a-skholia. Como tal, permaneceu intimamente ligada à distinção grega, ainda mais fundamental, entre as coisas que são por si o que são e as coisas que devem ao homem a sua existência, entre as coisas que são physei e as coisas que são nomo. O primado da contemplação sobre a atividade baseia-se na convicção de que nenhum trabalho de mãos humanas pode igualar em beleza e verdade o kosmos físico, que revolve em torno de si mesmo, em imutável eternidade, sem qualquer interferência ou assistência externa, seja humana ou divina. Esta eternidade só se revela a olhos mortais quando todos os movimentos e atividades humanas estão em completo repouso. Comparadas a este aspecto da quietude, todas as diferenças e manifestações no âmbito da vida ativa desaparecem. Do ponto de vista da contemplação, não importa o que perturba a necessária quietude; o que importa é que ela seja perturbada.
Tradicionalmente, portanto, a expressão vita activa deriva o seu significado da vita contemplativa; sua mui limitada dignidade deve-se ao fato de que serve às necessidades e carências da contemplação num corpo vivo.3 O cristianismo, com a sua crença num outro mundo cujas alegrias se prenunciam nos deleites da contemplação,4 conferiu sanção religiosa ao rebaixamento da vita activa à sua posição subalterna e secundária; mas a determinação dessa mesma hierarquia coincidiu com a descoberta da contemplação (theoria) como faculdade humana, acentuadamente diversa do pensamento e do raciocínio, que ocorreu na escola socrática e que, desde então, vem orientando o pensamento metafísico e político de toda a nossa tradição.
NOTAS: