Frithjof Schuon: A ESCATOLOGIA UNIVERSAL
A condição humana é, em efeito, a porta para o Paraíso: para o Centro cósmico que, conquanto faça parte do Universo manifestado, situa-se, contudo — mercê da proximidade magnética do Sol divino —, para além da rotação dos mundos e dos destinos, e, por isto, para além da «transmigração». E por isto «o nascimento humano é difícil de conseguir», segundo um Texto hindu; para convencer-se disto, basta considerar a incomensurabilidade entre o ponto central e os inumeráveis pontos da periferia.
Há almas que, plena ou suficientemente conformes à vocação humana, adentram diretamente o Paraíso: são, já os santos, já os santificados. No primeiro caso, são as grandes almas iluminadas pelo Sol divino e dispensadoras de raios benfazejos; no segundo caso, são as almas que, não possuindo nem defeitos de caráter nem tendências mundanas, estão livres — ou libertadas — de pecados mortais e estão santificadas pela ação sobrenatural dos meios de Gratia de que fizeram o seu viático. Entre os santos e os santificados, existem, sem dúvida, possibilidades intermédias, mas só Deus é Juiz de sua posição e sua hierarquia.
Não obstante, entre os santificados — os salvos por santificação a um só tempo natural e sobrenatural 1
—, existem alguns que não são suficientemente perfeitos para poderem adentrar diretamente o Paraíso; hão de aguardar, portanto, a sua maturidade em um lugar que alguns teólogos qualificaram de «prisão honrosa», mas que na opinião dos amidistas é mais do que isto, posto que, afirmam eles, este lugar se situa no Paraíso mesmo; comparam-no a um casulo de loto dourado, que se abre quando a alma está madura. Este estado corresponde ao «limbo dos pais» (limbus = «borda») da doutrina católica: os justos da «Antiga Aliança», segundo esta perspectiva mui particular, encontravam-se nele antes da «descida aos infernos» de Cristo-Salvador 2
; concepção antes de tudo simbólica, e mui simplificadora; mas perfeitamente adequada no que tange ao princípio, e inclusive literalmente verdadeira em casos que não compete definir aqui, dada a complexidade do problema.
Evola Doutrina do Despertar
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É assim que "os filhos nobres movidos pela confiança" reconhecem a sua vocação e vêm a apreender a "busca ariana": "Assim, ó discípulos, um homem, ele próprio sujeito ao nascimento, observando a miséria desta lei da natureza, busca aquilo que é sem nascimento, a segurança incomparável, a extinção; ele próprio sujeito ao envelhecimento, observando a miséria desta lei da natureza, busca aquilo que é sem envelhecimento, a segurança incomparável, a extinção; ele próprio sujeito à morte, observando a miséria desta lei da natureza, busca aquilo que é sem morte, a segurança incomparável, a extinção; ele próprio sujeito à dor e à agitação, observando a miséria desta lei da natureza, busca aquilo que é sem dor, o sem agitação, a segurança incomparável, a extinção; ele próprio sujeito à mancha, observando a miséria desta lei da natureza, busca aquilo que é sem mancha, a segurança incomparável, a extinção. Isto, ó discípulos, é a busca ariana."
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Voltando ao problema da determinação das vocações, dissemos que a pedra de toque consiste na identificação ou não identificação de si mesmo com toda uma hierarquia de modos de ser, e o ponto de partida — anatta — já foi implicitamente indicado.
- Não identificação de si mesmo não apenas com a materialidade, com o sentimento, com a percepção, com as formações, mas não identificação também com a própria consciência, se considerada como consciência individualizada — ou seja, a superação da crença na "personalidade", attanuditthi, e na sua persistência — este é o primeiro teste colocado à natureza nobre.
- Permanecer nesta crença é um sinal de uma forma de "ignorância" (a "ignorância" cuja base transcendental, na gênese condicionada, é vinnana) e de estar sujeito a uma das "cinco amarras inferiores".
- Coloca-se a si mesmo a uma distância até haver a sensação de que a própria pessoa é um simples instrumento de expressão, algo contingente que a seu tempo se dissolverá e desaparecerá na corrente samsarica, sem que o núcleo supramundano, olímpico, em nós mesmos seja no mais ínfimo grau prejudicado.
- A doutrina da inessentialidade da pessoa, do "eu" psicológico e passional, deve então resultar numa mente que se torna pacificada, serena, elevada, clarificada.
- Não deve ser uma causa de consternação, mas uma fonte de força superior.
- Diz-se que apenas o homem que experimentou esta doutrina tem força suficiente para atravessar a corrente turbilhonante e chegar à outra margem em segurança; um homem fraco, que é incapaz disto, é aquele cuja mente não foi liberta pelo funcionamento da doutrina.
- Portanto: a consciência não deve ser considerada como o próprio eu, nem o próprio eu como possuído de consciência, nem a consciência como no próprio eu, nem o próprio eu como na consciência — tal como não se deve assim considerar os outros khandha: sentimento, percepção e as formações.