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id da página: 2438 Evangelho de Tomé - Logion 17

Evangelho de Tomé - Logion 17

Jesus disse: os darei o que o olho não viu, o que a orelha não ouviu e o que a mão não tocou, nem chegou ao coração do homem. Roberto Pla


(Paulo Apóstolo, ao repetir este logion, o termina dizendo: “o que Deus preparou para os que o amam”).


Evangelho de Jesus:

  • Mas, como está escrito: As coisas que o olho não viu, e o ouvido não ouviu, E não subiram ao coração do homem, São as que Deus preparou para os que o amam. (1Co 2:9)
  • Porque desde a antiguidade não se ouviu, nem com ouvidos se percebeu, nem com os olhos se viu um Deus além de ti, que opera a favor daquele que por ele espera. (Is 64:4)


Roberto Pla
O logion não usa figura alguma para descrever a invisibilidade da realidade "oculta". Estes olhos que não veem, assim como o ouvido que não ouve e a mão que não toca, são os órgãos dos sentidos manifestos, os quais, certamente, não estão dotados para receber a glória resplandecente de Deus.

Para que esta glória seja percebida na consciência é preciso que antes se tenha banhado o coração em um batismo de consistente em crer no Filho do homem enquanto essência eterna, crença que há que se alcançar em plenitude, até a identidade total da consciência e do Filho do homem.

O princípio deste caminho o explica Jesus: “Não te disse que se crês verás a glória de Deus?” (Jo 11,40). Essa é a que “ganharam” os discípulos, e por isso se disse: “Ditosos os olhos que veem o que veis” (Lc 10,23). Os olhos que neles viam foram abertos pela fé no Filho do homem e não eram esses os olhos segundo a carne, senão outros mais profundos, ocultos, feitos da mesma glória invisível que circunda o Filho do homem. Segundo dizem os sinópticos, muitos profetas não alcançaram essa que abre os olhos interiores e por isso se diz deles no evangelho: “quiseram ver o que veis e não o viram e ouvir o que ouvis e não ouviram” (Mt 13, 17; Lc 10,24).

Paulo Apóstolo escreve que essa glória, para receber a qual se abrem os olhos interiores dos que creem, foi “preparada por Deus para os que o amam e nisso coincide o apóstolo com os sinópticos quando estes dizem: “Verão o Filho do homem vir em uma nuvem com grande poder e glória”.

Há uma ordem sagrada de preleção no ver e no ouvir dos olhos e ouvidos ocultos, e que vai desde a nuvem até o poder e a glória, e desde estas ao Filho do homem; e não convém descuidar da aparição desta ordem pois descreve três passos consecutivos da realização interior. Primeiro, a nuvem, que, já o sabemos, é a “densa nuvem sobre o monte”, dentro da qual esperou Moisés precursor de muitos, nos preliminares a sua teofania no Sinai (Ex 19,16). Algum tempo antes a nuvem havia sido descrita como a luminária grande, a coluna de nuvem, posta no firmamento por Deus para o domínio do Dia enquanto duraram as jornadas do deserto (Ex 13,21).

O que nos diz agora é que para os que o amam, e que creem porque o amam, foi preparada a nuvem por Deus como glória e poder repletos de luz e não como nuvem. Esta, a nuvem, é somente a capa superficial para que nela se habituem os olhos a seus lampejos, mas que mais tarde, vencida a névoa, se revela como glória resplandecente a quem soube nela se sustentar. Em muitos textos, a glória se descreve idêntica à sabedoria. Assim diz Paulo: “Uma sabedoria de Deus, misteriosa, oculta, (foi) destinada por Deus desde antes dos séculos (quer dizer atemporal, antes que o tempo existisse), para nossa glória” (1Co 2,7). (vide correlações com o tratado místico medieval Nuvem do Desconhecido)

A sabedoria de Deus é a glória de Luz do Filho do Homem, o homem mesmo em sua essência, em espírito; é “radiante e inacessível”, mas segundo está dito: “facilmente a contemplam os que a amam e a encontram os que a buscam” (Sabedoria 6,12). Mas não é o fruto de um esforço “segundo a carne”, senão que a acha por si mesmo quem se identifica com o Filho do homem até o ponto de ser “um só” com ele (Flp 3,8). Com isto se cumpre o que pede Jesus em sua Oração ao Pai: “Os que tu me destes, quero que onde eu esteja estejam também comigo, para que contemplem minha glória” (Jo 17,24).


Emille Gillabert

O olho não vê a luz em si mesma, ele só vê a matéria quando a luz a toca, ele não vê portanto senão a matéria iluminada. O ouvido percebe uma vibração sonora produzida por um movimento mecânico. A mão transmite sensações táteis, o coração expressa emoções: o conjunto assegura as funções de relação de um ser com seu ambiente. O conjunto é admiravelmente programado. Quem é o programador?

O cérebro preside às relações do indivíduo com seu meio e participa, graças ao sistema endócrino, da regulação das funções vegetativas; no homem, o intelecto supre em boa parte o instinto na organização, ou na destruição da vida. Somente, ele desconhece os limites de seu território e entra em conflito com seus semelhantes. A história dos homens e dos povos se resume frequentemente a conflitos de vizinhança ligados à estrutura psicossomática dos indivíduos e dos grupos.

O cérebro tem no entanto uma outra função, a de relé. Ele recebe e transmite o que vem de outro lugar. No entanto, a recepção e a transmissão só podem se fazer se o terreno for favorável, ou seja, se o cérebro estiver em bom estado de funcionamento, mas ao mesmo tempo perfeitamente desperto e tranquilo. Ele não pode receber e emitir o que o transcende a não ser que a memória e a imaginação estejam totalmente inoperantes. Então, não há mais afirmação, mas sacrifício da pessoa. Então cabe-me o que Jesus dá, ou seja, uma realidade interiormente pressentida que ele chama de Reino. Antes se estava no quantitativo, no mensurável, no afetivo, agora, a auscultação é qualitativa. É preciso uma atenção sustentada sem tensão, uma atenção sem objeto, portanto sem as imagens dos sentidos e da afetividade. A preguiça, ou simplesmente a inércia que frequentemente o atinge, é sentida como um desperdício, enquanto a atenção à Presença é realização na plenitude.

A pessoa tem dificuldade em acreditar que o Rei soberano do Reino eterno (logion 3) é o supremo programador não somente do movimento das galáxias, mas deste pequeno filme já em boa parte projetado que lhe causa no entanto tantas preocupações. Se ela soubesse se entregar ao que constitui sua Realidade essencial, como tudo seria simples! Ela receberia tudo o que Jesus quer dar. Bastaria que a mecânica cerebral cessasse sua corrida louca, constatando que ela gira em círculos.

São Paulo relata este logion sem indicar a fonte e sem fazer menção do tato (logion 2). O apóstolo tinha portanto conhecimento, por volta dos anos 70, do Evangelho segundo Tomé, ou ao menos deste logion (ver também notas do logion 53). Que ele cite Jesus, o fato é bastante raro para ser assinalado. Tanto mais que esta citação tende a provar a anterioridade do Evangelho segundo Tomé em relação aos evangelhos canônicos, cuja última redação remonta ao decorrer do século II.

Por outro lado, é preciso demandar os textos para procurar uma lembrança do logion nos sinópticos (Mt 13, 14-17; Lc 10, 23-24). Em contrapartida, uma palavra de João (9, 39) se junta ao espírito do logion: “Eu vim a este mundo para um juízo: para que vejam os que não veem e para que aqueles que veem se tornem cegos.”


Jean-Yves Leloup

O que Jesus vem nos propor não é da ordem do que o homem pode pensar, tocar, ver ou imaginar. Ele afirma a transcendência do Ser incriado. Dizer "eu conheço Deus" só pode ser presunção e mentira. Embora Deus se torne conhecido, ele permanece incognoscível.

O Evangelho de Tomé é a fonte de uma tradição como o Hesicasmo, que afirma tanto a natureza inacessível de Deus quanto o realismo da participação em seu Ser, daí a distinção de Gregório Palamas entre Essência e Energia... Não podemos conhecer o coração do Sol e, no entanto, podemos nos aquecer com seus raios. O paradoxo da Divinização: nem fusão nem separação.


Philippe de Suarez

O logion testemunha a preocupação de Jesus em nos conduzir do mundo visível para a realidade invisível. O texto paralelo em Mt cita Isaías longamente (Is 6,9-10); ao fazê-lo, muda o significado do logion primitivo, situando no mundo espaço-temporal o que pertence ao mundo sem imagens. Lc, escrevendo para os cristãos pagãos, evita a sobrecarga do Antigo Testamento, embora, como Mt, ceda à mesma tentação de exteriorizar.

Paulo (1Co 2:9) estava ciente desse logion, que ele cita. Como a Bíblia de Jerusalém (ed. 1973) não aproximou 1Co 2:9 do log. 17 de Ts? Isso indica: combinação livre de Is 64.3 e Jr 3.16, ou citação do apócrifo Apocalipse de Elias. De fato, nenhuma testemunha do Apocalipse de Elias encontrada até hoje inclui essa citação.