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id da página: 749 Evangelho de Tomé - Logion 2

Evangelho de Tomé - Logion 2

Jesus disse: O que busca não deve cessar de buscar até que encontre; quando encontre ficará estupefato e uma vez estupefato se maravilhará e reinará sobre o todo. (Roberto Pla)
Jesus disse: que aquele que busca não cesse de buscar até que encontre; e quando tiver encontrado, estará perturbado, e estando perturbado, estará maravilhado e reinará sobre o Todo. (Emile Gillabert)

Evangelho de Jesus: BUSCA (Mt 7,7-8; Lc 11,9-10)


Hermenêutica

Roberto Pla: BUSCA; DESCENDÊNCIA DE DAVI; ESPÍRITO DA VERDADE; EXTASIS; THAUMAZO; REINAR

O logion emprega dois vocábulos diferentes para descrever os dois estados graduais de consciência pelos quais se supõe necessário passar para culminar este processo de "nascimento do alto": “quando encontre — diz — (o que busca) ficará estupefato e uma vez estupefato se maravilhará” (em outras citações só se menciona a estupefação). Deve-se observar que o estado de estupor (gr. exiotemi), só se explica como uma diminuição notável das funções do intelecto, acompanhada as vezes da aparência de aniquilação total das mesmas, descrição que coincide com o êxtase, ou arrebatamento da alma que menciona um místico com Juan de la Cruz: “E fiquei não sabendo, toda ciência transcendendo”.

Sem dúvida, este “roubo” interior da consciência é produzido por um forte acontecimento interno que domina a atenção tão poderosamente que arrebata os sentidos e os suspende. A consciência fica então “roubada”, que neste caso se dá pelo alto encontro que suscita a chuva de fogo, a qual, como é sabedoria, cobre de luz e conhecimento pouco a pouco, sossegadamente a alma e desdobra diante dela um mundo insuspeito.


Emile Gillabert

  • As palavras de Jesus não são para os indiferentes, nem para os que se contentam com uma fé cega; também não são para o presunçoso.
  • As fases estão descritas no logion: apelo a conhecer o "estar perturbado", o "estar maravilhado", e o "reinar sobre o Todo".
  • Vide


Jean-Yves Leloup
O logion descreve as etapas principais da gnose e constitui um verdadeiro itinerário iniciático.

A primeira etapa é a BUSCA; a segunda, é a DES-COBERTA; a terceira, é a ESTUPEFAÇÃO decorrente; a quarta, é o MARAVILHAMENTO; a quinta, é o REINO, a presença do TODO, o grande REPOUSO.

Assim temos, na BUSCA, a clareza que aquele que busca deve estar sempre em demanda: a verdade se esconde para ser descoberta. « Eu sou um Tesouro Oculto que me revelei para ser descoberto », é dito na tradição sufi. Deus, como o diz o profeta, é um Deus Oculto, para nos convidar ao « grande jogo », à demanda.

Um velho rabino tenta fazer compreender isso a seu neto: « Quando brincas de "pique-esconde" com um amigo, imagina sua espera e sua tristeza, se ele se ele se esconde e que tu não o procuras com afinco ».

Deus se esconde e não o procuramos mais, abandonamos o jogo divino. Nossa vida no entanto só tem sentido no interior deste jogo, desta demanda.

O primeiro passo no caminho da iniciação, é portanto reencontrar o desejo do jogo, o gosto da demanda, se fazer buscador, e quando se descobriu, permanecer ainda em demanda a fim de descobrir sem cessar novas profundezas naquilo que foi descoberto.

A estupefação é devida ao reconhecimento do Ser que nos confunde, desestabiliza nosso Ego. O Despertar a esta outra dimensão põe em questão nosso olhar ordinário fundamentado em minha identificação com o corpo e, portanto, nos olhos corporais.

A experiência do Ser é uma reposição em questionamento de nosso olhar do mundo, condicionado pelo instrumento conceitual através do qual pensamos apreendê-lo. Esta relativização de nossos modos de percepção habituais não se dá sem causar confusão, estupefação, e, no entanto se aceitamos isso como uma etapa no Caminho, somos levados pouco a pouco ao Maravilhamento.


Philippe Suarez

LOGION 2

P. Oxyr. 654 n° 1

Mt 7.7-8 I/ Le ii.9-10

A palavra buscar, praticamente ausente dos canônicos, retornará muitas vezes ao longo dos 114 logia. Não é por um ato de fé que o Conhecimento nos é dado: ele se obtém por uma busca incansável que nos conduz de estupefação em maravilhamento até a união total.

Expostos no primeiro número dos Cadernos Metanoia os argumentos que nos conduzem a postular a anterioridade do copta em relação ao grego. Sinalizados simplesmente aqui que o autor da versão de Oxyrhynchus traduziu por um imperativo negativo: que não cesse de buscar, um copticismo construído com o negativo do verbo ter; lit.: para aquele que busca, não há que cessar de buscar (mesma construção: log., 62, v. 5). Ao contrário, o copta, dispondo da forma verbal do imperativo negativo, teria traduzido sem dificuldade a injunção do P. Oxyr. (cf. quadro V).

Além disso, convém notar que o final do texto copta e do P. de Oxyr. difere. Trata-se de um lado de reinar sobre o todo e do outro de descansar. O autor do texto grego, incomodado pela imagem do texto copta, procurou um substituto sob a influência dos Logion 51, v. 3; Logion 60, v. 17; Logion 90, v. 5 e da paronímia entre pauomai (cessar) e anapauomai (descansar). Na verdade, o final do texto copta está em conformidade com os log. Logion 67 e Logion 77 e leva naturalmente ao início do logion seguinte que trata do Reino. Exercer a realeza é reintegrar o estado real que foi de todo o tempo o nosso. Não se trata, claro, de uma realeza de ordem temporal (cf. Logion 81 e Logion 110).