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Escrituras

TRADIÇÃO — ESCRITURAS

Quanto às Escrituras sagradas, é muito certo que não se pode ver contradição entre elas senão na medida que não se as compreende. René Guénon


TEMAS AFINS: ESCRITURAS E TRADIÇÃO CHINESA; TRADIÇÃO ESCRITA E ORAL; TRADUÇÃO; HERMENÊUTICA


O grande Mestre Zen Kuei-shan perguntou ao seu aluno Yang-shan (que viria a se tornar um mestre igualmente grande), — Nos quarenta volumes do Sutra do Nirvana, quantas palavras vêm do Buda e quantas palavras vêm dos demônios?


Respondeu Yang-shan, — Todas elas são palavras dos demônios.

Disse-lhe então Kuei-shan, — Daqui por diante, ninguém mais conseguirá te passar a perna.

A mensagem de Deus aos homens, registrada pela escrita, é uma marca das chamadas “Religiões do Livro” (judaísmo, cristianismo, islamismo). Outras tradições têm suas escrituras de natureza revelada, relatando sua “história sagrada”, seus hinos de louvor, seus rituais, e até mesmo a direção espiritual e moral a ser seguida. No entanto, nas Religiões do Livro o que se denomina “Escrituras Sagradas” tem uma presença inigualável, que dou ênfase no que se reúne a seguir.

No tocante às escrituras ocidentais, como esclarece magistralmente o crítico literário Northrop Frye: "Em regra geral, um livro sagrado é escrito com uma concentração que é, pelo menos, aquela da poesia, de tal sorte que, como a poesia, depende estreitamente de sua língua. Por exemplo, o Corão e os caracteres particulares da língua árabe são de tal modo entrelaçados que na prática o árabe deve penetrar por toda parte onde tenha penetrado a religião islâmica. Os comentários e a erudição judaicas, de tendência talmúdica ou cabalista, sempre se ocuparam, inevitavelmente, dos traços puramente linguísticos do texto hebreu do Antigo Testamento. Ao contrário, enquanto a erudição cristã é evidentemente também consciente da importância da língua, o cristianismo, enquanto religião, foi desde o início tributário de traduções".



Forma e substância nas religiões

  • A distinção fundamental entre a aceitação reverente da perfeição intrínseca de um Texto Sagrado e a capacidade humana limitada de apreciá-la em sua totalidade.

    • O reconhecimento de que um texto, por ser sagrado, é perfeito em conteúdo e forma, mesmo quando passagens específicas parecem obscuras devido à ignorância do leitor.
    • A aceitação venerativa não exige hipocrisia piedosa, mas baseia-se em motivos reais, não no acato cego a erros de tradução ou interpretação.
  • A crítica à noção de um estilo «sobre-humano e inimitável» do Alcorão, entendida de forma puramente literária.

    • A crença comum entre muçulmanos sobre a inimitabilidade estilística (i'jaz) do Alcorão e as histórias de fracassos na tentativa de imitá-lo.
    • A refutação desta visão: a língua do Alcorão é humana, e a perfeição no plano literário não pode transcender os limites da linguagem humana.
    • A perfeição gramatical, sintática e a beleza poética insuperável são incontestáveis, mas não constituem um milagre único em si mesmas.
  • A identificação da verdadeira natureza miraculosa e inimitável do Alcorão.

    • A qualidade divina reside primariamente na riqueza polissêmica de significados, que é inimitável.
    • Reside, em segundo lugar, na «substância divina subjacente» perceptível através da expressão formal.
    • Esta substância manifesta-se pela eficácia mística e teúrgica dos versículos, pela expansão fulminante do Islã primitivo, pela estabilidade de suas instituições, pela fecundidade doutrinária e pela originalidade de sua arte.
    • É esta substância não-humana que explica a convicção «lítica» da fé islâmica.
  • A análise da expressividade diferencial no Texto Sagrado e a questão dos critérios formais para a proveniência divina.

    • O carácter privilegiado do Alcorão revela-se mais diretamente em passagens escatológicas ou metafísicas (como o Verso do Trono ou da Luz).
    • A questão crucial: existe um estilo de linguagem necessariamente divino?
    • A analogia com a beleza do Avatara: a beleza plástica é um ápice da beleza humana e racial; a beleza verdadeiramente sobre-humana manifesta-se na alma, na expressão e nas atitudes.
    • O fracasso dos que tentaram imitar o Alcorão deveu-se menos a uma impossibilidade literária e mais a uma realidade sobrenatural que invalidou seus esforços prometeicos.
  • A classificação das Escrituras Sagradas segundo a importância da língua original.

    • Escrituras onde a língua original é capital (Torá, Alcorão, Veda, possivelmente Tao Te Ching), proibindo ou restringindo a tradução para o uso canônico.
    • Escrituras onde o sentido se transmite diretamente através de imagens e pensamento (Evangelho, Livros Budistas), prevendo traduções para línguas vernáculas nobres.
    • A correlação: as do segundo grupo fundamentam-se numa humanização do Divino (impessoal no Budismo, pessoal no Cristianismo), enquanto as do primeiro grupo dão primazia à forma escriturística da Revelação.
  • Os requisitos para a compreensão detalhada das Escrituras do primeiro grupo.

    • O conhecimento das associações de ideias evocadas por termos nas línguas originais (hebraico, árabe, sânscrito).
    • O conhecimento das proposições implícitas e pressupostos, fornecidos pela tradição comentada.
  • A tipologia do simbolismo nas Escrituras.

    • Simbolismo direto, total e essencial: p. ex., erguer os olhos ao céu em oração, onde o «alto» representa diretamente a dimensão divina.
    • Simbolismo indireto, parcial e acidental: p. ex., os pássaros na parábola do semeador, que, por sua ação de roubar a semente, simbolizam o demônio, embora em si mesmos simbolizem estados celestes.
    • Simbolismo parcial e direto: p. ex., o zurro do asno comparado à voz de Satanás no Alcorão, onde o animal em si não está em causa.
  • A explicação de passagens aparentemente redundantes ou obscuras no Alcorão através do contexto implícito.

    • O exemplo de Abraão (II, 130): a menção «neste mundo» exige o acréscimo «no outro mundo» para evitar uma interpretação limitativa, especialmente face às crenças cristãs contemporâneas sobre o estado de Abraão.
    • O exemplo de Jesus (III, 49) sobre «o que comereis e o que entesourardes»: alusão à Eucaristia e ao tesouro no céu.
    • O exemplo da «mesa do céu» (V, 114): «o primeiro e o último» referindo-se ao santo e ao homem de virtude suficiente, ou ao gnóstico e ao crente simples.
    • Exemplos de prescrições legais aparentemente óbvias (II, 198; V, 93), cujo sentido depende de contextos sociais, históricos ou de princípios morais subjacentes.
  • A explicação para fórmulas divinas (p. ex., «E Allah é Poderoso, Sábio») acrescentadas sem transição a preceitos legais.

    • A existência de «camadas» superpostas no texto: após a menção do temporal, o véu da contingência se rasga e o fundo imutável reaparece.
  • O modo de propagação do Islã para além da barreira linguística.

    • A difusão ocorre primariamente pela manifestação humana, espiritual, psicológica e social do Islã (comportamento, oração, serenidade dos piedosos), não pela leitura direta do Alcorão.
    • A maioria dos muçulmanos não árabes vive os efeitos da Revelação sem conhecer sua causa textual em detalhe.
    • A importância crucial dos ulemas como depositários dos significados implícitos e das tradições comentadas.
  • A interpretação simbólica de passagens como a declaração de Satanás (VII, 17) sobre seduzir os homens «pela frente, por trás, pela direita e pela esquerda».

    • A exclusão do «alto» e do «baixo» indica a limitação do poder satânico.
    • As duas dimensões invioláveis representam a «grandeza» (elevação espiritual, verdade inatacável) e a «pequenez» (humildade, inocência, interioridade do Coração).
    • O tipo vulnerável é o adulto passionais e ambicioso, que não é nem criança (humilde) nem ancião (sábio).
  • A resolução de aparentes contradições nos textos sagrados através da diferença de perspectiva.

    • O exemplo dos ladrões na crucificação: a narrativa de Lucas (um bom, um mau) mostra a oposição bem/mal; a de Mateus e Marcos (ambos injuriando) representa os polos mental e moral do mal na alma humana, onde Cristo é o Intelecto ou a consciência.
    • A primazia da narrativa de Lucas, pois a Misericórdia prevalece sobre o Rigor.
  • A legitimidade de divergências entre textos sagrados de diferentes origens.

    • A analogia com a astronomia exata versus a de Ptolomeu: ambas podem ser espiritualmente adequadas em seus contextos, uma sendo objetiva, a outra «natural» e simbolicamente válida.
    • O exemplo da divergência cristão-islâmica sobre o fim terrestre de Jesus: cada tese transmite providencialmente um aspecto extremo de um mistério, conforme as necessidades espirituais respectivas.
    • O exemplo máximo: a aparente oposição entre o não-teísmo nirvânico budista e o monoteísmo semita, ambos coerentes em seus quadros de referência sobre a Realidade.
  • A conclusão sobre a atitude correta do crente perante as Escrituras.

    • As aparentes deficiências dentro de um mesmo Livro Sagrado são, na realidade, sínteses ou elipses.
    • Para ser ortodoxo, não é necessário encontrar sublime o que se é incapaz de compreender.
    • Basta saber que a Palavra divina é necessariamente perfeita, estejamos ou não, num dado momento, em condições de constatá-lo plenamente.


Heinrich Zimmer: Excertos de "Filosofias da Índia" (Ed. Palas Athena)

Os livros sagrados ortodoxos (sastra) da Índia são classificados em quatro categorias: 1. Shruti ("o que é ouvido"), os Veda e certas Upanixades, considerados como revelação direta: 2. Smrti ("o que é recordado"), os ensinamentos dos santos e sábios antigos, e também os livros jurídicos (dharmasûtra), e as obras que tratam das cerimônias domésticas e de sacrifícios menores (grhvasûtra); 3. Purâna ("antigo, saber antigo"), compendiosas antologias, de caráter comparável ao da Bíblia, contendo mitos cosmogônicos, antigas legendas, saber teológico, astronômico e natural; 4. Tantra ("tear, urdidura, sistema, ritual, doutrina"), um corpo de textos comparativamente recentes, tidos como revelados diretamente por Shiva para ser a escritura específica do Kali-yuga, a quarta idade do mundo ou a época presente. Os Tantra são chamados "o quinto Veda" e seus rituais e conceitos suplantaram, de fato, o já então arcaico sistema védico de sacrifícios tornando-se a nova urdidura sustentadora da vida indiana.


Aldous Huxley: Filosofia Perene

Nas Índias são reconhecidas duas classes de escrituras: a Shruti, ou obras inspiradas que possuem sua própria autoridade, uma vez que são o produto de uma percepção imediata da Realidade Última, e a Smriti, baseada sobre a Shruti, de onde deriva sua autoridade. "A Shruti", nas palavras de Shankara, "depende da percepção direta". A Smriti desempenha uma parte análoga à indução, uma vez que, como a indução, deriva sua autoridade de outra diferente de si mesma. Este livro é, portanto, uma antologia, com comentários explanatórios de passagens retiradas da Shruti e da Smriti de muitos locais e épocas. Infelizmente, a familiaridade com as escrituras tradicionalmente consideradas sagradas tende a gerar, não decerto um desdém, mas alguma coisa que, para objetivos práticos, é quase igualmente maléfica — ou seja, uma espécie de reverente insensibilidade, um estupor do espírito, uma surdez interna ao significado das palavras sagradas.


Daryush Shayegan: Henry Corbin
A expressão corânica de Ahl al-Kitab, literalmente «Gente do Livro», designa uma comunidade religiosa que a princípio possui um Livro santo e pratica constantemente a leitura em vários níveis; uma comunidade cuja existência e a motivação religiosa condicionando seu comportamento, procede deste Livro, porque sua religião é fundada sobre um Livro descido do Céu, um Livro que foi revelado a um profeta missionado por Deus. Assim se alinham ao lados dos muçulmanos, outras comunidades que também possuem um Livro: como os judeus, os cristãos. No Irã os zoroastrianos, em razão de seu Livro sagrado a Avesta, têm igualmente beneficiado deste raro privilégio.

A partir do momento que este Livro santo regra a priori sua maneira de ser no mundo e condiciona seu saber assim como sua visão do mundo, a tarefa primeira que incumbe à «Gente do Livro» é aquela da compreensão. Como compreender, sem se iludir, o fundo de um Livro revelado ao profeta em uma linguagem hermética e codificada? (v. Hermenêutica).