VIDE: RETORNO
Pierre Gordon: IMAGEM DO MUNDO NA ANTIGUIDADE
Como explicar esta noção de um eterno retorno? A julgar pelas conclusões do método comparativo, as tradições sacerdotais nada sabiam disso. Elas mencionavam, de uma maneira relativamente precisa, a degeneração religiosa da humanidade; adicionavam que a visão primordial das coisas se restauraria e que o cosmos físico se reabsorveria no seio do fogo, quer dizer na energia radiante, que constitui sua única realidade. Mas ignoravam todo recomeço do ciclo. Como se veio a considerar uma repetição?
Mais uma vez, para entender os fatos, convém se voltar para os ritos iniciáticos. Seres e objetos sacrossantos eram utilizados para fazer renascer os neófitos. O mana transcendente de uma pedra ou de uma árvore passava a eles e, enquanto iniciados, eram engendrados pelo mineral ou vegetal. Eram «nascidos do rochedo», como Mitra, ou nascidos disso ou daquilo. Em outros casos, quando o renascimento se efetuava pelo revestimento de uma pele animal ou pela estadia nas entranhas de uma besta divinizante, eram os filhos da serpente, do lobo, da vaca, etc.
Na era pós-neolítica, quando as práticas e as noções iniciáticas começaram a enfraquecer, chegou-se a esta conclusão — em suma, lógica, mas que materializaria as visões antigas — que a substância dinâmica graças a qual se operava o «nascimento» do iniciado reintegrava, quando este morria, o ser ou o objeto iniciador. O mana criador se reabsorvia depois de ter se estendido, e uma vez voltando a seu ponto de partida, se estendia de novo. Chegava-se por este caminho ao conceito da transmigração, que foi bastante generalizado, quando da decadência do paganismo, por volta do fim do primeiro milênio antes de nossa era, e que teve nascimento espontaneamente, em diferentes países, como exegese dos ritos iniciáticos. Quando o processo materializante foi levado mais adiante, caminhou-se então para esta visão curiosa que os membros de um grupo — ou seja, os iniciados «nascidos» de um mesmo ser ou objeto — deviam ser em número constante, posto que a quantidade do mana não poderia variar: esta ideia foi corrente, por exemplo, entre os Samaritanos. A transmigração ela mesma conduziu à metempsicose (metensomatose), que visualizava sobretudo a passagem do mana para um corpo animal. A alternância indefinida na expansão e na reabsorção do dinamismo criador inerente ao objeto iniciático se combinou com a existência de dinamismos sagrados análogos nos minerais, nos vegetais e nos animais, para alcançar, quase simultaneamente, à noção da metempsicose e àquela do eterno retorno.
Ananda Coomaraswamy: DA PERTINÊNCIA DA FILOSOFIA
As bases dessa teoria estão no Rg Veda, onde basicamente trata-se de uma questão de manifestação repetida; por exemplo, nesse sentido Mitra é jayate punah (X.85.19) e Usas é punahpunar jayamana (1.19. 10). Uma aplicação individual do espírito do "seja feita a Vossa Vontade" é encontrada no V.46.1, "como um cavalo que compreende (vidvarí), amarro-me no poste (no carro dos anos). . . sem procurar me soltar nem voltar outra vez (na asyah vimucam na avrttam punah); possa Ele (Agni), como o Que tudo abrange (vidvan) e é o nosso Guia do Caminho, guiar-nos para a frente". De fato, o indivíduo "nasce de acordo com a medida do seu próprio entendimento" (Altareya Aranyaka, II.3.2) e, assim como "o próprio mundo está repleto de indícios dos fatos que ainda surgirão" (Santo Agostinho em De Trin. III.9), também o indivíduo está repleto de acidentes que devem "cair sobre si; como diz Santo Tomás de Aquino, "o destino está nas próprias causas criadas" (Summa Theologica (Tomás de Aquino) I.q. 116.2) ou, como diz Plotino, "a lei é dada nas entidades sobre as quais cai. . . prevalece porque está dentro delas. . . e estabelece nelas um desejo penoso de penetrar nos domínios aos quais estão ligadas por dentro" (Enéadas IV.3.15); e analogamente Ibn Arabi diz que, se a existência vem de Deus, a modalidade não vem diretamente d'Ele, "pois Ele só quer que o que existe nela se transforme n'Ele" (Studies in Islamic Mysticism, 1921, p. 151). Por outro lado, podemos garantir que a interpretação budista e as interpretações teosóficas modernas da causalidade (karma) ou destino (adrsta), que afirmam a necessidade de uma volta (menos para quem é mukta ou atingiu o nirvana) exatamente às mesmas condições que foram deixadas para trás na morte, implicam a seguinte antinomia metafísica: "Não se pode pisar duas vezes na mesma água, pois novas águas estão sempre fluindo para nós" (Heráclito). O que é realmente contemplado na doutrina védica e em outras doutrinas é a necessidade de uma manifestação repetida (eternidade após eternidade, se bem que nunca de novo na mesma pessoa e no mesmo ciclo temporal) 1 , de todas as potencialidades ou forças do indivíduo, nas quais o desejo de prolongar a linhagem ainda está funcionando, sendo todo Patriarca (pitr), como o próprio Prajapati, um praja-kamya que consequentemente está comprometido de boa vontade com o Caminho do Patriarca (pitryaná).
NOTAS: